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Cena de "Gangster Squad", 2013, Warner Bros Pictures.

O Sindicato do Crime: A Máfia dos anos 30

Cena de “Gangster Squad”, Warner Bros Pictures, 2013.

Se houve um homem responsável pela ascensão da Máfia ítalo-americana ao ponto desta ser retratada com tanto glamour e encantamento na cultura popular, além de criar o famoso Sindicado do Crime, essa pessoa foi Charles “Lucky” Luciano.

História

Gângster nascido na Sicília e que, com mão de ferro e muita inteligência, soube como ninguém conduzir os negócios da cosa-nostra, se transformou em um dos mafiosos mais ricos da história e fez da máfia nos Estados Unidos uma verdadeira organização (com O maiúsculo) criminosa.

Entre outras realizações atribuídas à Lucky Luciano, estão a criação do “sindicato nacional do crime” e a primeira “comissão” formada por membros de todas as famílias da máfia norte-americana e que geria e mediava conflitos de interesse entre os gângsters.

Luciano migrou com sua família da Itália para a América, mais precisamente para o bairro do Brooklyn em Nova York, ainda nos primeiros anos do século XX. Quando adolescente, fez parte da famosa “five points gang”, organização criminosa comandada por judeus e italianos que comandava suas ações em Manhattan. Roubos, apostas ilegais, prostituição e chantagem eram as principais atividades com as quais estava envolvido. Seu apelido “Lucky” (sortudo), inclusive, teria surgido nessa época, quando Luciano sofreu uma tentativa de assassinato na qual tiros foram disparados contra seu corpo, sem causar consequências mais graves à sua integridade (lembrou um pouco Don Corleone, não?).

Com a Lei Seca que passou a vigorar por todo os EUA em 1920, Luciano tornou-se um dos maiores nomes do contrabando de bebida e já era extremamente conhecido entre os principais líderes da máfia, como por exemplo, Joe “The Boss” Masseria e Arnold Rothstein para quem começaria a trabalhar. Com o financiamento deste último formou uma parceria com outros dois futuros líderes da cosa-nostra (Frank Costello e Vito Genovese) para trabalhar com o contrabando do álcool que chegava através do porto de Nova York.

Carregamento de bebidas apreendido pela polícia nos EUA durante a Lei Seca

EUA nos anos 20-30

Neste contexto, em meados da década de 20, vale lembrar que uma onda de violência entre as “famílias” da máfia nos Estados Unidos, começou a tomar conta do país. Com a comercialização ilegal de bebidas praticada por boa parte dos criminosos de então e um ainda inicial, porém já promissor, mercado de venda de drogas no mesmo período, a América começava a mergulhar em uma caótica batalha sangrenta. Integrantes de famílias rivais eram assassinados a todo momento devido a cada vez maior disputa por carregamentos de produtos ilegais.

Com este cenário um importante embate se deu entre dois nomes fortes da máfia da época: Joe Masseria (chefe de Luciano) e Salvatore Maranzano (chefe de uma das facções de Nova York, a família “Morello”, que passaria depois a ser chamada de família “Luciano” e posteriormente “Genovese”). Os dois disputavam o título de capo di tutti capi (“o chefe de todos os chefes”, cargo que estava acima de todas as famílias na cadeia de comando da máfia, e que na época pertencia à Masseria). Este confronto ficaria conhecido como Guerra Castellammarese, em referência à cidade natal de Maranzano (Castellammarese del Golfo, na Sicília).

O hábil Lucky Luciano viu nesta situação a oportunidade perfeita de enfraquecer os dois lados da disputa e ascender ao poder máximo da máfia. Ao lado de seu companheiro de longa data, o irlandês Meyer Lanski e de seus comparsas de negócio, Frank Costello e Vito Genovese, Luciano começou a se movimentar para dar cabo ao conflito de Castellammarese.

Tanto Masseria quanto Maranzano eram gângsters à moda antiga, que pregavam os valores tradicionais na condução dos negócios da máfia. Então, a mando de Maranzano, Luciano planejou o assassinato de seu chefe, Masseria. Em um episódio recheado de lendas e mitos, Masseria teria sido morto em um restaurante em Coney Island pelos comparsas de Luciano depois deste supostamente tê-lo atraído ao local do crime (novamente citando “O Poderoso Chefão”, lembrou a primeira vítima de Michael Corleone, não?)

Desta forma, Maranzano passaria a ocupar o cargo de chefe dos chefes, não fosse a mente asquerosa e ávida ao poder de Luciano, que resolveu também assassiná-lo para ter caminho livre na conquista do comando da máfia. Após invadirem a residência de Maranzano, Lensky, Genovese e o próprio Luciano esfaquearam o então, capo di tutti capi da crime organizado, que apenas meses antes tinha chegado a esta posição. Era finalmente a subida de Luciano ao poder.

Sem a presença dos antigos líderes nos negócios e após reunião com representantes de famílias de todo os Estados Unidos, ficou decidido que a máfia não mais contaria com o cargo de “chefe de todos os chefes”, mas sim com um conselho administrativo, conhecido como “A Comissão”. Esta realizaria “assembleias nacionais” com seus participantes a cada 5 anos (ou quando julgassem necessário) e serviria para negociar da melhor maneira possível o conflito de interesses entre cada família.(Olha a semelhança com O Poderoso Chefão aí de novo).

 

O Sindicato do Crime

Luciano foi eleito o presidente da primeira Comissão em 1931, da qual faziam parte, além de Luciano (agora chefe de sua própria família) os gangsters nova-iorquinos: Joseph “Joe Bananas” Bonano (chefe da família Bonano); Vicente Mangano (chefe da família Gambino); Giuseppe “Joe” Profaci (chefe da família Colombo); Gaetano “Tommy” Gagliano (chefe da família Lucchese), além de Al Capone, representado Chicago e Stefano Magaddino, da cidade de Búffalo.

Nestas reuniões quinquenais, era autorizada, por exemplo, a entrada ou não de novas famílias na comissão. A partir do consenso entre os membros da comissão, também era decidido como se daria a exploração de novas atividades lucrativas, como o tráfico de drogas; os assaltos; a distribuição de territórios de atuação entre as famílias e até mesmo o planejamento do assassinato de inimigos em comum.

A primeira “Comissão” em 1931

 

Assim funcionou a organização das atividades criminosas ligadas à máfia até o ano de 1936, quando Luciano acabou sendo preso acusado de envolvimento com a prostituição compulsória de mais de 60 mulheres na região de Nova York. O afastamento do então líder resultou na eleição de Vincent Mangano para o comando da comissão e na ascensão de Frank Costello na máfia nova-iorquina, já que este passaria a ser o homem forte de Luciano nas ruas.

Lucky Luciano quando foi preso em 1936.

Vida após o crime

No entanto, um detalhe curioso ainda estava para acontecer na vida do gângster. No ano de 1943 o governo dos Estados Unidos precisou de sua ajuda para desembarcar tropas do exército na Sicília e que combateriam na Segunda Guerra Mundial. Graças à grande rede de contatos de Luciano na região, os norte-americanos conseguiram avançar Itália adentro e se juntar aos demais soldados aliados, a partir do desembarque seguro na ilha do sul do país.

Por ter feito essa “benfeitoria”, após o fim da Segunda Guerra, Luciano foi colocado em liberdade mediante um acordo feito com o governo, o que o possibilitou realizar seu último grande ato como homem forte do crime organizado: a Conferência de Havana, que contou com a participação de quase todos os membro da “comissão” e que decidiria os novos rumos da Máfia, incluindo aí a exploração do turismo na ilha caribenha (precisa citar a semelhança com a trilogia de Coppola novamente?)

O conhecimento das autoridades norte-americanas do envolvimento de Luciano com a organização da conferência em Havana, os pressionaram a forçar a extradição do gângster para a Itália, uma vez que este, se continuasse nos EUA, seria mantido em liberdade devido ao acordo pós Segunda Guerra.

Era o fim da trajetória de grande chefe da máfia norte-americana para Charles “Lucky” Luciano. O criminoso passou a viver em seu país natal sempre sob constante supervisão das polícias italiana e norte americana, o que deixava praticamente impossível o envolvimento dele com atividades ilegais.

Luciano morreu na cidade de Nápoles em 1962 aos 68 anos, vítima de um ataque cardíaco. Seu legado, porém, continuou vivo dentro da máfia. A comissão continuou existindo por muitos anos, se expandiu até as famílias criminosas da Filadélfia, Detroit e Los Angeles, e se firmou como a maior prova do quão organizados podem ser o crime e suas atividades ilegais.

 

Sobre o Autor

Daniel Tozzi Mendes é graduando em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Escreve principalmente sobre futebol, economia, música e cultura pop. Este texto é uma adaptação de “Máfia, Tiros e Trapaça“, escrito para o médium do autor, o qual pode ser acessado aqui.

 

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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