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Verdadeiramente Universalista  X  Eu colocarei sempre a América em primeiro lugar

Na manhã de ontem em Nova York, o discurso de Michel Temer direcionado À ONU denota pretensões liberais, pacifistas e internacionalistas. Em sua fala, se orgulha do caráter “Verdadeiramente Universalista” da política externa brasileiro, na medida em que exibe com orgulho a nova lei de imigração, políticas econômicas liberais assim como sua participação no tratado pela proibição de armas nucleares.

AVISO: Este artigo é um comentário histórico, político e atual, simbolizando um exercício mental e intelectual de entender o presente assim como o passado. Além disso, não representa expressamente a opinião de todos os editores assim como nem mesmo alguma posição oficial do Website HFMB.

O discurso de Temer diz respeito sobretudo ao presente e ao futuro, mas sua tonalidade ideológica tem origens mais fundas. Suas raízes estão fincadas no liberalismo clássico, na política de boa vizinhança e mais recentemente, no globalismo geopolítico. Porém, há de se questionar se suas palavras estão plenamente condizendo com suas políticas nacionais.

A práxis política muitas vezes se distancia da retórica internacional; Neste artigo veremos em quais pontos o discurso de Michel está contextualizado em nosso passado e de que forma essa política externa “Universalista” –caso seguida a risca- coloca o Brasil no cenário internacional.

No outro lado da moeda, temos o presidente Norte-Americano Donald Trump, que adotou em diversos pontos, um discurso diametralmente oposto ao do representante brasileiro. Sua fala teve sobretudo um caráter belicista, nacionalista e de pretensões protecionistas. Além disso, Trump revelou um claro descontentamento em relação as Nações Unidas, por serem cada vez menos submetidas aos interesses estadunidenses.

A desilusão de Trump com a ONU é aquela de uma pessoa que perdeu seu melhor amigo para outros mais interessantes. Trump fez questão de deixar bem claro que aquela cidade era Nova York, sua cidade e cidade dos EUA, colocando quase que uma placa invisível sob o prédio “está é a minha propriedade”; No mínimo, embaraçoso.

Agora, quanto aos pontos levantados por Trump assim como sua agenda, é preciso também contextualizar e encaixar seu discurso paralelamente com seus análogos no passado. Isso porque, da mesma forma que o discurso de Temer, as palavras de Donald dizem respeito não só ao presente, mas também ao passado.

Universalista à lá tupiniquim

Sua fala inicia-se com apelos pela paz e pela democracia, e seu discurso se vê bastante de acordo com as falas protocolares das Nações Unidas. Para o bom entendedor, nem mesmo muitas palavras bastam no que diz respeito ao blá-blá-blá dos discursos oficiais. Entretanto, levanta alguns pontos interessantes: gosta sobretudo de apontar as áreas de excelência e vanguarda brasileiras e traz as boas novas para a comunidade internacional. Parece até que está fazendo propaganda política em horário gratuito.

Tirando as possíveis piadas de lado, um brasileiro ao ouvir essa parte claramente a ouve com certo ceticismo. Além disso, a parte que realmente toca na ferida brasileira –A corrupção, os jogos políticos e os problemas econômicos- foi delicadamente omitida. Ainda bem que não nos informamos apenas por meio dessas ocasiões.

Apesar de uma alfinetada ou outra o discurso de Temer nos oferece algo interesantíssimo: Sua tonalidade liberal. Ao passo que defende veementemente a abertura econômica, a responsablidade fiscal e a manutenção do welfare state. No entanto, qual a genealogia desse discurso?

A abertura econômica tem endereço certo: se refere ao capitalismo liberal inglês, transformado pela crise de 1873 e 1929 e por fim, chegando ao século 21, entre keynesianos e neo-liberais. A respeito destes dois últimos, o Brasil de hoje parece estar lidando com o seu problema de forma própria sem se prender demais a nenhum modelo, talvez esse seja um ponto forte.

No entanto, muitos ainda duvidam sobre a eficácia do corte de gastos e estão temerosos quanto a situação dos benefícios e serviços públicos antes alimentados por um largo financiamento estatal. Além da evasão fiscal e da sonegação, os recursos que por fim retornam a população são mal gastos e gerenciados, tornando microscópicas as benesses estatais (em relação ao que poderiam ser)

A partir do problema levantado pelo último parágrafo, o corte de gastos, aparece como um agravante desse problema. Pensa-se apenas no aumento do fluxo de recursos, sem pensar na forma de melhor gerenciá-los. Talvez porque haja –e com certa razão- uma enorme descrença no poder efetivo do estado e melhorar sua auto-gestão e transparência.

Por último, fica claro então que esse desejado paraíso liberal aqui no Brasil não há, e há somente um desejo talvez de desenvolver aqui um país sob os moldes britânicos do Século XIX.

Além disso, a proposição de um Brasil “verdadeiramente universalista” quase se encontra dentro de um idealismo Freyriano (Gilberto Freyre). Ainda que não esteja errado em qualidade, está equivocado em intensidade, tal universalismo é bastante limitado aqui em terras brasileiras.

Paralelos, paralelos e paralelos

Enquanto Temer discursa com orgulho a entrada de alguns imigrantes e refugiados em suas terras, Trump se mostra descontente e indignado com a imigração, mas sem deixar de despejar recursos em ajudas humanitárias. Parece que a práxis e o discurso dos dois se contradizem em alguma medida.

Por conseguinte, Trump aparece como uma figura quase que prussiana: Acompanhado de homens de seus homens, fardados, destilando nacionalismos e ascenando com uma mão e segurando mísseis nucleares em outra. Trump tem intenções políticas e internacionais bastante antiquadas mas precisa manter a agenda internacional dos EUA intacta em alguma medida.

As aspas do dia talvez tenham sido: “I will always put America First”. Também sugere aos outros chefes de estado que sempre coloquem seus países como primeiro plano, em defesa de seus interesses antes de tudo.

Essa declaração –que não espanta ninguém- mas diz respeito a uma descrença nos valores globalistas e internacionalistas propostos pela ONU. Espanta verdadeiramente que a maior liderança mundial, até pouco fiel à estes valores universalistas, esteja agora se voltando para si e dando um exemplo, talvez não muito bom.

Quando falamos de nacionalismos e isolacionismos gosto sempre de pensar na paz armada pré-primeira guerra e na segunda guerra mundial. Em ambos cenários observamos oque acontece quando há a transição entre os valores democrático, liberais e pacifistas, rumo aos ideais nacionalistas e belicosos.

O mundo certamente precisa de paz, guerras não resolvem conflitos. As nações devem ter suas identidades sim, mas isso não significa que sua auto-determinação seja argumento para a aniquilação da identidade de outrem. Existe um caminho para um nacionalismo brando e para uma mediação pacífica para os conflitos internacionais.

A crise na Coréia pode ser uma justificativa para o início de uma nova onda de conflitos globais, e as nações humanas estão em posição privilegiada para decidir se vão ingressar em guerras ou impedir o desperdício de vidas humanas e recursos econômicos.

Portanto, o discurso de Temer, ainda que idealista e pouco condizente com a realidade brasileira, fala mais alto para uma realidade que deve ser apreciada internacionalmente e que o Brasil e cada país possa ser verdadeiramente universalista.

Já em relação ao presidente Trump, a defesa de seu país e de seus interesses é sim algo correto, mas há de ser sábio e brando na forma de conduzir a política externa de um país, para que este não mergulhe o mundo todo e uma outra guerra mundial.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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2 comments

  1. Só pq a ONU finalmente atende à mais de uma nação, e tenta conciliar as coisas sem pesar mais pros EUA nas questões como era antes, foi que o Trump ficou boladinho com ela?

  2. Leonardo José

    Achei o artigo bem equilibrado e pesando prós e contras, além das diferenças entre discurso e ações. Obrigado pelas informações, fiquei um pouco por fora da conferência.