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Outro Ponto sobre os Vikings

No artigo anterior discutimos um pouco sobre a geografia escandinava e a forma de combater dos Vikings. Também discutimos como os Vikings eram um povo essencialmente pacífico e voltado para a economia doméstica sendo os saques e pilhagens parte menor e complementar a suas economias. Parte desse complemento, vem do fato da economia escandinava da era viking possuir poucos produtos de interesse para os mercados mais ao sul, logo a forma mais segura de obter metais para suas ferramentas seria justamente o saque e a pilhagem.

Acontece no entando, que o saque também estava inserido em outro eixo econômico: O comércio

Logo faço aqui o meu segundo sobre os povos escandinavos: Os saques se destinavam não apenas como investimento na produtividade de seus mercados de subsistência mas também como parte integrante de um ciclo comercial forte, articulado e de longa distância.

Explico: Durante toda a era Viking –Séc XIII ao Séc XI-, os navegadores noruegueses, danos e suecos viajavam para as regiões vizinhas em busca de mercadorias de alto valor econômico. Eles obtiam Armas, peles, âmbar, Ossos de Baleia, presas de animais marinhos, Penas e Também Escravos do Oriente Russo. Todas essas mercadorias eles obtinham por vias mercantis voluntárias ou por uso da força.

Comerciantes Vikings negociando um Escravo Eslavo

Além desse abastecimento externo, havia também um abastecimento doméstico do mercado Escandinavo:  Em casa, no norte gelado, se produziam trabalhos com lãs, assim como se produzia mel. Também se trocava alguma produção agrícola –vegetais,cereais- com mercados vizinhos e havia também um crescente mercado artesão viking de jóias com metais e pedras que obtinham de fontes estrangeiras.

Uma bela representação de uma aldeia Viking. Note a geografia dos fiordes ao fundo, o tamanho dos barcos, as roupas coloridas de tecido e o comércio ativo.

De toda forma, uma vez estabelecendo seus produtos de oferta, os navegadores vikings puderam estabelecer uma posição de destaque nas feiras permanentes europeias, sobretudo no bazar de Constantinopla. Uma vez se tornando vendedores renomados, conseguiam o peso em prata suficiente para comprar também as sedas bizantinas, as especiarias orientais, cerâmicas, pedras preciosas assim como escravos.

Principais rotas de comércio vikings. É importante lembrar que o fluxo também acontecia de maneira inversa.

É de suma importância lembrar que a era Viking coincide com o a ascensão do reino franco como uma potência cristã, e uma lenta mas constante consolidação das relações de produção feudais em todo o continente europeu. Além disso, no séculos IX e X a expansão do Califado Árabe trouxe um forte concorrente ao mercado bizantino oque provocou uma competição favorável aos mercados florescentes, como por exemplo, o mercado Viking.

O final da Era viking também observou o renascimento medieval dos anos 1000, que foi um período de aquecimento climático de todo o continente europeu que aumentou a produção de cereais, por consequência houve um boom populacional acompanhado de um aquecimento de todos os setores das economias europeias e mediterrâneas. Produtos, antes exclusivamente mediterrâneos passaram a ser Obtidos em regiões mais ao norte aumentando a concorrência dos mercados, a circulação de moeda e o aumento na oferta para as populações em geral. Não é por acaso, que as grandes expedições para a terra santa se deram nesse contexto de prosperidade econômica.

Até agora, pudemos compreender que as dinâmicas de saques e pilhagens vikings serviam à dois propósitos: o de abastecimento do consumo doméstico e também o abastecimento do comércio de longa distância. Além disso, não só as regiões vizinhas a escandinávia proviam com produtos para os comerciantes vikings, havia também uma produção doméstica de mercadorias. O mercado doméstico portanto, ofertava produtos, mas também demandava outros, portanto, os lucros obtidos com o comércio viking eram redirecionados por meio de importações dos mercados mediterrâneos até o norte Escandinavo.

 

Assim era a setorização do comércio viking: Em vermelho a sua terra natal, principal mercado consumidor e produtor de alguns bens; Em amarelo, regiões de extrativismo russo, assim como estabelecimento de entrepostos comerciais; E em azul, principais regiões de obtenção de produtos saqueados, como parte integrante também do comércio Viking.

Coincidentemente, a era viking termina no mesmo século em que o renascimento dos anos 1000 acontece. Podemos inferir disso alguns pensamentos.

Os anos mil, como argumentado ali em cima geraram uma riqueza e um aquecimento dos mercados do norte, que conseguiram integrar as economias regionais em um sistema continental. Esse sistema continental já era compreendido desde os tempos fenícios, pelos mar mediterrâneo, no entanto, com as transformações da era viking, foram inclusos nesse sistema os mares Báltico, Do norte e todos os sistemas fluviais continentais. Sobre as transformações da era viking me refiro a essas:

-Ascensão dos Francos como potência cristã ocidental;

-Consolidação do sistema feudal, logo de economias estáveis e baseadas na produção sedentária em oposição ao saque e incursões nomades da alta idade média;

-Cristianização dos povos pagãos da periferia do mundo cristão e adoção de morais e costumes benéficos ao novo sistema econômico feudal;

-Acumulação de riqueza por meio dos saques e pilhagens vikings que proporcionaram a inseção definitiva desse povo no sistema comercial continental.

A partir dessas transformações, os vikings cada vez mais foram cristianizados e inseridos no comércio de longa distância. A prosperidade econômica advinda do aumento da produtividade e do comércio voluntário diminuíram substancialmente a necessidade dos conflitos e tornaram a consolidação de reinos estáveis e cristãos algo possível.

Além disso, a emergência de uma frota mercante viking teve ainda consequências diversas, como a fundação de reinos vikings em terras distantes, como por exemplo o Kievan Rus.

O longo alcance das expedições mercantis vikings também teve um importante papel nas trocas culturais. Muitos vikings se cristianizaram não para o catolicismo romano, mas se converteram ao ortodoxismo grego. Alguns desses convertidos eram inclusive parte da própria guarda pessoal do imperador romano, a chamada guarda Varegue.

Ilustração da Guarda Varegue bizantina em combate. Note como suas armaduras e equipamentos são de ótima qualidade, graças a riqueza romana disponível aos gastos militares. A mesma cena dificilmente seria vista em guerreiros vikings do norte até períodos bem tardios.

Um sujeito bastante importante dessa guarda foi Haroldo III da Noruega ou Harald Hardråde. Haroldo foi um importante monarca dos anos mil que ficou conhecido sobretudo com a sua invasão ao reino da inglaterra, em 1066, como parte da série de incursões ao reino dos Godwinson da inglaterra. Que no final das contas colocaram, Guilherme da Normadia no trono inglês.

De todo modo, esses últimos dois parágrafos serviram para exemplificar como que a integração econômica e comercial dos povos escandinavos, também significou uma integração à vida política e religiosa da cristandade européia. Isso significa dizer que o comércio abriu as portas para uma transformação irreversível da sociedade viking.

Os vikings, antes invasores das costas europeias, depois foram invadidos pela cultura cristã e pelas formas feudais de organização política.

É claro, nunca podemos esquecer que o feudalismo europeu nunca foi uniforme nem sequer a fé católica era a mesma em todas as regiões. Entretanto, conjunturalmente, as transformações da era vikings foram capazes de estender o manto branco da cristandade por todo o continente europeu, haja sido por meio do comércio ou por meio da força.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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2 comments

  1. Muito bom 🙂