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Por que os ingleses não dominaram o mundo?

Por que os ingleses não dominaram o mundo? Em 31 de dezembro de 1930, a maioria dos países e culturas ao redor do mundo comemoravam a passagem do ano novo. Em meio as festividades, o pronunciamento oficial do Rei Jorge V podia ser ouvido em transmissão ao vivo na Inglaterra, colônias e domínios da coroa. Naquele ano, o império britânico já controlava um quarto da população terrestre, possuía a maior frota, maior exército e sua economia não possuía nenhum rival à altura.

Para um pensador idealista como Hegel talvez aquele fosse o ápice da civilização e possivelmente o Reino Unido se expandiria até as estrelas, no entanto, o idealismo histórico quase sempre falha.

Para entendermos antes de tudo porque nem a GBR (sigla pra Great-Britain), nem qualquer outro país conquistou o mundo é preciso que aceitemos um paradigma teórico por enquanto. (para uma melhor explicação da primeira, eu escrevi esse artigo aqui)

– Conquistar o mundo pela força é impossível

Se conquistar o mundo pela força é impossível, então pela influência e soft power ainda sim é uma tarefa hercúlea. Haja vista que o império britânico fazia dos dois e que sua hegemonia era clara, fica então a explicação: Porque a Grã-Bretanha não dominou o mundo?

Ascensão do império

Para entender os limitantes da conquista britânica é preciso entender oque incentivara suas conquistas em um primeiro momento.

Um dos principais motivos que alavancou e deu continuidade para o império britânico foi o seu sucesso econômico. A corrida industrial foi vencida sem esforços pelos ingleses que expandiam sem dificuldade seus mercados e asseguravam sua supremacia com a maior e mais avançada frota naval do mundo, um poderio que eclipsva muitas outras potências em conjunto.

A ascensão e manutenção do poderio inglês se demonstra  num jogo de fatores que interconectados resultantes no império de maior capacidade de intervenção visto até aquela época.  Uma grande roda girava para manter o imperium funcionando e sem esse tal complexo industrial-diplomático-bélico, sua pax vitoriana jamais teria sido concretizada.

Seu conjunto de ilhas e enclaves territoriais espalhados pelo mundo lhe dava fácil capacidade de reabastecimento de uma frota que protegia o rico comércio marítimo, que transportava insumos de primeira categoria até os polos industriais ingleses, que processavam e transportavam novamente para mercados consumidores do mundo inteiro. Se tratando do comércio inglês, haviam sistemas curtos e longos de comércio.

O primeiro destes, o longo, se exemplifica no comércio trans-atlântico de algodão e tecidos com os Estados Unidos. Ao passo que o curto se faz ilustrado no lucrativo negócio de ópio produzido no Raj Britânico (índias Orientais) e transportado até os portos do sul da China.

Uma vez asseguradas as rotas de comércio e as capacidades produtivas, era necessário manter a paz interna. O império britânico tinha dentro de si uma das maiores economias mundias: A Índia. Conhecida como a “jóia do império”, o sub continente indiano produzia a mais relevante parte das riquezas. Para manter a população local obediente e produtiva, a administração anglo-indiana se baseava em um conjunto de jurisdições interpolantes onde haviam territórios de administração direta e indireta.

Basicamente, algumas províncias indianas eram controladas diretamente por oficiais ingleses, nas quais, as elites locais eram consagradas e o sistema de castas respeitado. Nas regiões de jurisdição indireta, lordes locais ou Marajás fantoches controlavam a região sem perder seus privilégios porém completamente subjugados à coroa. Em todo o seu rico e vasto território, o sub-continente indiano e sua população produziram diamantes, amendoim, ópio, algodão, e inúmeros outros insumos que retroalimentavam a economia imperial.

Portanto, o inicial dinamismo da economia liberal e industrial inglesa propulsionaram seu país. Além disso, seu complexo sistema diplomático-econômico-militar expandiu e manteve um firme e enrijecido império, poderoso, mas com dificuldades de se adaptar.

Aquela sensação de quase dominar o mundo

 

Crise de 1873

Até a década de 1870, a Inglaterra viveu uma rápida expansão industrial e tecnológica graças a segunda revolução industrial; Seu império cresceu por vias liberais  (conquista indireta) e sua economia livre-cambista estava de vento em popa. No entanto, em 1873 o pânico tomou conta das economias do atlântico norte.

Essa crise econômica ficou conhecida como “a Grande Depressão”, porém como em 1929 tivemos outra grande crise, esta hoje é chamada de “longa depressão”, uma vez que durou até o início da década 1890.

Falamos sobre a crise de 73 também no nosso artigo sobre a unificação Alemã

As causas da depressão estão relacionadas com a ascensão econômica Alemã, que desvalorizou os mercados mundiais de moeda bi-metálica. Tudo se agravou quando os Estados Unidos decidiram adotar o padrão ouro que causou  uma maior desvalorização da prata. Como consequência,  muitos investimentos perderam o seu valor e as economias globalizadas entraram em recessão.

Esse no entanto, não é o motivo direto para a limitação do poderio britânico. Na verdade, a Grã-Bretanha se saiu relativamente bem da crise por ser um dos países com as maiores reservas de ouro do mundo. Quando foi adotado o padrão ouro, sua economia não teve tantos problemas para se adaptar.

Porém, o desdobramento de maior importância para o argumento do texto é este: A crise de 1870 engendrou um novo tipo de capitalismo, o capitalismo imperialista-monopolista. Até a longa depressão, as grandes potências cresciam graças ao dinamismo de suas economias. Quando chegou a crise, apenas grandes empresas conseguiram se manter de pé e o estado passou a regular mais e mais a economia, mudando completamente os eixos da geopolítica de então.

Graças a este novo modelo político-econômico, as potências adotaram medidas protecionistas e um novo surto de imperialismo/colonialismo se seguiu. A partir daí sucederam a corrida pela África, Ásia e dos mercados sul-americanos. Uma vez que as potências agora concorriam entre si, precisavam mais uma vez assegurar mercados consumidores e importadores de matéria prima exclusivos.

A competição internacional levou a diversas crises diplomáticas que quase sempre se resolviam em conferências e acordos, como por exemplo a “conferência sobre as disputas do Congo-Belga”, a famosa “Conferência de Berlim”.

No entanto, a cada crise que se passava, os estados europeus se armavam e forjavam alianças e pactos defensivos. A econômia se tornara um espaço vital e só a força das armas poderia decidir o futuro das economias imperiais.

No final das contas, a concorrência estava tão acirrada que bastou o assassinato do grão-duque Francisco Ferdinando para que fosse deflagrada a Primeira Guerra Mundial.

A Grande Guerra

Talvez nenhum outro império tivera se esforçado tanto quando o império britânico durante a guerra. Isto porque teve a necessidade de transportar tropas de diversos continentes para o fronte ocidental europeu.

Além das óbvias perdas humanas, os gastos materiais e perdas com infraestrutura retraçaram o perfil econômico britânico do entre-guerra, deixando de ser uma economia em ascensão para uma economia em recuperação.

Ao final da guerra, a economia Norte-Americana já dava sinais de ameaçar a hegemonia Inglesa, bastava mais uma guerra para que esse destino se concretizasse.

Numa grande escala, a primeira guerra mundial deixou o continente europeu arrasado e ano após ano, emigrantes saiam do velho continente rumo às américas, em especial o próprio Estados Unidos. A desgraça da Europa significou uma era de prosperidade sem  comparativos para os EUA, uma época tão rica que gestou um mal, sem sequer perceber, que foi a crise de 29.

A Segunda Guerra

Os anos que seguiram após 1917 foram anos duros e gradual recuperação; A marinha real havia sido reestruturada e estava totalmente operacional como a maior armada do mundo; Sua economia ainda grande e sua diplomacia, principal.

No entanto, como dito no tópico “A Ascensão do império”, o Reino Unido e suas colônias tiveram muita dificuldade de se adaptar as novas realidades globais. Em grande medida porque a Índia, seu domínio mais precioso, vivia um período de estagnação único, tanto econômico quanto demográfico. A não-industrialização indiana e a fuga de investimentos propiciaram não só um enfraquecimento em frente as economias emergentes como também justificativas para uma futura independência Indiana.

Gigante diplomática como era e potência vitoriosa do tratado de Versailles, a Inglaterra observara o continente europeu com a mesma cautela que tinha após o congresso de Viena de 1815. Por um curto tempo, foi ela que jurou manter os limites impostos pelo tratado humilhante imposto à Alemanha.

O entre-guerra significou um período áureo para a economia norte-americana que eventualmente entrou em colapso com a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Esse choque provocou um aumento da descrença frente ao capitalismo e deu voz ao discurso anti-liberal e autoritário de várias economias, já fragilizadas.

Atenciosos, os ministros ingleses acompanhavam com desconfiança os passos de Herr Hitler, dando voz ao autoritarismo e ideias radicais. A Europa assistia com temor o enrijecimento de dois regimes: O comunista de Stalin e o Nazi-Fascista de Hitler e Mussolini.

O inevitável conflito entre Inglaterra e Alemanha ocorre quando Hitler decide invadir a polônia, país protegido dos Ingleses. Todas as missões diplomáticas e militares inglesas são levadas junto das autoridades polonesas até o porto de Gdansk onde a marinha Real, se encontra de prontidão para escoltá-los até Londres. A partir de então, o governo polônes exilado e as forças britânicas se preparam em mobilização completa para mais um conflito mundial.

Até o final da guerra,  Londres e muitas outras cidades do sul inglês foram bombardeadas pela Força Aérea alemã e por toda parte, as feridas de uma guerra dolorosa permaneciam abertas. Mais uma vez a Europa foi embrulhada em um “conflito sem vencedores”, ainda que o fascismo tenha sido derrotado por certo.

O segundo conflito mundial acabou de vez com quaisquer pretensões inglesas de dominação mundial. Não apenas porque este império agora se via incapaz de se manter como se manteve em seu auge, mas também porque estava claro que um “império territorial vitoriano” não fazia mais sentido no século XX. Hitler e Stalin deram os piores exemplos do que a tentativa de conquista significa e parece que tais exemplos passaram uma forte mensagem para a comunidade internacional.

Um novo mundo surge das cinzas da guerra: Os Estados unidos se tornam a maior hegemonia capitalista, a Grã-Bretanha perde várias de suas colônias nas décadas seguintes e a antiga ordem neo-colonial e substituída pela guerra de esferas de influência entre Estados Unidos e União Soviética.

A partir daí, agora é a Inglaterra que orbita os EUA e não mais o contrário. Ambos engajam em uma poderosa Aliança internacional chamada OTAN e assim fazem frente ao comunismo internacional do pacto de varsóvia.

Conclusão

Entender as causas do fracasso de um império consiste também em entender aquilo que o elevou ao seu status hegemônico. Todo império precisa ser eficiente para se manter e se expandir. No caso britânico, é compreensível que tenha crescido e se estagnado em algum ponto. Como foi dito anteriormente, perdeu a capacidade de adaptar-se.

Quando a crise 1870 aconteceu, a Inglaterra deixou de ser aquilo que a fez crescer, ou seja , seu livre-cambismo e liberalismo econômico. Ao enrijecer-se e adotar uma política monopolista e colonial deixou de inovar e passou a resolver os conflitos com a mediação bélica. Caso houvesse prestado mais atenção à Índia talvez, seu sucesso teria sido mais duradouro. Ao negligenciar o desenvolvimento indiano e  deixar de integrar sua população à comunidade inglesa, seu império parou no tempo e seus súditos se tornaram dissidentes.

O veredito final é então de que Império Britânico não conquistou o mundo por estagnação econômica, pouca capacidade de se adaptar a novos modelos de desenvolvimento e concorrência com outros países, que o levou a duas guerras mundiais.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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7 comments

  1. Jose Eugenio Paes Scott da Costa

    Esse artigo poderia muito bem ser publicado no Instituto Mises.

  2. Pedro Vinicius

    Alguém tem essa imagem do inicio do artigo completa? Agradeço desde já.

  3. Excelentes colocações. Escrita envolvente. Parabéns. Faz pensar que uma mudança de atitude da Inglaterra na longa crise poderia ter evitado a Grande Guerra.

    • Salomon Mebain

      Muito obrigado Paula! Eu fico extremamente feliz com esse tipo de comentário!

  4. Lucas Brandalia

    Cara, que texto bom de se ler, agora sim entendi melhor o real motivo da Primeira Guerra Mundial. Não foi apenas por causa de um assassinato, a tensão na Europa estava alta pelos fatores econômicos.
    Gosto muito de história e geopolítica, parabéns pelo trabalho.