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O Leão Britânico contra o Urso Siberiano

Após o congresso de Viena de 1815, finalmente a Europa voltara ao seu status quo pré-revolucionário  –Sobre isso, temos este artigo especial-. Nas palavras de Henry Kissinger, ex-secretário de estado Norte-Americano e estudioso, o Mundo que se seguiu após o Congresso de Viena era um mundo Restaurado.  Esse Mundo – Centrado na Europa- que conseguiu manter uma paz em larga escala que durou 100 anos, entre Waterloo e a 1ª guerra mundial.

Durante esses 100 anos não houve nenhum conflito de grande escala envolvendo as potências imperiais europeias, exceto algumas escaramuças e conflitos locais.

Entretanto, será mesmo?

Apesar da restauração de 1815, o tabuleiro europeu dificilmente se tornou completamente imóvel. Basta lembrar da guerra franco-prussiana, ou da guerra de independência belga e não menos importante, a guerra da Crimeia.

Ainda que todas essas fizessem parte de sistemas de litígio localizados e até mesmo a proporção do teatro de suas operações, limitada, essas guerras foram agudas no desenvolvimento de rivalidades e questões partes de um corpo cujas raízes são profundas e sua flor, a mais terrível de todas, a primeira grande guerra.

Viveu-se, durante o Século XIX, de fato, uma paz. Porém certamente uma paz armada, uma guerra fria vitoriana em que todas as potências, domesticadas pela grã-bretanha, lentamente erguiam suas economias e de muniam de todos os meios na luta pela hegemonia dos povos.

A grã-bretanha como potência vitoriosa e isolada em seu arquipélago, observara o continente europeu atrás de uma vitrine. E do mesmo modo que um cientista observante, analisava constantemente seu experimento e fazia-lhe os ajustes necessários para manter as condições estáveis e as variáveis discretas.

Ainda nesse raciocínio, a Inglaterra interviu nas guerras Russo-otomanas com bastante frequência, sempre favorecendo seu apoio aos eslavos e procurando minar a Turquia ou, como era conhecida na época “o Homem doente da Europa”. No entanto, após duas ou três vitórias russas e a comemorada independência do Estado Helênico, a rainha Victoria sentiu que já havia atingido seus objetivos. A turquia já  estava enfraquecida o bastante e o império Russo, as despesas dos otomanos haviam crescido e se fortalecido, assim como conquistado prestígio internacionalmente.

Guerra de independência Grega

O crescimento acelerado dos domínios do Czar somente significou uma coisa: O Leão britânico agora estava de olho no Urso dos Urais. Não contente com a vigilância, a grã-bretanha assinou uma aliança militar com sua antiga rival, França –agora curiosamente governada por um membro da dinastia de Napoleão- assim como seus recém vencidos inimigos, os turcos.

Ou seja, Grã-bretanha e Rússia de aliadas passaram a ser inimigas; Otomanos e ingleses, de inimigos à aliados e França e Inglaterra, de rivais à parceiros. Tudo isso em um intervalo de 20 anos!

Esse ilustre exemplo de inversões diplomáticas, entretanto, não é novidade. A revolução diplomática de 1756 foi a definidora desse novo comportamento dos países Europeus que ora se viam de um lado e em alguns anos mais tarde, já estavam do outro.

O resultado desse jogo diplomático era facilmente manipulado pela grã-bretanha, senhora dos mares, líder da indústria mundial e imperatriz sobre a Índia. Seus domínios se estendiam de tal modo que “o sol nunca se punha no Império britânico”. A constelação de ilhas e bases navais, o pioneirismo na indústria e na técnica, a autóctone urbanização e proletarização reforçaram a posição pivotal inglesa no mundo restaurado do tratado de 1815. Tal posição, que apesar de uma diplomacia pouco prestigiada por outras potências, tinha sua mão beijada graças a sua incrível Armada e sua influência econômica mundial. Nesse sentido, o crescimento russo significava ao mesmo tempo ameaça para a supremacia diretamente como indiretamente. Ora, os russos poderiam crescer ao ponto de coligarem com outras potências emergentes e até mesmo o suficiente para desafiarem sozinhos o poderio Anglo.

Bem, agora o breve histórico que se antecipa a guerra da Crimeia é bastante confuso e cheio de reviravoltas.

O enfraquecimento do Império Otomano

Entre 1800 e 1829 o Império Otomano foi perdendo substancialmente seu poder territorial e militar para as potências Europeias. Esse processo foi iniciado com a revolução Sérvia de 1804, passando pela independência Grega de 1821, terminando com o tratado de Adrianópolis, encerrando a última guerra Russo-Turca antes da Guerra da Crimeia. Acredite ou não, mas todos esses conflitos tiveram o apoio financeiro da França e da Grã-Bretanha e suas motivações derivavam de noções metafísicas como  a defesa da cristandade e do berço da democracia que era a Grécia assim como considerações mais racionais como o equilíbrio diplomático Europeu.

Depois de 1829, o Império foi enfraquecido não mais por agentes externos, mas internos. Em 1831, a debilidade Otomana fez com que o seu maior Vassalo , o Bey Muhammad Ali do Egito declarasse sua independência. O conflito entre as forças Turcas e Egípcias resultou nas desastrosas derrotas do império que viu sua capital, Constantinopla, ameaçada pelo avanço do Bey. Nesse cenário, O Sultão, pediu ajuda às pressas ao Czar Russo, que não hesitou em ajudar – Sim, o mesmo Czar que impôs uma derrota humilhante no tratado de 1829-. Com a Ajuda dos Russos, os Egípcios foram expulsos e essa primeira guerra terminou em Status Quo, muito embora as regiões do levante tenham ficado sob forte influência do governo Em Cairo.

Curiosamente, em troca de sua ajuda o Czar concordou um tratado com os otomanos que estabelecia um pacto defensivo e permitia aos Russos e Otomanos o Bloqueio do Estreito de Bósforo e Dardanellos caso algum destes estivesse ameaçado por alguma outra potência.

Em 1839, um novo conflito se irrompeu entre os mesmos Beligerantes e dessa vez, Grã-Bretanha, Prússia, Áustria e Rússia tiveram de intervir, o que resultou na conquista de todo o levante pelos Otomanos e o enfraquecimento Egípcio assim como foram lançadas as bases para a submissão de Cairo aos interesses Anglo-Franceses.

Dois anos mais tarde, na conferência de Londres sobre os estreitos, a Rússia foi pressionada pela demais potências europeias a cancelar seus acordos com o sultanato.

Após alguns anos acompanhados de rápido crescimento Russo e desavenças com os ingleses, o império do Czar, se viu mergulhado em um conflito contra todos aqueles que até pouco tempo eram seus aliados. Não apenas isso, como a sua santa aliança, já desfeita ainda nos anos 20, de nada servira e a Terra-mãe se viu isolada em um conflito sem aliados. Por fim, esse conflito, conhecido por guerra da Crimeia desmoralizou e Derrotou de maneira crítica a nação russa, que demorou anos para se recuperar.

No entanto, isso daí fica para outro artigo.

Soldados Britânicos, Franceses e Otomanos coligados derrotando o Império Russo

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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