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Santa sacanagem: a família Bórgia

Originária de Valencia, no Reino de Aragão, a casa de Bórgia, também chamada de Borja, que é um topônimo correspondente a Borja, uma cidade na atual província de Zaragoza, na Espanha. Apesar de suas origens estritamente espanholas, muitos rumores surgiram de que os Bórgias possuíam origem judia. Entretanto, tais rumores não possuem base alguma e foram propagados principalmente por Giuliano della Rovere, o papa Julio II, um grande inimigo da família e, além disso, eles eram acusados frequentemente de serem marranos, judeus convertidos, pelos seus inimigos políticos.

Toda a saga da família começou no século XV, com Alfons de Borja, quando ele se tornou o papa Calisto III em 1455. Apesar das origens humildes, Alfons tornou-se professor de direito na Universidade de Lleida e, após isso, diplomata para os reis de Aragão antes de se tornar um cardeal e, finalmente, papa aos 77 anos. Justamente por ter uma idade avançada, o papado de Calisto III não durou muito, tendo como marco o novo julgamento de Joana d’Arc, antes de morrer em 1458, três anos após assumir o papado. O sucessor de Calisto III como papa foi seu sobrinho, Rodrigo Bórgia, que assumiu como Alexandre VI.

 

 

 

O papa Alexandre VI marcou a visão tradicional que temos dos Bórgias atualmente, sendo protagonista de inúmeros episódios escandalosos durante o seu papado, que foi marcado por intrigas políticas e religiosas. Enquanto cardeal, Rodrigo teve quatro filhos ilícitos com a sua amante, Vanozza dei Cattanei: Giovanni, Cesare, Lucrezia e Gioffre. Apesar desses terem sido os mais proeminentes, Rodrigo também teve filhos com outras mulheres antes e durante o seu papado. Mas apesar disso, o relacionamento com Vanozza foi o mais duradouro deles. Apesar dos escândalos sexuais, o papado de Alexandre VI foi, a princípio, elogiado devido a habilidade política e diplomática ímpares do papa.

Entretanto, isso não contribui para melhorar a imagem de sua soberania sobre os Estados Papais, já que seu governo também fora marcado por nepotismo, excesso de gastos e venda de cargos eclesiásticos. Boa parte do excesso de gastos de seu papado servia tanto para se enriquecer, quanto para enriquecer a sua família, de longe a maior privilegiada pelo papado de Alexandre VI. Graças aos seus próprios esforços, ele transformou os Bórgias em uma das famílias mais poderosas e influentes da Itália renascentista. Graças também ao seu nepotismo, muitos de seus filhos receberam cargos públicos dentro dos Estados Papais, como Giovanni, que se tornou capitão-geral do exército papal, o maior cargo militar da nação, e pôs seu outro filho, Cesare, como cardeal.

Alexandre VI também casou Lucrezia com Giovanni Sforza, já que a família Sforza também era extremamente poderosa na região e controlava o Ducado de Milão. Todavia, o casamento de Lucrezia com Giovanni, que ocorreu em 1493, durou somente 4 anos antes de ser anulado. Então, Alexandre VI casou sua filha mais duas vezes: com o príncipe Alfonso de Aragão, que fora assassinado em 1500, rumorosamente a mando de Cesare Bórgia; e, por fim, com Alfonso d’Este, Duque de Ferrara, com quem permaneceu casada até a sua morte em 1519 devido a complicações durante o parto de seu 10º filho, mesmo ambos os casados sendo infiéis em sua união. Alexandre VI morreu em 1503, aos 72 anos, após uma doença o acometer. A verdadeira origem da doença é discutida, podendo ser tanto envenenamento acidental por seu filho Cesare ou malária, o que é mais provável já que essa doença era prevalente em Roma na época. Os esforços de ascensão pessoal de Rodrigo foram herdados pelo seu segundo filho, Cesare, outro Bórgia proeminente.

 

 

 

Cesare Bórgia nasceu em 1498, segundo filho de Rodrigo Bórgia com Vanozza dei Cattanei. Sua educação e crescimento foram precisamente planejados por seu pai, ganhando grande habilidade marcial e política enquanto ele era lecionado por tutores particulares em Roma, até os 12 anos de idade. Cesare se formou em direito pela Universidade de Perugia e em teologia pela Universidade de Pisa, sendo apontado como cardeal pelo seu pai assim que se graduou em teologia. Cesare sempre foi suspeito de ter assassinado seu irmão mais velho, Giovanni, para ganhar os privilégios paternos que geralmente eram garantidos ao primogênito. Mas apesar da suspeita, nunca existiu nenhuma evidência que comprovasse o seu envolvimento na morte de Giovanni.

Cesare acabou por deixar a vida eclesiástica, abandonando o cargo de cardeal para se tornar capitão-geral do exército papal, o mesmo cargo exercido pelo seu irmão antes de morrer. A carreira militar de Cesare ficou marcada pelas Guerras Italianas, a qual ele participou em um papel menor como condottiero a serviço da França e, também, devido a grande dependência dos fundos paternos para patrocinar as suas expedições militares. Com a morte de Alexandre VI em 1503, Cesare se viu forçado a influenciar diretamente a escolha do novo papa para manter os fundos de sua companhia e, além disso, cumprir suas ambições de montar seu próprio principado na Itália Central.

O candidato de Cesare, Pio III, realmente venceu a eleição, mas morreu um mês depois, forçando Cesare a apoiar Giuliano della Rovere, que prometeu manter todas as suas honras e títulos. Quando Giuliano foi consagrado Julio II, todas as promessas feitas a Cesare foram por água abaixo e Julio II se tornou um dos mais ferozes inimigos que os Borgias já tiveram. Apesar disso, Cesare manteve a sua companhia, mesmo enfraquecida, e morreu em 1507, durante uma tentativa de assalto ao Castelo Viana, no Reino de Navarra. Cesare buscava surpreender o Conde de Lerín, que tinha se rebelado contra o rei Jean III de Navarra, em um ataque surpresa altamente desesperado. Não só o ataque falhou, como Cesare morreu durante a desastrosa ofensiva.

Cesare foi a maior inspiração para o livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, seu principal conselheiro. Maquiavel critica em seu livro, principalmente, o fato de Cesare depender do papado de seu pai para cumprir suas ambições. Mesmo com a morte de Cesare Bórgia, a família Bórgia continuou sendo uma família importante na Itália e Aragão e, apesar de seu legado e impressão de corrupção e leviandade, a família Bórgia produziu pelo menos um santo: São Francisco Bórgia, neto de Rodrigo Bórgia e o terceiro homem a liderar a Sociedade de Jesus, ele foi canonizado por ordem de Clemente X em 1670. O período o qual os Bórgias exerceram a sua supremacia sobre a política italiana é conhecido como a Era Bórgia, e foi um divisor de águas na estrutura política italiana durante a renascença. Mesmo com a sua presença marcante na Itália, vários descendentes dos Bórgia assumiram cargos administrativos na América, e seus descendentes permanecem na América do Sul até os dias atuais.

 

 

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