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O Discurso do Rei

O entreguerra (1918-1939) provavelmente foi o período de maior convulsão  silenciosa da história recente inglesa, sendo a epítome do contraste entre os projetos anti-liberais, as agendas dos trabalhadores e a elite administrativa, todos fraturados por inúmeras razões. É nesse cenário em que o premiado e aclamado filme “O discurso do Rei” se Ambienta porém com um recorte bastante singular: A perpectiva de um príncipe que gagueja e de um doutor que o ajuda a superar esse impedimento de fala.

Tal impedimento que tão factualmente registra o drama vivido pelo príncipe Albert mas também que assinala talvez algo bem mais profundo: A própria virtude da fala como a expressão do ser e vital promotora da capacidade de ser ouvido.

Capacidade essa que sem dúvida alguma assombrou a Alemanha sob os discursos enérgicos e revigorados de Adolf Hitler, que falava sem problema algum e convocava legiões de trabalhadores e soldados para cumprir o esforço de uma nação. Enquanto isso, quem assombrava Albert eram os traumas de sua infância que lhe fatalmente lhe causaram os impedimentos à fala.

Talvez essa breve comparação nos diga algo: de que num mundo dominado pelo ódio, revanchismo e incerteza, aqueles mais dispostos a falar com convicção geralmente ganham força.

O filme também apresenta a precaução da diplomacia Inglesa acompanhada de certo descaso em relação às transgressões de Hitler, a tão chamada política de apaziguamento. Primeiros-ministros após outros, temem o caos político e diplomático vivido por uma Europa de mãos atadas.

Trabalhadores desempregados durante o entreguerra

 

Para os Ingleses, a guerra era cada vez mais reconhecida como inevitável muito embora os males causados pela guerra mundial anterior ainda não tivessem sido totalmente sanados. Talvez seja esse o senso-comum inglês de uma Inglaterra debilitada moralmente e economicamente.

Nesse cenário tão enevoado como as manhãs londrinas, a nação, por meio do Rádio necessitava da voz do Rei e da família real para compadecer-se e sentir-se menos aplacada pelas incertezas da vida.

Não é a toa, que a Inglaterra viu nascer em seu próprio seio um movimento fascista, liderado por Oswald Mosley. Este, como muitos, acreditaram em soluções alternativas para a política da comunidade britânica. Porém, todos tais projetos inevitavelmente falharam, mas porque?

A chave para a estabilidade inglesa desta época foi certamente a Família Real Britânica. Para tanto, era de suma importância a figura do Rei e de seus filhos como mantenedores-chave da paz e como símbolos de confiança e segurança.

Em 1936, o Rei de então George V morre dando lugar ao seu filho Edward, porém seu reinado tem vida curta. No final das contas a responsabilidade do manto real caí nos ombros do príncipe Albert, que chega ao trono graças à abdicação de seu irmão.

Paralelamente à abdicação de de Edward, os primeiro-ministros  Stanley Baldwin e Neville-Chamberlain abdicam deixando o cargo para Winston Churchill que assume a nação em seu momento mais sombrio.

Juntos, o príncipe Albert, então coroado como Rei George VI e o novo primeiro-ministro Churchill tiveram o trabalho hercúleo de romper com a diplomacia do apaziguamento e declarar a guerra à Alemanha de Hitler.

A decisão de colocar a população como refém de mais um novo conflito mundial talvez tenha sido uma das mais complicadas, e nesse momento, a figura do rei que fala e guia seu povo era de crítica importância.

O discurso do Rei nos indica que em tempos difíceis, não importando a dor e os impedimentos passados, os homens e mulheres morais devem agir e não se acovardar. A história nos ensina que os tempos de incerteza dão a luz à discursos imediatos, milagrosos e convincentes.  Eles convencem não tanto devido a sua verdade porém talvez graças à determinação de seus interlocutores.

 

Rei George VI

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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