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Por que os combates da idade moderna eram tão bizarros?

Se tem uma coisa que eu sempre escuto de quem assiste algum filme ou série que tenha cenas de combate da idade moderna como em “O Patriota” ou “O Último dos Moicanos” é a bizarrice do combate nessa época. Batalhões eram postos um de frente para o outro para disparar sem nenhuma proteção, e então partiam para o combate corpo a corpo sem nenhum tipo de armadura. Olhando com os olhos de hoje, lutar dessa forma era quase irracional. Mas para compreender o motivo dos combates terem sido travados desta forma, é necessário compreender o que levou isso a acontecer.

 

O Mosquete

Para que se possa compreender os combates modernos, é necessário compreender as vantagens e os problemas que trouxeram a principal arma de seu tempo: o mosquete

Durante toda a idade moderna e boa parte da era contemporânea, as armas de fogo conquistaram um espaço cada vez maior no campo de batalha. A facilidade com que o tiro de um mosquete ou de pistola perfurava uma armadura tornou esse tipo de proteção cada vez mais obsoleta, até que no século XVIII o uso de armaduras tornou-se exclusividade de algumas poucas unidades de cavalaria, chamados de couraceiros.

Mas mesmo revolucionando o campo de batalha ao forçar unidades a dar prioridade à sua mobilidade no lugar da proteção, os mosquetes ainda eram uma arma cheia de deficiências, e essas deficiências moldaram muito o combate moderno.

A primeira deficiência era a falta de precisão. Mosquetes são armas de alma lisa, e seu alcance máximo era de aproximadamente 150 metros. Mesmo nessa distância, ainda era complicado acertar um tiro, pois só eram precisos em até 50 metros. Por isso, na idade moderna batalhões inteiros eram forçados a disparar quase ao mesmo tempo: com 500 homens disparando contra o alvo, certamente alguns deles teriam sucesso.

 

A baioneta

Outra arma amplamente utilizada nos combates dessa época foi a baioneta triangular: uma arma criada justamente para sanar duas grandes deficiências do mosquete.

Uma deficiência comum a todas as armas de fogo da idade moderna: tanto mosquetes, quanto pistolas, carabinas e fuzis, era a demora na recarga. Todas as armas desse período eram recarregadas introduzindo-se a pólvora, a munição e um lenço lubrificado com banha de cavalo ou de porco pela boca do cano. Esse processo era lento: um mosquete de pederneira levava entre quarenta e trinta segundos a depender da prática do soldado, e deixava a unidade inteira exposta a granadas ou a cargas de cavalaria. Fuzis (armas de cano raiado, com maior precisão e alcance) demoravam ainda mais, podendo levar até um minuto e meio para recarregar.

Essa demora na recarga obrigou os soldados da idade moderna a ter sempre em mãos uma arma de corpo-a-corpo que o batalhão tivesse tempo o bastante tanto para reagir a uma carga de cavalaria inimiga quanto para se aproveitar do tempo de recarga do inimigo.

Outra deficiência das armas de fogo modernas que precisava ser sanada pela baioneta era a falta de confiabilidade do mecanismo dessas armas. Tanto mosquetes de mecha, quanto de roda-de-faíscas quanto de pederneira atiravam com a pólvora exposta. O tempo de exposição dessa pólvora variava conforme o mecanismo, chegando a ser de menos de um segundo nas armas de pederneira; mas ainda era suficiente para que a combustão pudesse ser interrompida pela chuva ou pela neve. Por isso, era importante ter uma arma de corpo a corpo em mãos para o caso da arma de fogo falhar.

Os uniformes

Outra bizarrice do combate moderno eram os uniformes usados naquele tempo. Em praticamente todos os filmes desse período, os soldados são retratados com uniformes espalhafatosos e com cores fortes, como se gostassem mais de serem pintados feito enormes alvos do que camuflados.

E novamente, os uniformes desse período foram um reflexo da principal arma do soldado moderno. A última e não menos importante deficiência das armas de fogo da época forçava os soldados a utilizar esse tipo de uniforme: falo da enorme nuvem de fumaça deixada pelas armas de fogo modernas.

Quase as armas da idade moderna disparavam utilizando pólvora negra. A pólvora negra é até hoje o tipo de pólvora mais barato e mais seguro de se utilizar, mas a fumaça resultante de sua queima é tanta, que ficava impossível enxergar algo a mais de dois palmos de distância depois de alguns disparos.

E essa obrigava os soldados a utilizar uniformes com cores fortes- a cor do uniforme era a única garantia que um soldado tinha para ter certeza de que não seria confundido com o inimigo no meio da fumaça. Com o passar dos séculos, conforme foram surgindo mecanismos para conter a fumaça das armas, esses uniformes espalhafatosos foram aos poucos sendo substituídos por trajes mais discretos e por camuflagens.

O Fim do combate moderno

A forma de se fazer a guerra durante a idade moderna começou a morrer durante o século XIX, quando as deficiências das armas de fogo começaram a ser resolvidas. As armas de percussão acabaram com o problema da falta de confiabilidade e o excesso de fumaça das armas de pederneira; a munição de minnié (munições cônicas, feitas com metal expansivo) acabou com os problemas da falta de precisão ao possibilitar uma recarga suave nas armas de alma raiada, extinguindo de vez o uso do mosquete.

E por fim, na Alemanha, o surgimento das armas de ação por ferrolho acelerou tanto a cadência de disparos de um soldado comum que as grandes formações facilmente expostas puderam ser substituídas por pequenos esquadrões com maior autonomia.

Para a maioria dos historiadores, o marco temporal em que se pode dizer que morreu o combate moderno e nasceu o combate contemporâneo foi a guerra civil americana. Nesse conflito, o uso de trincheiras se tornou praticamente obrigatório para se obter a vitória, e os combates começaram a ser travados em grandes distâncias. Essa nova modalidade de combate veio a predominar logo em seguida no continente europeu, e foi inaugurada também na América Latina durante a Guerra do Paraguai.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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6 comments

  1. Um post dessa qualidade até agora sem comentários. Subapreciado. O pessoal vê que não é do Salomon e nem lê. Interessantíssima a parte dos uniformes.

  2. Igor Cordeiro Santa Bárbara

    Muito legal o artigo. Mas isso era só em combates militares em campo aberto eu imagino. Como funcionava a invasão de uma cidade ou forte? Creio que nesse ambiente o combate ainda devesse Ser algo renascentista. E também era comum algumas “táticas de guerrilha” para sabotar esquadrões ou atacar de surpresa, não?. Aliás, uma outra dúvida minha é se os combates eram agendados ou batedores faziam a vigília e indicavam onde o exército inimigo iria.

    • Quanto ao combate em cidades e cercos, a forma de combater variava conforme as condições do local. Quanto às guerrilhas, sim, haviam soldados especializados em fazer isso naquela época. Já em relação à última pergunta, a resposta já é meio complicada: os combates não eram agendados, porém o cavalheirismo era uma constante no combate daquele período. Um general que não permitisse com que o inimigo pudesse se preparar devidamente para o combate era tido como um comandante covarde e desrespeitoso.

  3. Ótimo post, os uniformes chamativos nunca tinham feito sentido pra mim.

  4. Esqueceu de falar dos músicos que acompanhavam a infantaria para todo canto.

    • Haviam bandas de músicas acompanhando os exércitos daquela época, mas isso não era uma característica específica daquele período. Desde a idade antiga que era normal as unidades serem acompanhadas de músicos, pois as notas permitiam aos soldados reconhecer as ordens do comandante mesmo com ele afastado.

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