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Desmistificando o Segundo Reinado- Parte II

Algumas semanas atrás, lancei um post aqui no site desmentindo alguns exageros espalhados sobre o segundo reinado por alguns monarquistas- mesmo sem que tenham a intenção de espalhar mentiras (link aqui). Desta vez, tentarei focar o post em algumas deduções erradas que se costuma ter em relação ao segundo reinado, sem um foco específico. Agora sem mais demoras, vamos ao:

Mito nº 1- A industrialização do império só começou com o Visconde de Mauá, e morreu com ele: Irineu Evangelista de Souza, ou Visconde do Mauá foi sem dúvida um dos industrialistas mais importantes da história brasileira. Trouxe ao brasil diversas tecnologias, como a ferrovia; criou um dos bancos mais importantes de sua época e trouxe a indústria náutica ao Brasil. Mas ele não foi o único industrialista brasileiro de seu tempo. Se foi o maior, não sei dizer, mas haviam outros setores na indústria brasileira tanto antes quanto depois de sua ascensão: no período posterior à Guerra do Cisplatina, tivemos o rápido crescimento da indústria do charque e algumas indústrias de materiais de construção no sul do país.

Outro exemplo de indústria nacional foi na produção de foguetes de Congreve: uma nova arma de artilharia do século XIX em que o Brasil foi um dos primeiros países a produzir. O fato é que o Visconde de Mauá não foi o único a investir seu dinheiro na produção industrial e/ou manufatureira durante o segundo reinado.

 

Mito nº 2- A Inglaterra pressionou o Brasil para prolongar a guerra do Paraguai: todos nós já ouvimos a versão de que o Paraguai era uma potência industrial que ameaçava o domínio comercial inglês na América do Sul; e que por isso a Inglaterra teria fornecido equipamentos e pressionado o Brasil a prolongar a guerra até que o pequeno país fosse arrasado. O fato é que essa história é cheia de erros, que vou listar aqui:

1- O Paraguai estava muito longe de ser uma potência industrial no seu tempo. Desde a proclamação de sua independência até o fim da guerra que o Paraguai era visto pelo resto da América Latina mais ou menos como hoje enxergamos a Coreia do Norte: um país pobre e isolado porém ambicioso a ponto de investir boa parte do pouco dinheiro que consegue no aparato militar. Não é a toa que até o Uruguai, que frequentemente passava por guerras civis, conseguia manter um PIB maior que o PIB paraguaio na época.

2- A Inglaterra pouco tinha relação com aquela guerra. Tanto que o Brasil cortou relações com a Inglaterra pouco antes da guerra começar graças a uma crise diplomática entre os dois países. A verdadeira razão da guerra foi a presença de projetos de país opostos entre o Paraguai e os países da Tríplice Aliança: enquanto o Brasil buscava preservar sua influência no Uruguai e a Argentina buscava recuperar seus territórios do antigo Vice Reino do Prata; o Paraguai tentava expandir o seu pequeno comércio para o mar por meio do controle do rio Paraná, pertencente ao Brasil; e por meio de acordos com o governo uruguaio, mas que deveria estar sob influência paraguaia para dar certo.

3- Não se sabe ainda o motivo da guerra ter sido tão prolongada. A versão que diz que diz ter sido pressão inglesa carece de dados empíricos, e a de que teria sido consequência da sede de poder de Solano López também tem um certo grau de exagero, uma vez que as regiões mais importantes do país já haviam sido dominadas e Solano já não representava mais uma ameaça tão grande nos últimos anos da guerra. Como ainda não se sabe o motivo exato, deixarei com que cada um tire suas conclusões; mas creio na teoria da Lila Schwarcz em sua obra “As Barbas do Imperador”: a propaganda dos paraguaios contra os brasileiros, comparando os soldados brasileiros a macacos, teria despertado certo ódio em D. Pedro II, levando-o a desejar com que Solano sofresse as consequências por isso.

 

Mito nº 3- O hino nacional durante o segundo reinado era o atual Hino da Independência: isso talvez seja o mito mais comum ao se tratar do segundo reinado. E de fato, o atual hino da independência foi o hino do império, mas só durante o primeiro reinado. Após a abdicação de D. Pedro I já se adotou a atual melodia, com uma letra diferente que foi aos poucos sendo alterada até chegar no hino atual.

A melodia do hino atual foi também utilizada no hino da coroação de D. Pedro II (que você pode ouvir clicando aqui) e na Marcha Solene Brasileira, feita em homenagem aos veteranos da guerra do Paraguai (você pode ouvir clicando aqui).

Principais fontes: “As Barbas do Imperador” de Lilia Schwarcz; “Cinzas do Sul”, de José Antônio Severo e “Brummers: a Legião alemã contratada pelo império em 1851” de Juvêncio Saldanha Lemos.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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4 comments

  1. Sobre o prolongamento da Guerra, acredito que se trate do dispositivo do Tratado da Tríplice Aliança que dizia que a guerra apenas seria considerada acabada quando o Governo Paraguaio caísse e um novo fosse estabelecido. Até a Batalha de Cerro Corá, em que Solano foi morto, ele ainda não havia renunciado.

    • Tecnicamente ele não havia renunciado mas também não tinha mais poder efetivo pelo Paraguai. Tanto que, depois da ocupação de Assunção, muitos oficiais deram a guerra por terminada. Mas entendo seu ponto.

  2. Pedro Augusto Motta

    Mayon,a Marcha Solene Brasileira para Orquestra e Banda Militar com Canhão foi feita por Louis Moreal Gottshalk em 1869,e não tinha influencia das obras de Tchaikovsky,ja que sua primeira ópera foi feita em 1868,e não logrou tanto sucesso.Você pode ter se enganado pois a obra “Abertura 1812″(lançada em 1880) do Tchaikovsky é uma bela cópia(nos termos atuais) da Marcha Solene Brasileira,com 21 anos de diferença do lançamento das duas obras.