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O desastre da Unificação Alemã

A Unificação Alemã foi um desastre: Economias entraram em crise; o balanço dos sistemas de poder e diplomacia entrou em colapso; O belicismo alemão em conjunto com a crise de 1873 inauguraram uma nova era de armamento e imperialismo que só terminou com o inevitável conflito de 1917, a sangrenta grande guerra.

A unificação alemã em 1871 irrompeu pela primeira vez o domo geopolítico inglês sob a Europa. A guerra franco-prussiana derrotou tanto o exército quanto o prestígio francês e demonstrou o poderio prussiano a todo mundo. Encerrado o conflito, A Alemanha do norte, já unificada economicamente, se unificou diplomaticamente e todos os principados da baixa e alta Alemanha com exceção da Áustria foram anexados pelo Rei da Prússia, agora consagrado como Kaiser Alemão.

Longa Depressão de 1873

Na mesma década da formação alemã, apenas dois anos mais tarde, a europa entrou em crise econômica, a chamada “longa Depressão”, causada principalmente pela desestabilização da prata como moeda.

A Prata já havia passado por uma desvalorização na idade moderna graças aos engenhos prospectores de Potosí na América espanhola. Ao final do século XVII a prata valia quase o mesmo tanto que aço. Para remediar a situação, boa parte da prata passou a ser escoada para compra de produtos Chineses, pois o mercado chinês, o maior do mundo, ainda dava bastante valor ao metal.

Porém, já no século XIX, o crescimento dos mercados e das economias industriais observou o aumento da necessidade de moeda. enquanto isso, um novo surto de metalismo tomava conta de promissoras regiões do meio-oeste Estadunidense. Essa nova prata e ouro produzida nas Américas foi de extrema importância para lastrear a moeda neste período de expansão econômica, sobretudo inglesa e norte-americana.

Em 1871, as reparações de guerra impostas pelo tratado de Frankfurt  exigiam a quantia exorbitante de 200 milhões de libras como indenização. Esse montante tinha proporções assimétricas para a Economia alemã da época, oque provocou um surto de investimentos na Europa central e um processo hiperinflacionário. O desastre se encaminhou de vez quando o governo alemão decidiu emitir a prata não utilizada como moeda aprofundando a desvalorização do metal nos mercados internacionais.

Você pode estar se perguntando:  como o mesmo dinheiro ( as 200 milhões de Libras ) saíram da França e causaram tanto estrago nas mãos alemãs? A resposta é simples: A economia Francesa isoladamente era a maior economia européia, se não consideramos as possessões coloniais. Nesse contexto, os 200 milhões estavam investidos e reinvestidos na economia em diversos níveis de capital produtivo, dívidas públicas e créditos. Ao passar o mesmo montante a uma economia ainda emergente, a explosão produtiva causada pelo surto de investimentos e a baixa permeabilidade da nova moeda emitida causaram uma desestruturação imediata nos mercados.

Como explicado pelo artigo “Porque os ingleses não dominaram o mundo?”, a crise de 1873 ocasionou o surgimento de uma nova ordem política e econômica, o chamado capitalismo monopolista-imperialista. Essa fase esteve marcada por seu anti-liberalismo, armamento e uma renovada onda de colonialismo e exploração econômica.

Os problemas mais imediatos são claros, o armamento e o revanchismo pós 1871 resultaram no conhecido sistema de crises diplomáticas que levaram à grande guerra. Além desses, há também um problema igualmente relevante: A exploração das colônias africanas e asiáticas, além de ter resultado em graves perdas humanas, representou um status quo para as economias coloniais com raríssimas exceções  além de um elevado gasto europeu com a manutenção e armamento de seus impérios. Ou seja, o imperialismo sob um amplo ponto de vista, teve um impacto negativo para as potências Europeias.

“O Grande ogro Alemão” Cartaz satírico francês.

Grande Guerra

Se não fosse a longa depressão e a unificação alemã, a era dos impérios talvez nunca houvesse ocorrido e talvez um mundo capitalista e liberal sob a proteção inglesa tivesse existido até hoje.

Em 1914, o nacionalismo e patriotismo das potências revanchistas era tão alto que havia uma comoção civil com a guerra. Soldados marchavam pelas cidades enquanto eram exaltados com flores e belas moças lhes davam chocolates e cigarros, desejando-lhes boa sorte. Nas ruas de Berlim, esses soldados acreditavam que a guerra declarada em Julho teria seu fim até antes do natal. Todos estavam crentes que seus filhos, pais e irmãos estariam de volta até a ceia de 24 de Dezembro.

Por razões muito conhecidas, o conflito durou muito tempo e a guerra entre as potências do fronte ocidental permaneceu em um cruel empate. Aquele era o conflito tão esperado por um século quase inteiro de paz. No entanto, na medida que a guerra se desenrolava, o entusiasmo inicial se transformava em desespero e todo aquele patriotismo se dissolvia como pó.

Talvez a nação mais patriótica e nacionalista entre todas as potências beligerantes tenha sido a Alemanha. Sua unificação forjada a aço e sangue ainda na capital de seu inimigo subjugado eram o sonho dos ufânicos Teutões. Nenhuma outra potência desejava se expandir com tanta força como eles e seu passado emergente lhes dava a confiança de um enorme potencial para o futuro. Decerto, a Alemanha fora por muito tempo a nação europeia mais determinada em garantir o seu lugar sob o sol.

Meme: Política Externa de Wilhelm II.

Segunda guerra

A derrota humilhante imposta pelo tratado de versailles é simbolicamente a vingança tão esperada pelos franceses em relação ao tratado de Frankfurt. E quase como uma ironia do destino, a Alemanha se via mergulhada na mesma sensação de revanchismo que seus rivais.

O estremecimento das relações Franco-Alemãs e a infinda sede de conquista do povo alemão levou aos seus ideários mais radicais proporem novas ideias, desde um restaurado orgulho alemão como também a refundação de um império alemão. A classe de pessoas mais adepta desse pensamento fora  a antiga aristocracia militar e alguns leais soldados entrincheirados no fronte Ocidental.

Quando a República de Weimar foi instaurada e deu fim a primeira guerra, os veteranos se tornaram uma das classes mais politicamente conservadoras. Entre esses e outros motivos que um dos presidentes mais adorados de Weimar foi o General Hindenburg, Herói de Guerra Prussiano.

A ascensão do partido nazista de Hitler responde não apenas as dificuldades financeiras da república como também promete a restauração do perdido orgulho nacional. Hitler promete um espaço vital para o povo alemão e logo as classes mais conservadoras veem nele uma solução tanto em relação ao liberalismo como ao socialismo.

Meme: “Quando a Alemanha declara guerra à França”.

Conclusão

Nenhum evento histórico está sozinho nem sequer a culpa dos problemas e questões passadas se concentra nas mãos de um grupo apenas, a história é gerada por todos. No entanto, me parece que em um circuito de clara causalidade entre subsequentes transformações econômicas e diplomáticas tenha sido alterada graças a um evento em específico.

A esse evento, remete-se quase a um fatalismo espinosiano, na qual uma série de acontecimentos podem ser traçados “genealogicamente” para se ter a origem de tais acontecimentos. Não é o caso do meu argumento, ainda sim, é interessante refletirmos sobre a capacidade de alguns eventos terem tão grande peso sobre outros durante o curso da história humana.

What is love? baby dont hurt me, dont hurt me, no more…

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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3 comments

  1. H. Romeu Pinto

    Efeito dominó. Irônico o caso da unificação, uma estratagema diplomático-militar tão bem arquitetada resultou num desastre econômico… Você diria que se Bismarck continuasse nas rédeas da recém unificada Alemanha as coisas tomariam outro rumo? Gosto de flertar com os rumos alternativos da história.

    • Salomon Mebain

      Pelo contrário, se Bismark continuasse no poder, as coisas continuariam muito parecidas. Apesar das discordâncias entre ele e o Kaiser Guilherme II, ambos acreditavam na política pela força. A enorme diferença seria vista se o pai de Guilherme, Frederico, tivesse assumido o trono por mais tempo. As aspirações humanitárias, pacifistas e liberais de Frederico poderiam ter salvo a Europa de duas guerras mundiais e re-escrito a nossa história.

      • H. Romeu Pinto

        Você tem razão. É verdade que Bismarck não entraria numa guerra que não poderia ganhar, mas não significa que ele não entraria em guerras.

        Sobre a Guilherme e Frederico, faz-me recordar algo recorrente em algumas monarquias e que sempre me pareceu estranho: a discrepância de postura de pai para filho (monarcas). Supondo-se que o infeliz vai suceder-te, por que não certificar-se de que este seguirá seu projeto de governo? Quando a mudança é para bem, é plausível, mas quando para mal, é de se frustrar.

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