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Soldado cipaio se queixando das condições com que suas unidades são tratadas. Índia, 1856.

A Revolta dos Cipaios- a derrota dos indianos contra os indianos

Camaradas, o artigo de hoje se passa na Índia do século XIX. Falaremos um pouco sobre a rebelião que acabou com uma das maiores companhias de comércio do mundo e deu origem ao Raj Britânico: a nação colonial que se formou na Índia e que prevaleceu até sua independência.

 

Antecedentes

Nossa história começa na segunda metade do século XVIII. Durante esse período, boa parte da Índia estava dividida entre duas nações: os hinduístas do Império Marata, ao sul e os muçulmanos do Império Mogol ao norte (se quiser ler sobre eles, clique aqui). No litoral do subcontinente, diversas cidades estavam dominadas por companhias de comércio européias, que utilizavam esses enclaves como pontos comerciais para compra de especiarias por um baixo preço.

A guerra entre os dois grandes império resultou em crises políticas em ambos, e essa crise foi vista como uma oportunidade pelos ingleses da Companhia Britânica das Índias Orientais. Visando expandir seus lucros, a companhia de comércio inglesa transformou os restos do Império Mogol em seu protetorado (que aos poucos foi se transformando num Estado fantoche) e iniciou um processo de expansão para dentro do Império Marata.

O início da expansão não foi muito difícil, mas com o tempo a inferioridade numérica foi se transformando em um problema. A solução britânica foi muito simples: passaram a recrutar a população local como mercenários. Com o passar do tempo, o uso de mercenários foi se tornando cada vez mais comum na Índia britânica, e esses se tornaram lentamente o grosso do contingente da Companhia Britânica das Índias Orientais.

 

As causas da revolta

Na segunda metade do século XIX, todo o subcontinente indiano estava sob controle da companhia britânica. O controle das rotas de especiarias estava extremamente lucrativo, e os soldados indianos passaram a formar suas próprias unidades no exército da companhia: os cipaios.

Os cipaios não possuíam o mesmo status no exército anglo-indiano que os soldados britânicos. Além de receberem salários inferiores e terem que pagar pelo transporte de suas bagagens em campanhas de longa distância, as regras da companhia conseguiram desagradar tanto muçulmanos quanto hinduístas.

Do lado hinduísta, membros de castas altas e baixas eram postos para cumprir as mesmas missões e compôr as mesmas unidades: atitude humilhante para as castas mais altas. Além disso, muitos brâmanes eram postos para realizar missões ultramarinhas: o que eles também consideravam humilhação.

Já para os muçulmanos, a situação era pior. O exército da companhia britânica passou a adotar novos fuzis, cuja munição vinha em cartuchos de papel banhados em banha de porco para lubrificar a bala. Os cartuchos tinham que ser mordidos para que a pólvora pudesse ser inserida dentro da arma, e parte da banha acabava sendo ingerida. Para um britânico, tudo ótimo nisso, mas para um muçulmano era quase um crime ingerir carne de porco, mesmo que fosse só um pouco de banha.

Os soldados muçulmanos começaram a recusar as ordens dos oficiais na hora de manejar os novos fuzis, que muitas vezes reagiam a isso com força e acabavam piorando a revolta. Buscando reverter a situação, a companhia decidiu substituir o lubrificante de munição a base de banha por cera de abelha, mas o estrago já estava feito. A moral dos oficiais britânicos sobre os cipaios já estava manchada, e a desconfiança dos cipaios sobre os britânicos só crescia.

Em 1857, alguns pequenos grupos de indianos começaram a se revoltar contra a presença britânica. Essas revoltas foram ganhando apoio dos cipaios até que se tornaram uma rebelião geral.

A rebelião

A rebelião se iniciou em Bengala, em maio de 1857. De lá, atacaram fortes britânicos e marcharam para Delhi; onde libertaram o herdeiro do trono Mogol, Baadur Shah II, e o declararam o novo imperador. Os rebeldes indianos foram aos poucos conquistando territórios, até que começaram as brigas internas por poder.

Aos rebeldes hinduístas, não interessava a restauração de um império Mogol, e sim de um novo Império Marata. Aos siques (seguidores do Siquismo, uma religião com características do hinduísmo e do islamismo) e aos xiitas não interessava recriar um império sunita. E assim, aos poucos, as brigas por poder foram acabando com a revolta de dentro pra fora.

Foi só uma questão de tempo para que a Companhia Britânica Índias Orientais recuperasse o território perdido e tomasse Delhi novamente. Derrotada a rebelião, os britânicos prenderam o imperador e executaram os seus filhos.

 

Consequências

A revolta na Índia não passou despercebida em Londres, e nem as atrocidades cometidas pelos dois lados contra civis. Ficou claro para o parlamento britânico que a Companhia Britânica das Índias Orientais não tinha mais condições nem de proteger os cidadãos britânicos sob seus cuidados e nem de administrar a Índia Britânica. Em 1858, a companhia foi dissolvida, a administração da Índia passou a ser exercida diretamente pelo governo britânico e a raínha Vitória foi coroada Imperatriz da Índia, dando origem ao que passaria a se chamar o Raj Britânico.

O novo departamento de administração do Raj Britânico iniciou uma série de investigações quanto às causas da revolta, visando impedir que acontecesse novamente. A conclusão era que, para que a revolta não se repetisse, o novo governo deveria respeitar as tradições indianas -tanto hinduístas quanto muçulmanas- e não mexer nos bolsos das elites locais. Além disso, o exército britânico na Índia foi reformado, com o aumento da proporção de oficiais britânicos para que não houvesse mais tanta disparidade entre o número de britânicos e indianos no exército. Os cipaios continuavam maioria, mas não estavam mais em vantagem numérica tão grande.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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