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Destrinchando Waterloo: 202 anos da Batalha que mudou o curso da história

Hoje, 18 de Junho de 2017, completam-se 202 anos de uma das batalhas mais importantes para o curso da história europeia (não apenas dela, como do mundo). Em 18 de Junho de 1815, tropas francesas, sob comando do imperador francês Napoleão Bonaparte e seus Marechais da França, encontraram Prussianos, Ingleses, Holandeses, Alemães sob liderança de Arthur Wellesley, o Duque de Wellington e Gebhard Blücher, marechal de campo Prussiano. O motivo da batalha: O futuro da Europa.

Prelúdio: O Governo dos 100 dias

Após a derrota contra a Quinta Coalizão, resultando na tomada de Paris pelos aliados (Inglaterra, Império Russo, Reino da Prússia, Império Austríaco, Império Espanhol, Suécia, Portugal, Bavária e outros), Napoleão é obrigado a abdicar seu trono e forçado a entrar em exílio na Ilha de Elba, “seu Império em uma ilha”.

No dia 26 de Fevereiro de 1815, entretanto, Napoleão foge de Elba com aproximados 1000 homens, membros de sua guarnição, desembarcando próximo a Cannes. A partir daí, inicia-se uma procissão em direção a Paris. De cidade em cidade o ex-Imperador vai até as prefeituras e praças públicas, aclamado por todos, juntando um exército que somaria mais de 20.000 soldoados até chegar em Paris. Fazendo o então Rei da França, Luis XVIII, fugir. Findando novamente a segunda monarquia Bourbon na França. Em 14 de Março, sob a promessa de reformas constitucionais, Napoleão ascende novamente como Imperador.

A Sexta Coalizão

Ao ouvir notícias do retorno de Napoleão, os antigos aliados logo formaram a Sétima Coalizão contra a França, a Sexta contra Napoleão (sendo a primeira em 1795 contra a França Revolucionária, a segunda em 1799 contra o cônsul e general Napoleão, terceira em 1803 contra o Imperador Napoleão, a quarta em 1806, a quinta em 1809 e a sexta em 1813). A sexta contra apenas um homem. Napoleão era uma ameaça à paz dos grandes impérios.

O Rei Luis XVIII havia deixado poucas forças restantes na França, cerca de 50.000 homens prontos para campanha. Napoleão, até o final de maio, conseguiu mobilizar cerca de 200.000 mil tropas, com mais 65.000 em treinamento ainda não prontos para combate. Assim foi criado o “Armee du Nord”, o exército Norte, comandado pelo próprio Napoleão.

O Czar Alexandre I mobilizou uma força de cerca de 250.000 soldados, os quais foram mandados imediatamente para o Reno (estes nunca chegariam a tempo de participar da campanha de Waterloo). O rei da Espanha, Fernando VII, logo aprontou seus oficiais ingleses para marchar contra a França, ao sul. O Arquiduque Charles, do reino da Áustria, junto do duque de Scharzemberg, formaram dois exércitos austríacos, em pronta marcha contra o Império Francês.

Os prussianos também contribuíram com dois exércitos, um sob o comando do veteraníssimo Gebhard von Blücher, com cerca de 115.000 homens, que deveria se encontrar com o General Wellington, na Bélgica, e outro formado pela Prússia e outros 16 (D E Z E S S E I S) reinos alemães, incluindo o Ducado de Oldeburg, Eleitorado Hesse e a Confederação Alemã, sob comando do general Von Kleist, que deveria atuar independentemente numa invasão secundária da França.

Por último, os ingleses, sob comando do Duque de Wellington, somaram uma força Anglo-Aliada de cerca de 93.000 soldados, sendo estes de diversas partes da europa e Grã-Bretanha. Uma parte composta por forças Holandesas, sob comando do Principe de Orange, Wilhelm, os “Nassau Jägers”, a legião alemã, “King’s German Legion”, a brigada de Hanover, “1st Hanoverian Brigade”, a legião de Brunswick, os “Black Brunswickers” (sob comando do próprio duque de Brunswick), os infames “Scots Greys” (tradicional guarda de cavalaria pesada, formada em 1671, na escócia), e a Black Watch (famosa unidade escocesa de infantaria), entre outras unidades que serão mais exploradas.

As personalidades de Waterloo

  • Napoleão Bonaparte: Primeiro Imperador da França, teve início de sua infame carreira ainda muito jovem, frequentou escolas militares e, durante a revolução francesa, foi general de artilharia do exército revolucionário. Só ganharia fama contra a Primeira Coalizão, em 1795, ao comandar o exército sul, vencendo a Campanha do Norte da Itália, contra Austríacos e Italianos. Desde então, sua ascensão foi inevitável. Tornou-se Imperador da França em 1804, na Catedral de Notre-Dame, onde colocou a coroa sob sua própria cabeça.
Napoleão durante seu exílio em Elba.
  • Michel Ney: Outro grande general francês, que, junto de Napoleão, esteve presente nas guerras revolucionárias. Em 1804 foi nomeado um dos “Marechais do Império”, honraria máxima no Império Francês, instituídas por Napoleão. Foi responsável pela tomada do Tirol durante a Guerra da Terceira Coalizão. E chegou à tempo de salvar Napoleão de ser derrotado na icônica Batalha de Eylau, com sua carga de cavalaria. Entre seus homens era conhecido como “Le Rougeaud” (O Avermelhado) e “Brave des Braves” (Bravo dos Bravos), por Napoleão.
  • Reille: Honoré Charles Reille, outro Marechal do Império, assim como Ney, esteve presente em toda a história de Napoleão, próximo do mesmo desde a época das guerras revolucionárias. Durante a Guerra da Terceira Coalizão, comandou o exército francês na região da Boêmia. Após isso, foi enviado para a espanha, onde comandou as forças francesas nas guerras peninsulares, posteriormente recebeu o comando do Exército de Portugal. Durante o governo dos 100 dias, ajudou Napoleão a angariar tropas e recebeu o comando do II Corpo do Armee du Nord, liderando o mesmo nas batalhas de Quatre Bras e Waterloo.
  • D’Erlon: Jean-Baptiste Drouet, o conde d’Erlon, novamente, outro Marechal do Império, D’Erlon, que havia servido como general de cavalaria, andaria junto de seus Cuirassiers durante Waterloo, responsável pelo comando do I Corpo de exército francês, D’Erlon fez a frente de combate durante a batalha a que este artigo se referência. O mesmo teve destaque ao lado de Napoleão durante a batalha de Austerlitz, contra a Áustria e Rússia, durante a Guerra da Terceira Coalizão.
  • Lobau: Georges Mouton, conde de Lobau, Marechal do Império, (você já deve estar começando a entender como funcionava o exército francês, até esse ponto) esteve presente em todas as campanhas napoleônicas, mas foi receber maior destaque durante a campanha da Rússia, ou onde serviu como oficial sênior de Napoleão.
  • Arthur Wellesley, o Duque de Wellington: Wellesley foi um proeminente general Inglês que se tornou notável após as Campanhas Peninsulares, contra Reille, na Espanha e Portugal. Após o primeiro exílio de Napoleão, lhe foi concedido o ducado pelo qual ficaria conhecido para o resto de sua vida, além de ser promovido a embaixador da França, fazendo com que ficasse de prontidão para novas mobilizações na França. Sua vitória em Waterloo o colocaria como um dos maiores heróis de todo o Império Inglês, honrado até hoje. Além disso, foi eleito Primeiro Ministro duas vezes consecutivas, em 1830 e em 1834. Na mesma medida que também foi Líder da Câmara dos Lordes, de 1830 à 1846, entre outros cargos políticos.
Arthur Wellesley, o Duque de Wellington.
  • Henry Paget, o Earl of Uxbridge: Lorde Paget, posteriormente Earl* of Uxbridge, foi um político e militar inglês, ganhou fama por ser exímio comandante de cavalaria, ganhando destaque pela primeira vez nas campanhas contra Napoleão na região de Flandres, depois nas Campanhas Peninsulares, nas quais derrotou algumas vezes às elites da cavalaria francesa. Ficou responsável por comandar seus Scots Greys durante Waterloo, batalha na qual, em seus estágios finais, teve a perna decepada por um disparo de canhão, o que o levou a uma breve troca de palavras com Wellington, a qual se tornou anedota, segue:
    Uxbridge – “Por Deus, Senhor, perdi minha perna!”

          Wellington – “Por Deus, Senhor, é verdade!”

*“Earl” é uma palavra saxã, com origem no escandinavo “Jarl”, que significa um membro da nobreza; proprietário de grandes terras; talvez o mais próximo a isso no Brasil sejam os “Coronéis”, que eram (e ainda são) proprietários de grandes terras e exerciam (e ainda exercem) poder sob certas regiões brasileiras.

  • Gebhard von Blücher: Embora conhecido por ter sido Marechal da Prússia, Blücher iniciou sua carreira militar dentro do exército da Suécia, como soldado de cavalaria. Ainda como oficial de baixo escalão, foi capturado pelos prussianos durante campanha na Pomerânia, em 1760. Servindo no mesmo posto, durante a Guerra dos Sete Anos, foi forçado, por Frederico, O Grande, a se aposentar por insubordinação. Levaria sua vida como fazendeiro até a morte de Frederico, em 1786. Onde voltaria a servir como oficial de cavalaria, ganhando destaque durante as Guerras Revolucionárias da França. Posteriormente iria adquirir preeminencia durante a batalha de Leipzig, contra Napoleão. Subindo, ao cargo de Marechal de Campo da Prússia. Veteraníssimo, o marechal já tinha 73 anos quando lutou em Waterloo. Posteriormente seria convidado a visitar Londres, meses depois da batalha, como forma de agradecimento. Durante sua visita, exclamou, ao reparar em Londres “Que bela cidade para se saquear!”. Blücher morreria antes que Napoleão, em 1819, com 77 anos.
Gebhard Lebrecht von Blücher.

Unidades infames em Waterloo

 

  • La Vieille Garde: O nome é traduzido literalmente para “A Guarda Velha”, era unidade mais prestigiada de todo o exército napoleônico (e de toda a Europa também), conhecidos entre suas próprias fileiras e inimigos como “Os Imortais”, a guarda velha era constituída apenas por soldados veteranos participantes das antigas campanhas do próprio Napoleão. Para que pudesse ser admitido na guarda, era necessário ter menos de 38 anos, ter participado de pelo menos 3 campanhas (porém alguns tinham até 12 em seu currículo), ter ao menos 1,80 (soldados com menos que isso eram mandados para os Chasseurs de la Garde ou os Chasseurs à Cheval), além de serem capazes de resistir com bravura o fogo inimigo. Em sua maioria seus membros eram fervorosos apoiadores do regime napoleônico e, após a queda deste, foram vigiados de perto pelas polícias dos Bourbon. Após a morte de Napoleão, a Velha Guarda marchou em Paris, de forma simbólica.
    Em batalha, eram inconfundíveis, seus grandes chapéus de pele de urso podiam ser avistados ao longe, causando medo entre os que lhes enfrentavam.

 

Um soldado da Vieille Garde. Ao fundo pode-se ver o próprio Napoleão.

 

  • Garde Impériale: Embora a “Guarda Imperial” fosse uma denominação geral para todas as tropas de elite, sua maioria era composta pela Guarda Nova, Jeune Garde, composta pelos melhores recrutas da temporada, os quais ascenderam até chegar à Vieille Garde.
  • La Grand  Batterie: Literalmente significando ‘Grande Bateria’, foi uma Tática Francesa empregada por Napoleão nas fases mais tardias (1808) de suas campanhas. A tática consistia em bombardeios rápidos e massivos a um ponto específico nas posições inimigas, na maioria das vezes o centro. Graças ao terreno infavorável em Waterloo, a lama que havia se aculmuado com as chuvas, ela não pode ser propriamente usada naquele dia. Fato que é apontado como uma das variáveis que levou Napoleão a ser derrotado.
  • Dragons de la Garde Impériale: Uma unidade de cavalaria pesada criada pelo próprio Napoleão ‘Dragons de la Garde Impériale’ ou ‘Dragões da Guarda Imperial’ foram criados por decreto em abril de 1806. Ganharam fama nas campanhas Germânicas em 1805 e participaram de muitas outras batalhas terminando na de Waterloo, na carga de cavalaria do Marechal Ney. Após isso o regimento foi reformado no Segundo Império (1852-1870).

 

 

Desenho de um Dragão da Guarda.

 

  • Chasseurs à Cheval de la Garde Imperiale: O equivalente à Vieille Garde e à Guarda Imperial, em uma versão de cavalaria, os mesmos eram os homens com menos de 1,80, dispensados da unidade a pé. Seu diferencial das outras unidades é que, além de portarem sabres, também eram exímios atiradores, e utilizavam carabinas. Ganhariam fama depois da Batalha de Eylau, a qual, sob comando de Michel Ney, salvariam Napoleão de ser derrotado.
  • Cuirassiers: Literalmente significando os “Couraçados”, os Cuirassiers eram a unidade de cavalaria mais pesada dentre as fileiras francesas. Os mesmos não eram exclusivos apenas à França. Sua história remonta os estágios finais da Idade Média, sendo eles a junção do cavaleiro com seu equipamento completo e o cavalo. Utilizavam de grossas armaduras de metal e também portavam carabinas, suas cargas se demonstravam devastadoras, pois, por seu peso, davam a sensação do solo tremer e causavam abalos morais entre os inimigos. Seriam utilizados em batalha pela última vez nos primeiros estágios da Primeira Guerra Mundial. Entretanto, ainda são utilizados como tropas cerimoniais em diversos países.
Reprodução de um Cuirassier durante reencenamento de Waterloo, 2011.

 

  • Scots Greys: Os Scots Greys são uma unidade de cavalaria pesada britânica formada em 1671, ainda no Reino da Escócia, após a união de 3 unidades de Dragões. Estariam presentes em quase todos os conflitos internos ingleses até sua consolidação como Reino Unido. Ainda estariam presentes na Guerra dos Sete Anos, Guerra da Independência dos Estados Unidos, Guerra da Sucessão Austríaca e Guerra da Sucessão Espanhola. Após as guerras napoleônicas, ainda serviram na Guerra da Criméia, Egito, Guerra dos Bôeres e, incrivelmente, nas duas Guerras Mundiais. Em 1971 sua unidade seria unida com os Dragões da Guarda do Príncipe de Gales, que está ativa até os dias de hoje.
A captura de uma das Águias do exército francês durante a Batalha de Waterloo, por um membro dos Scots Greys.
  • Black Watch:  Criados em 1748, como os Royal Highlanders, a “Guarda Negra”, esteve presente em dezenas de outros conflitos, sendo a primeira unidade escocesa a lutar em solo Norte Americano. Seu serviço não acabaria em Waterloo, posteriormente serviriam em dezenas de outros conflitos, como as duas grandes guerras mundiais, até que em 2006 seriam unidos com outras unidades de Highlanders para formar o Corpo Real Escocês.
Um membro da Guarda Negra como sentinela, 1892. O Kilt característico dos Royal Highlanders continuou sendo utilizado pela unidade desde sua criação até suas participações nos dois conflitos mundiais.
  • Black Brunswickers: As tropas do ducado de Brunswick foram uma série de voluntários oriundos da região, nascidos do ressentimento que o Duque Friedrich Wilhelm, de Brunswick, sentia de Napoleão após este ocupar as terras do ducado em 1809. Ganharam infâmia por suas bravas atitudes durante seu período pré-waterloo. Eram conhecidos por utilizar uniformes negros com caveiras em seus chapéus. A unidade foi desintegrada poucos anos depois do fim das Guerras Napoleônicas, no início da década de 1820.
Um Black Brunswicker em suas vestimentas características.
  • Coldstream Guards: Talvez a unidade mais famosa de todo o exército inglês, você certamente os conhece, provavelmente não pelo nome. São a nata do exército inglês, hoje responsáveis por guardar o Palácio de Buckingham (sim, aqueles soldados que ficam parados na frente do palácio com chapéus de pele enormes). Formados em 1650, durante a Guerra Civil inglesa, sob as ordens de Oliver Cromwell, a lista de participações dessa unidade vai dos próprios conflitos da Guerra Civil Inglesa, passando pelas Guerras Napoleônicas, Guerra da Criméia, Primeira e Segunda Guerra mundial, até a Guerra do Golfo, em 1991. A unidade está em atividade até hoje como uma das unidades mais tradicionais do exército de vossa majestade.
Coldstream Guards durante a Guerra da Criméia.
  • Hanoverian Brigade: O Reinado de Hanover, sob o reino de George Louis, da casa de Hanover, se tornou parte do Reino Unido quando o mesmo George ascendeu como George I, Rei da Inglaterra, em 1714. Desde então o pequeno reino esteve sob comando do Reino Unido. Quando explodiram as guerras napoleônicas, Hanover estava lá para ajudar as Coalizões. A brigada consistia de homens provenientes da região norte do que hoje é a Alemanha, por conta disso, suas tropas tinham dificuldades para seguir ordens de oficiais ingleses, o que lhes garantiu certa autonomia ao passarem a receber apenas oficiais alemães, também. A unidade ganhou fama após a defesa milagrosa de Hougoumount, durante a batalha de Waterloo.
  • Nassau Jägers: A infantaria leve dos países baixos, sob o comando do próprio Wilhelm de Orange teriam tudo para passar despercebidos. A verdade é que as condições financeiras dos países baixos, naquela época, não eram das melhores. Seus soldados estavam pouquíssimo equipados e foram encarregados por Wellington de assegurar o flanco direito, junto das tropas de Hanover. Os mesmos eram conhecidos como os “Covardes dos países baixos”, junto com o próprio Príncipe, por terem se aliado com a coalizão, e não com Napoleão.
  • King’s German Legion: A Legião Alemã do Rei, formada por soldados de origem germânica, foram uma força de elite dentro do exército real. Embora sua maioria esmagadora de recrutas viessem do Reino de Hanover, muitas outras regiões da alemanha contribuíram para suas fileiras. Criados em 1803, se mostraram demasiadamente eficientes nas Campanhas Peninsulares. Embora dissolvidos em 1816, se tornaram parte do Exército Real de Hanover, e posteriormente uma unidade de elite do Exército Imperial Alemão, após sua consolidação em 1871.
Três tipos de soldados da KGL, da esquerda para a direita: Um soldado de Infantaria de Linha, um Jäger (“caçador”, nome designado para infantaria leve) e um soldado de cavalaria.

 

As Batalhas de Quatre Bras e Ligny

Em 15 de Junho dão-se inícios as hostilidades da Campanha de Waterloo. No dia 16 Forças francesas, sob comando de Michel Ney (um dos marechais mais próximos a Napoleão), com cerca de 20.000 homens (divididos entre infantaria, cavalaria e artilharia), derrotaram a seção esquerda do exército Anglo-Aliado, com cerca de 36.000 soldados, sob comando de Wellington próximo à Quatre Bras. Confronto o qual impediria que o exército inglês se encontrasse com o exército da Prússia. Durante a batalha, inclusive, o Duque de Brunswick viria a falecer, deixando sua infame unidade, os Black Brunswickers, sob o comando do próprio Wellington.

No mesmo dia, sob o comando de Napoleão, cerca de 60.000 franceses venceram o exército da Prússia, aproximados 83.000 prussianos, sob o comando de Blücher, que avançava sobre a vila de Ligny (num confronto que renderia, ao menos, outro artigo tão desenvolvido quanto este). Resultando no exército da Prússia recuar para o norte, em direção à vila de Wavre, impedindo que este pudesse se encontrar com as forças de Wellington.

Wavre

Sob as ordens de Napoleão, o Marechal Grouchy foi mandando, com cerca de 30.000 homens perseguir as tropas Prussianas que recuavam de Ligny. As forças de Grouchy finalmente encontrariam os prussianos na vila de Wavre, ao norte de Waterloo, no mesmo dia em que Napoleão se encontra com Wellington em Waterloo. Porém, Blücher ordena que apenas sua retaguarda segure a vila, enquanto a força principal marcha em direção à Waterloo. A batalha aqui só terminaria na madrugada do dia seguinte, com uma vitória francesa.

A Batalha

Domingo, 11h da manhã o Armee du Nord chega nas imediações de Mount St. Jean, o qual foi ocupado  pelas forças de Wellington nas horas anteriores, a chuva característica da época fez com que o solo se tornasse fofo, impedindo assim que Napoleão trouxesse sua Grand Batterie por completo, as peças mais pesadas da composição ficariam de fora naquele dia. Em virtude disso, os franceses só puderam chegar mais tarde que o previsto na região. Bonaparte preferiu esperar para que o solo secasse e suas tropas pudessem avançar de maneira concisa.

Posições no início da Batalha.

No mapa acima é possível identificar os posicionamentos durante a batalha. O mapa mostra as posições no dia, com adição da geografia atual do Google Maps. As forças vermelhas são as Anglo-Aliadas, as azuis, as de Napoleão.

Os pontos chave estão circulados em preto, são estes: Hougoumount, La Haye Sainte e Papelotte, três grandes casas, reforçadas por muros de pedra, as quais Wellington escolheu cuidadosamente tomar como bunkers para aquele dia.

Hougoumont

Aproximadamente às 11h30m, a sinfonia dos canhões napoleônicos começou a soar contra as forças inglesas, especialmente contra à fortificação no flanco esquerdo, Hougoumont. Wellington, na noite anterior, montou uma tática muito eficiente para proteger suas tropas: As posicionou atrás de colinas, de maneira que fosse possível ver o avanço francês, sem que estes pudessem os atingir. De qualquer maneira, o solo fofo da região permitiu que os disparos da Grand Batterie furassem trechos da colina e causassem pesadas baixas entre as tropas inglesas.

O bombardeio contra Hougoumount durou meia hora, após este, Napoleão enviou sua Guarda Imperial avançar contra a fazenda, que era guardada por uma força de cerca de 3,5 mil ingleses, sendo estes os soldados de Hannover (1st Hannoverian Brigade) e um regimento de Coldstream Guards, além de infantaria leve de Nassau (Nassau Jägers), cerca de 10 mil franceses, do II Corpo, sob comando de Reille, avançaram contra Hougoumont, que havia acabado de ser reforçada por Wellington. A tática era simples: fazer com que Wellington reforçasse Hougoumont para que o centro, próximo a La Haye Sainte perdesse forças, o que acabou não ocorrendo. O combate em Hougoumont duraria até o fim da batalha (até às 20h~21h), com forte resistência inglesa, drenando preciosas forças da Guarda Imperial, um esforço milagroso que é lembrado até os dias de hoje. Hougoumount ainda receberia reforços, devido à imensa quantidade de tropas francesas pressionando o lugar, estes reforços seriam os Brunswickers, que teriam se voluntariado para tomar parte do combate na fazenda.

O ataque mais famoso desse setor foi o dos 1st Legere, o batalhão que, utilizando de machados para o combate, invadiu a casa pelo portão norte, e conseguiram adentrar a fazenda, porém estes seriam fechados num combate tão intenso que levaria todos a morte, exceto por um menino que carregava um tambor de marcha.

Combate em Hougoumount.

 

La Haye Sainte

Às 13h, Napoleão ouve notícias de Prussianos se aproximando de Waterloo, pelo norte, e envia seus imediatos contatarem Grouchy, que havia sido mandado no dia anterior com cerca de 35,000 homens para encontrar Blücher e engajá-los. Grouchy encontraria os Prússianos em Wavre, porém não sua força completa, apenas algumas brigadas deixadas para guardar a cidade, a força principal de Blücher se movia sem empecilhos direto para Waterloo. Os imediatos de Napoleão nunca alcançariam Grouchy a tempo. Nesse momento, os mesmos estão a cerca de 8km de distância da batalha, e levariam horas para chegar.

A decisão para o primeiro ataque de infantaria é feita, o I Corpo de Infantaria, sob comando de d’Erlon avança em direção a La Haye Sainte, em colunas, o que se mostraria um grande erro, a artilharia inglesa causaria muitas baixas ao I Corpo, cerca de 8 a 10 divisões se moveram em direção a La Haye, sob comando de Michel Ney e d’Erlon, que no momento era defendido pela King’s German Legion. Os alemães, que eram vencidos muitas vezes em números, de alguma forma defenderam a casa. O Príncipe de Orange, vendo a situação, enviou outra de suas unidades de Jägers para reforçar a casa, unidade que foi completamente aniquilada pelos Cuirassiers que auxiliavam no avanço, estes ultrapassaram La Haye, cavalgando até o começo da colina, cortando La Haye do resto do exército inglês.

Após esse movimento, sob o comando do Maj. Gen. Picton, cerca de 6,000 soldados foram enviados para reforçar o flanco de La Haye, os quais enfrentavam mais de 14,000 soldados sob o comando de d’Erlon. O ataque se mostrou favorável. Atrás de La Haye, combatendo o avanço francês estavam os Royal Scots e a 42ª divisão de Royal Highlanders, a Black Watch.

Observando tal combate, a cavalaria pesada inglesa, os Scots Greys, sob o comando de Lord Uxbridge, entram em ação. Descendo a colina, os Greys foram capazes de perfurar o avanço francês, passando para trás das linhas inimigas, causando severas baixas. Ao ver isso, d’Erlon ordena seus Dragoons de la Garde parar este avanço, os Greys, nesse ponto, foram quase destruídos por completo, poucos, incluindo Uxbridge, conseguiram retornar.

A carga dos Scots Greys.

 

Às 16h, todas as tropas sob o comando de d’Erlon estavam perigosamente engajadas em combate, nesse ponto, já era possível ver tropas Prussianas se aproximando ao norte. Napoleão ordena que Lobau e seu IV Corpo avancem diretamente para o flanco direito, ao norte, para enfrentar os Prussianos.

 

O Ataque da cavalaria francesa

 

Às 16h, Ney nota uma movimentação no centro inglês, interpretando isso como um recuo, e, contra as ordens de Napoleão, o general avança com toda a sua reserva de cavalaria. Cerca de 4,800 Cuirassiers e outros Chevaliers de la Garde, somando mais de 9,000 cavaleiros, avançaram contra o centro inglês. Aos gritos de “Vive l’Empereur!”, encontraram as reservas inglesas, que resistiram, formando quadrados de 500 homens. Os ataques sucessivos somaram mais de 10 assaltos de cavalaria, descrições de soldados ingleses documentam que “podia-se sentir o solo tremendo, uma enorme linha negra de cavalos se formou ao horizonte, ao cessar da artilharia francesa, eram os famosos Cuirassiers”.

Vendo as incessantes tentativas de ataque falharem, Ney ordena que sua cavalaria, já muito debilitada, retorne. Estes não entrariam em combate novamente, seu recuo, entretanto, causaria grandes danos à moral do exército francês.

O ataque da Guarda Imperial e a chegada dos Prussianos

Ao que a cavalaria de Ney retorna, se torna certo que La Haye não irá cair assim tão fácil, às 16h30m, Napoleão ordena que sua Guarda Imperial avance contra La Haye Sainte. Durante o avanço em blocos, pesadas baixas são tomadas (vale lembrar que até aí o combate feroz e em Hougoumont continua), mas estes conseguem chegar à La Haye, e após uma série de combates corpo a corpo, a Legião Alemã (King’s German Legion) finalmente cede e o centro inglês cai nas mãos dos franceses, que agora passam a infringir pesadíssimas baixas contra a Black Watch e os Royal Scots, os quais tentam defender a linha atrás de La Haye Sainte.

A tomada de La Haye Sainte.

 

Às 17h os primeiros combates entre as tropas dos Prussianos e o destacamento de Lobau começam o combate, na parte traseira do exército francês. Aos poucos os Franceses são empurrados até chegarem à Placenoit, uma quarta fazenda fortificada, a qual Napoleão ordenou que fosse guarnecida.

 

A zona com o quadrado preto é a fazenda de Placenoit, os quadrados em preto são as forças do IV Corpo Prussiano, sob comando dos generais Bülow e von Zieten, pressionando as reservas de Lobau contra Placenoit.

 

Wellington finalmente está prestes à quebrar, o general, desesperado, entrinchera-se no alto de Mount Saint Jean, esperando o momento certo em que Blücher apareça.

Ney, então, agora corretamente, identifica o momento certo para atacar, e pede a Napoleão que lhe envie mais tropas para um último assalto. Este, entretanto, lhe responde irritado que não pode criar mais reservas do nada, o general espera que e Grouchy e seus 30.000 homens apareçam logo, com 30.000 homens a mais ele venceria a batalha. Os mesmos nunca apareceriam.

Grouchy, que lutava em Wavre, pôde ouvir os canhões rugindo em Waterloo, o mesmo seria capaz de mobilizar sua tropa para auxiliar Napoleão, porém, preferiu seguir suas ordens exatamente como ordenado, e engajar uma quantia muito inferior de Prussianos.

Napoleão, então, envia sua última cartada, separa 8 batalhões de sua Jeune Garde e as envia para defender Placenoit, o combate é feroz, mas a guarda novamente honrou seu nome, mais de 14 batalhões prussianos foram dizimados na defesa de Placenoit, porém, as sequências de ataques prussianos são tamanhos, que à Jeune Garde é retirada à força de Placenoit.

A tomada de Placenoit pelos Prussianos.

 

Napoleão, então, separa outros dois batalhões, agora de sua Vieille Garde, e os envia para retomar Placenoit, os que executam a tarefa após uma sangrenta carga de baionetas e um longo combate corpo a corpo. A fazenda é segurada.

O último ataque da Vieille Garde

Às 19h com sua retaguarda segurada pelos dois batalhões da Vieille Garde, Napoleão pode novamente se preocupar em derrubar o centro inglês, finalmente. Retirando sua última cartada, os quatro batalhões restantes da Vieille Garde, numa tentativa de destruir a artilharia de Wellington e vencer a batalha.

O avanço da guarda é conciso, e causa pesadas baixas aos ingleses, agora entrincheirados no topo de Mount Saint Jean, esperando um verdadeiro milagre. Nesse momento, Blücher aparece com a maior parte dos soldados prussianos, assaltando o flanco francês, em Papelotte. Mesmo assim a guarda continuou seu avanço, sendo flanqueada por alemães, ingleses e holandeses – todos repelidos. Mesmo lutando em uma proporção de quase 4 contra 1, nada parou a Vieille Garde, que demonstrou toda a sua ferocidade. Em um último instante, o general belga, David Hendrik Chassé (o qual havia trabalhado junto às forças de Napoleão, quando a bélgica era de domínio francês, e agora lutava ao lado dos ingleses), convoca seus últimos e debilitados 6 batalhões e comanda uma carga de baionetas contra a Guarda, sendo a última carga demais até para os veteranos da Garde. Pela primeira vez em sua existência, a Velha Guarda recuou.

O recuo da guarda foi de tamanhos efeitos que todo o centro francês perdeu o controle e recuou. Wellington, em uma ordem desesperada, comanda o avanço geral. Blücher avança de Papelotte para o centro francês, quebrando quaisquer resistências.

Às 21h Blücher e Wellington finalmente se encontram e, em um aperto de mãos, comemorando a derrota francesa. A batalha, finalmente, chega à um fim. O próprio Bonaparte escapa por pouco do campo, indo diretamente para Paris.

Consequências

Waterloo marcou o fim do Império Francês. Incapaz de reunir mais tropas, Napoleão foi forçado a render-se aos aliados e ser exilado na remota ilha atlântica de Santa Helena, próxima à costa sudoeste da África. Dessa vez não haveria escapatória. Ele morreria lá, 6 anos depois, em 1821. Os que estiveram junto de Napoleão durante seus 100 dias seriam vigiados de perto pelos Bourbon, na restauração do reinado. Seu legado, não apenas como líder militar, mas como governante, reformador e pessoa, restam até os dias de hoje.

Emanuelle Grouchy, que poderia ter ajudado Napoleão em Waterloo, ao ouvir a batalha ao longe, mas se comprometeu em vencer a batalha de Wavre, passaria o resto de sua vida sob a acusação de ter sido o marechal que traiu Napoleão.

O fim de Waterloo também marcou um período de relativa paz na Europa. Nenhum dos grandes poderes lutariam entre si por 40 anos, até a Guerra da Criméia, que envolveu a França, Império Otomano, Império Russo e o Império Britânico. Os Britânicos, inclusive, não lutariam em solo continental por quase 100 anos, até o Agosto de 1914.

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social - Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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2 comments

  1. Muito foda o post, aprendi muito sobre um assunto que eu não sabia nada.

  2. Melhor artigo disparado da página, muito foda ! Parabéns