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O surgimento da democracia na Inglaterra Vitoriana

Introdução

Este trabalho se dedica a entender de que maneira a democracia representativa dos dias de hoje surgiu na Inglaterra vitoriana e de que formas que ela se aproximava ou distanciava do modelo ateniense.

A sociedade vitoriana é um período de extensas contradições, seja pelo latente contraste social ou pelo choque de ideais da elite política e sua prática na vida pública. Em meio a tanta transformação e contradição o século inglês, é o ambiente perfeito para as manifestações mais darwinianas de sobrevivência, onde as ideologias políticas, classes sociais e estados nacionais disputam entre si, e buscam pela sua auto-determinação e sobrevivência.

Em meio a todo esse caos, a democracia e as ideias liberais ganham protagonismo sobretudo por causa a revolução francesa, derrotada em 1815 mas ainda presente como um fantasma que assombra toda a Europa até os meados do século. Essas ideias liberais, oficialmente derrotadas, permearam dentro da política e das elites moderadas assim como dos insurgentes mais radicais, e ambas as frentes serão responsáveis por desmantelar o sonho de restauração do absolutismo.

 

As características da Inglaterra industrial

O desenvolvimento das primeiras manufaturas e a privatização das terras comunais já no século XVII iniciou o processo de acumulação de capital, êxodo rural e deu início a revolução industrial na Inglaterra. Com as guerras napoleônicas e o bloqueio continental, a coroa britânica teve de depender cada vez mais e mais de sua indústria e do comércio de longa distância. Após a derrota de Napoleão em waterloo, a sétima coligação finalmente encerrou o império bonapartista e se comprometeu com a paz de viena de 1815.

O congresso de 1815, nas palavras de Henry Kissinger, fez restaurar a europa, em sua antiga ordem antes dos eventos de 1789. A partir desse, um equilíbrio de poder foi restaurado, os Bourbon retornaram ao trono francês, a polônia foi dissolvida outra vez junto com sua constituição vanguardista e a santa aliança teve por algumas décadas, a séria intenção de devolver as colônias independentes as suas antigas metrópoles.

No entanto, este tão perfeito equilíbrio de poder não durou por muito tempo. Não apenas porque a grande vitoriosa deste acordo foi a grã-bretanha, rainha dos mares, mas também porque logo logo, outros conflitos locais e ondas revolucionárias se veriam presentes na Europa continental. Já na Europa insular, ou Reino Unido, a situação seria bastante singular.

Enquanto a Europa continental se convulsionava com conflitos e revoltas, a Inglaterra sabiamente manipulava as potências e mantinha o equilíbrio ainda que houvessem reais mudanças. Assim como um cientista, o reino-unido observava atentamente o experimento europeu e tentava manter as condições ideais para o benefício de seu projeto nacional. Projeto nacional este que se baseava na industrialização, livre-cambismo e liberalismo, em oposição ao suposto “absolutismo restaurado”, uma bela contradição.

Não obstante, por meio de companhias coloniais e acordos econômicos de larga escala, o império se expandiu territorialmente quase que involuntariamente. O Egito, anexado por causa do mau-pagamento de dívidas; Raj britânico, controlado por uma companhia privada e diversas empreiteiros na áfrica, donos de fortunas capazes de construir ferrovias e mobilizar os exércitos da coroa para suas expedições militares particulares.

Em resumo, a primeira metade do século XIX observou a chamada “expansão liberal” dos impérios sobretudo o britânico. Nas metrópoles, Londres e Paris, havia a chamada ligas anticolonialista de burgueses e liberais esclarecidos que defendiam a o estado mínimo e se opunham as onerosas expedições e a manutenção de colônias no ultramar. Tanto esses como os próprios governos dessa época, haviam chegado na conclusão de que se industrializar e vender aos mercados do mundo era sua melhor opção.

Nos anos 1830, a Europa passava por um grande onda de revoluções liberais, onde o projeto burguês da derrotada revolução ainda queria se impor. Fracassados, o liberalismo mais uma vez se recompôs. Mas diversas concessões foram feitas, até porque os estados europeus estavam cada vez mais e mais cientes das transformações que estavam ocorrendo.

Certamente, dizer dos estados pode ser exagerado, mas certamente alguns ilustres políticos tinham uma noção muito lúcida e clara quanto aos contrastes sociais da época. Um destes era Benjamin Disraeli, Primeiro Ministro do Império Britânico. Disraeli compreendia que a inglaterra havia chegado no que ele chamava de um “reino de duas nações” onde uma Inglaterra, das classes aristocráticas, da qual o estado servia e uma outra Inglaterra, vivendo abaixo desta, em condições de proletarização, insalubridade e degradação moral e humana. Mais do que ninguém, Disraeli sabia que para evitar uma terrível revolução, uma larga reforma política deveria ser empregada no reino.

A mais importante dessas reformas foi a mudança dos distritos eleitorais. Estes, que antes privilegiavam a aristocracia rural, agora tinham peso por densidade demográfica, tornando as cidades e aglomerados operários muito mais visíveis na política do parlamento inglês. No entanto, como aponta Tholfsen, a reformas dos distritos eleitorais foram muito mais um conjunto de alterações ao longo de um extenso período de tempo, do que algo sistemático.

Houve muito debate e geralmente as reformas eram passadas quando havia alguma pressão imediata sobre um litígio ou reivindicação da classe trabalhista. Logo, com o surgimento do socialismo utópico de Robert Owen e Saint-Simon, essas reivindicações por direitos se tornaram parte de uma consciência de classe. Flora Tristan, mulher, ativista e escritora do século XIX foi uma socialista que pela primeira vez idealizou a idéia de uma “união operária”, uma instituição que coletasse de pouco as riquezas individuais para construir escolas, hospitais e outras casas de amparo aos trabalhadores fabris. De maneira interessante, Flora não guarda nenhum rancor do clero, ou da aristocracia ou dos industriais, não obstante faz apelo de ajuda a estes, mas defende, que os operários têm responsabilidade sobre si mesmos.

Flora também viveu alguns anos na inglaterra e fez anotações quase etnográficas da vida do working class Londrino. Ela destaca o amor pelo futebol, o pouco pudor sexual e sobretudo os vícios. Vícios para escapar de uma realidade pouco agradável e distante de alguma forma concreta de identidade. Há uma diluição nas identidades regionais em meio a multidão de retirantes e operários. Sobre isso, a historiadora Maria Stella Bresciani é muito pontual.

Em meio as faces desse monstro urbano, o operário é alienado de seu tempo natural, de seu trabalho antigo, de sua cultura regional, no final lhe resta pouco. Pelo menos faz sentido que diante desse desconforto identitário haja um apelo tão grande por uma identidade operária pois ela surge e preenche o vazio desconfortável que é a vida cheia e movimentada das  cidades, e por aí vai outra contradição.

Sobre essas contradições e inconsistências haverá um monte de poetas e escritores, entre eles jornalistas, historiadores, que foram além das aparências e dissecaram o sentimento da época, assim também como o seu devir histórico. Carlisle é um desses que pôde compreender que aquele período que se vivia não era como um outro qualquer, ele podia compreender a verdadeira velocidade de seu tempo. Ele, sabia que as transformações do século inglês anunciavam problemas e conflitos.

Já Baudelaire escreve sobre as multidões, e anuncia que aquele que se despe de si e se veste de multidão é de fato o homem urbano contemporâneo. Ou seja, as transformações daquela época necessitavam de uma nova metafísica, um novo comportamento. Todos estes pensadores nos apontam para o quão assustadoramente promissor e voraz foi o século XIX, como dito anteriormente, um cenário idealmente darwinista.

Não coincidentemente, o darwinismo e as teorias evolucionistas entraram em moda neste período, e compreender tudo, dos homens aos animais passou a ser medido em etapas e estágios de progresso. Marx irá responder que esta ciência que surgia no Século XIX estava a serviço da classe dominante e de fato, estava. Evidentemente que isto não acontece sempre.

De um modo geral as transformações exigiram muita capacidade de adaptação tanto da classe trabalhadora como das classes dominantes e de fato as dinâmicas entre a burguesia, proletariado e aristocracia se alteraram muito ao curso do século. No campo destas disputas, muitas concessões e reivindicações modelaram a democracia moderna na Inglaterra.

 

Negociações e conflitos

Ao longo do processo de democratização da sociedade vitoriana, houveram diversos mecanismos de participação para a melhoria de vida das populações da cidade grande e das vilas semi-urbanas.

Em poucas linhas, o que se tinha na inglaterra vitoriana em meados do século era um situação política relativamente equalitária em meio a uma situação social discrepante. A classe trabalhadora também muitas vezes escolhia seus representantes dentre a classe média burguesa onde os ideais liberais eram bastante populares. Um compromisso era firmado entre as intelectualidades liberais radicais com os trabalhadores, em uma ideologia liberal-trabalhista e aparentemente, esses padrões de atuação política eram comuns.

Um elemento importante nessa constituição política eram as pequenas cidades industriais e vilas manufatureiras, onde estavam fora da jurisdição londrina e por isso gozavam de grande autonomia para negociarem de maneira livre. Nessa negociações por vezes a classe trabalhadora abria mão de sua representatividade por melhores salários e condições de emprego. No final das contas, ambos os lados, classe média e baixa, saiam satisfeitos e por um tempo eles coexistiram pacificamente.

Até a década de 1840 essas relações livres e espontâneas dominavam o countryside inglês e demograficamente eram a maioria. No entanto, a partir daí, essas relações foram conturbadas por extrema agitação: A lei dos pobres, o socialismo utópico, o cartismo e a reivindicação pela redução da jornada de trabalho que colocou sob tensão as relações entre classes THOLFSEN 2008. No entanto, no final desse mesmo ano, as tensões haviam se dissipado.

Foi então aí que houve um largo emprego das renovadas morais sociais: uma mistura de meritocracia, com valores cristãos e progressismo foi inventado e servido para as classes mais baixas. Uma série de deveres para com Pátria, Deus e a Família foram estipulados e isso foi recebido com bastante sucesso por uma grande parcela da classe trabalhadora. Se antes, eles lutavam por direitos, agora tinham muitos deveres para se mostrarem dignos. Essa noção de compromisso para com as instituições se aproxima-se bastante com o modelo ateniense caso não fosse reservada para os mais pobres.

Sobre isso, vale comentar sobre a noção de direito e dever, uma vez que nas democracias modernas, muito influenciadas pela revolução francesa, a noção de direito ainda é muito forte e expressiva. Mas como argumenta Goldhill, na democracia antiga, a cidadania é garantida por meio da participação e do dever com a cidade.

Esse tipo de participação era mais latente sobretudo por meio do combate. A guerra era a principal forma de provar o valor (timé) e se mostrar cidadão entre os outros irmãos-em-armas. Algo parecido surgiu entre as prestigiadas aristocracias européias que perseguiram carreiras militares e mostraram serviço ao reino/República. Este valor atribuído as carreiras militares na idade vitoriana está diretamente ligado também com o sentimento nacionalista no caso alemão e italiano; Revanchista e nacionalista no caso Francês e Patriótico no caso inglês. Tanto na carreira militar de oficiais britânica como na norte-americana é incentivado um sentimento de missão civilizadora, uma espécie de destino manifesto, onde os exércitos, são liderados por cavalheiros frente à barbárie.

Barbárie esta que será parte muito comum na narrativa geopolítica dos estados europeus do século XIX, onde Franceses comumente chamam os alemães de Hunos e Ingleses e russos chamam o império Otomano e “O Homem doente da Europa”. Além dessas representações verbais, há também as visuais. Onde as nações personificam animais que simbolizam suas qualidades. O império britânico é representado por um Leão, o Russo por um Urso, o Francês por um castor, Os Estados Unidos por uma Águia e dessa forma é criada tanto a auto-imagem dos países como sua identidade para os de fora.

Da mesma forma que os Lacedemônios eram conhecidos por sua habilidade no combate terrestre e os Ateniense no combate naval, são respectivamente o Reino da Prússia e a Inglaterra. Por meio dos projetos nacionais e dos símbolos, os países buscam prestígio e renome. Tudo isso tem um propósito na política doméstica, uma vez que nutre o patriotismo do homem simples, e assim como na inglaterra, é capaz de apaziguar em certa medida os conflitos de classe. Manter o orgulho nacional alto é uma forma de manter a lealdade dos súditos.

O patriotismo, as morais cívicas e morais religiosas entraram no cardápio das classes médias e foram servidos para as classes trabalhadoras em um prato cheio. Instituições de ensino público não religioso foram fundadas, tudo com o intuito de incluir as classes baixas na participação rumo ao progresso.  Por meio da doutrina do Self-help e da meritocracia, fora estimulada a ideia de que poderiam crescer na vida e depois ajudar os outros. A mutualidade e a convivência harmoniosa entre classes havia sido estabelecida, mas sem alterar as posições de poder.

Instituiu-se a mentalidade do general improvement, isto é, do propósito comum da sociedade em se melhorar, se aperfeiçoar , todos em seus respectivos lugares sociais. O entusiasmo era grande, foram encomendadas a construção de vários espaços comunitários ou public halls e também escolas com o objetivo de aperfeiçoar e segundo as classes média e alta: “de elevar as massas”.

De tal maneira ficou estabelecido socialmente que a classe baixa deveria se aprimorar constantemente e se dignificar, a classe média deveria elevar as mais baixas e ser benevolente e a mais alta deveria comandar e guiar a nação rumo ao progresso, assim era a divisão nacional do trabalho.

Na sociedade vitoriana de meados do século, a harmonia entre classes era quase uma obsessão cultural, era desejado que as classes trabalhadoras se comportassem e soubessem seu lugar na ordem social, porém voluntariamente. A coerção e a violência eram mal-vistas por essa nova aristocracia educada e civilizada.

Então, para preservar essa harmonia e dar continuidade ao projeto moral burguês, diversos espaços foram construídos pela e para as classes trabalhadoras. Eram salas de leitura, banhos públicos, casas dos trabalhadores, escolas e seminários religiosos, todos eles com o propósito de trazer elevação moral e ocupar os espíritos das classes baixas.

O imenso aparato do self-help contribuiu para relaxar as tensões de classe THOLFSEN 2008, mas isso não apagou os contrastes sociais, apenas os deixou hibernando por um tempo. seja por meio de negociações, greves ou de um projeto nacional, havia um conflito de interesses entre a classe média e os trabalhadores britânicos de tal modo que seria profundo ao ponto de dividir a sociedade vitoriana em duas, como diria Disraeli.

Os novos sindicatos adotaram o mesmo modelo de self-help proposto pela burguesia, sendo o primeiro idealizado com a ajuda de Flora Tristan. A igreja também terá um papel importante na integração da vida comunitária. Jovens e adultos participavam de atividades e reuniões comunitárias organizadas pelos abades das vilas e dos bairros das grandes cidades. Apesar de não ter a desejada representação política, a classe trabalhadora certamente gozou da atenção de todos que buscavam ajuda-la em uma espécie de “missão civilizadora”.

Por meio de reuniões, chás, e refeições beneficentes, a comunidade se organizava, se relacionava e mais importante adquiria um importante senso de pertencimento. Esses encontros eram oportunidades para manter a coesão moral e a norma social entre grupos de jovens e adultos das classes baixas.

 

O alargamento do voto

 A Grã-Bretanha foi uma das potências imperiais mais tardias a aprovar o sufrágio universal masculino, sendo aprovado apenas em 1918. Até chegar nessa conquista a população inglesa, sua classe trabalhadora e as classes médias passaram por uma longa tragetória de acordos, lutas e reivindicações.

A maior questão em debate durante os meados do século vitoriano diz respeito ao alargamento do voto. Como demonstrado anteriormente, existia uma ampla consciência de classe acompanhado de um contentamento baseado nas morais cívicas e religiosas. No entanto, esse contentamento não apagou os contrastes sociais nem mesmo as contradições vividas dentro das relações de classe. Tais contradições preocupavam a classe política inglesa, uma vez que a mudança no sistema de voto colocaria em risco o equilíbrio social instalado pela harmonia do self help e dos acordos entre classes.

Parecia um suicídio social para as classes de posses até mesmo as emergentes expandir a franquia de sufrágio para as massas, havia comum acordo entre eles que seriam governados pela decisão de ignorantes. Esse pensamento fez manter o status quo do sufrágio até que concessões foram feitas graças a pressão do movimento cartista. Pode se observar que o alargamento dos direitos e da constituição democrática só era posto na medida que situações de crise eram anunciadas. Sem essa pressão, certamente não haveriam mudanças e concessões da maneira que ocorreram.

É este o primeiro reflexo de uma democracia moderna na Inglaterra. Gradualmente, esse seria um processo que transformaria a Grã-bretanha de aristocracia para oligarquia e depois para uma democracia, seguindo quase o esquema das sucessões políticas de Platão. A diferença no entanto, é que os sistemas não se degeneravam, a pressão social é que os empurrava adiante.

E essa pressão social teve uma força enorme graças a ajuda de membros da classe média dos setores mais radicais. Esses eram liberais radicais jovens e defendiam os ideais do cartismo lado a lado com a classe operária. Em suma o movimento cartista desejava aprovar estas pautas:

 

  • Sufrágio universal masculino
  • igualdade dos distritos eleitorais
  • voto secreto
  • representação da classe operária no parlamento

 

Diversas vezes o movimento cartista ganhava força para logo depois ser disbandado, enquanto isso, os debates calorosos continuavam no parlamento. A classe média radical, advogava pelos direitos de todos, representando os interesses da classe trabalhadora como uma união por interesses em comum.

No entanto, a igreja, permanecia como instituição conservadora e levantava a bandeira contra o avanço das pautas políticas. Um ábade chegou a dizer que “um cristão não deve se envolver com política” certamente se for um cristão de uma classe baixa.  Esse reacionarismo renovado apenas aumentou a temperatura das tensões sociais.

O movimento cartista no final sumiu sem ter suas reivindicações aceitas, mas seu legado deixou as  uniões operárias das vilas e cidades e lideranças da classe média radical

como personagens pivotais na resolução de conflitos e mediação das transformações lentas e firmes que encaminharam a inglaterra rumo a uma transição democrática.

 

Mediações com a Grécia

 Inglaterra e Atenas, ambas potências talassocráticas com esferas de influência enormes para seu tempo e também eram vistas como representantes da civilização frente aos outros mundos bárbaros. Esses paralelos não ficam somente nos fatos mas vão muito além, chegando na intelectualidade e na concepção de Inglaterra como responsável pela missão civilizatória de si e das regiões distantes do mundo.

Se analisarmos a política de estado no início do século XIX, a Inglaterra estava em um de seus momentos mais distantes do modelo ateniense e certamente ao final do processo de reivindicações e conquistas democráticas também não chegou muito perto. Isso porque, até quando a Inglaterra democratizou-se, seguia o modelo representativo, em contraste com a democracia direta vivida na Ática.

No entanto, se analisarmos a sociedade das vilas industriais do interior e das cidades provincianas, os acordos entre trabalhadores e empregadores e as dinâmicas de classe, o fenômeno toma outra forma. Se considerarmos também a política do self-help como uma forma de ampla integração e participação na vida nacional e cívica, certamente os paralelos ficam ainda mais próximos.

Nesse sentido, pode se dizer que houve uma experiência social e comunitária no interior inglês que trás lembranças do passado grego. A vida comunitária era centrada nos deveres, para com Deus, com a pátria, e com a família, muito parecido com as alianças culturais na Grécia antiga.

A lei dos pobres, criminalizando a vadiagem na Inglaterra lembra de alguma forma a maneira como era mal vida os cidadãos inúteis na polis. A diferença clara é que enquanto que a inutilidade da polis é falta de participação política, na metrópole é a falta de emprego.

 

Conclusão

O liberalismo inglês no século vitoriano é incompleto. O projeto nacional vitoriano amparado pelas elites e pelas formas de repressão é uma amálgama de moral religiosa, como liberalismo comercial e status quo social. A Inglaterra e suas elites se aproximam de um sonho ateniense por meio da promessa de uma harmonia social mas faz pouco para mudar as questões sociais tão urgentes.

Na medida que surgem problemas, uma elite reacionária teimosa se contrapõe a outra elite radical inspirada pelo liberalismo da revolução francesa e em meio a esta luta, alguns direitos e concessões são feitas de maneira a resolverem parte dos contrastes sociais. De toda forma, se percebe um estado bastante ausente como um todo, deixando muitas destas questões para a definição entre entes privados oque torna as organizações espontâneas das classes, as verdadeiras protagonistas do novo jogo político do século XIX.

Nesse sentido, a monarquia inglesa pode ser vista como uma das mais inertes e conservadoras do continente europeu, talvez pela forma como apaziguou os conflitos ou os repreendeu. De toda forma, isso é um mérito para as suas formas de dominação e controle e explica a longevidade da monarquia inglesa.

 

 

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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