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Adolf Hitler faz sua icônica saudação durante uma parada militar.

A Nova Ordem de Hitler – Continente Sombrio

Este artigo é uma resenha do capítulo 5 do livro “O Continente Sombrio: A Europa do Século XX”, escrito por Mark Mazower. Denominado como “A Nova Ordem de Hitler, 1938-45” (p. 465).

 

O Autor

Mark Mazower.


Mark Mazower é um historiador Britânico, nascido em Londres no ano de 1958, e atualmente professor de história na tradicionalíssima Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Mazower é formado em história pela Universidade britânica de Oxford, tendo concluído sua formação e doutorado na mesma instituição no ano de 1988. As especialidades do autor se referem aos estudos do século vinte com enfoque na Grécia e na região balcânica, campos nos quais é internacionalmente reconhecido.

No seu livro “O Continente Sombrio: A Europa no Século XX”, Mazower faz uma leitura da história europeia na conjuntura da derrocada da democracia na concepção liberal, a ascensão dos fascismos e a queda dos mesmos e finda com uma análise da conjuntura europeia do pós-guerra. O capitulo resumido nesta resenha descreve como era administrada a Europa sob o jugo nazista, como este se comportava nos momentos em que a vitória era uma certeza e como se deu a rejeição do regime pelos povos conquistados e como se conceberam tais problemáticas entre os anos de 1938 e 1945.

 

A derrocada da Democracia

O historiador argumenta que até os anos 30, a concepção de democracia já não era mais bem vista entre os povos europeus, principalmente pelos mais afetados pela crise de 29, como a própria Alemanha, que entendiam o conceito de liberdade liberal como liberdade apenas para morrer de fome e não vinham mais sentido na valorização individual proposta pelo sistema democrático. “Ao encerrar-se a década de 1930, a opinião pública europeia não se opunha de modo algum à ideia de uma reconstrução autoritária do continente sob a liderança dos alemães” (p. 147).

Mazower elucida que Hitler teve uma grande oportunidade de fazer com que seu nazismo fosse incorporado na mentalidade dos povos europeus como regime salvador, mas sua má gestão em relação aos povos diferentemente étnicos em relação aos alemães fez com que tal oportunidade se perdeu quando as medidas eugênicas adotadas pelos nazistas se encontraram com as realidades europeias de outros estados nações. A ideia de uma reconstrução do Sacro Império Romano Germânico era fortemente fomentada no ideário do Estado-Maior alemão, o que fez com que qualquer autonomia dos outros países conquistados fosse suprimida. A total centralização alemã, demonstrada de maneira radical quando governos eram trocados por colaboradores nazistas, quando empresas foram expropriadas para dar lugar a novos proprietários alemães ou quando as massas operárias foram obrigadas a migrar compulsoriamente para trabalhar pelos alemães foi o que fez com que o tão aceito nazismo fosse logo rejeitado; “o Terceiro Reich implantou na Europa uma série de regimes de ocupação mais ou menos provisórios. Num extremo desmembrou alguns países e suprimiu por completo sua identidade nacional” (p. 152). A promessa de libertação do imperialismo vinculada na propaganda do regime alemão foi logo contrariada em virtude do comportamento da Wehrmacht em solo ocupado, ou da SS no sentido da realocação das massas consideradas Untermensch, como os polacos, russos, ciganos e judeus. “A reviravolta na jurisprudência nazista, que inspirou declarações de “antiimperialismo”, não convenceu ninguém, até porquê não teve nenhum efeito visível sobre a política” (p.156).

 

A Nova Ordem de Hitler

A motivação do regime buscava criar uma única entidade Europeia, entretanto, tal motivação ignorava por completo os sensos políticos e tomava vieses puramente econômicos, a juventude tecnocrata alemã almejava a criação de uma gigantesca zona franca europeia, entretanto, formado apenas por Ubermensch, ou seja, aqueles europeus de facto, os etnicamente “puros”. Tal fundamento levou às pilhagens no Leste Europeu, que era tão estimado pela alta cúpula alemã, criando o ressentimento dos povos ocupados. Os que receberam os alemães de braços abertos nas primeiras conquistas já não os viam mais como salvadores, em especial os Ucranianos, Poloneses e os judeus, principais vítimas de expropriações, campos de trabalho e do próprio Holocausto, demonstra o escritor. O insucesso nazista se acentua nesse sentido, quando a visão de continente centralizado e supressão das identidades e autonomias nacionais resultaram nas crises de fome a partir de 1942. Para servir à elite racial alemã, Hitler se recusou a diminuir padrões de consumo e a manutenção do vasto império, o Lebensraum, assim como o fomento da Guerra Total precarizaram a situação de milhões de outros europeus “Se Hitler tivesse concordado em privatizar as fazendas coletivas, como Rosenberg e seus conselheiros recomendara, a produção agrícola poderia ter aumentado ao invés de diminuir.” (p. 159).

Adolf Hitler faz sua icônica saudação durante uma parada militar.

O escritor explica que a orientação para uma Guerra Total causou a crise organizacional nazista, os líderes do regime tiveram enormes dificuldades em planejar a economia sem sair do que Hitler considerava o correto. Alguns mais visionários como Albert Speer e até mesmo Goering argumentavam que a racionalização da economia deveria partir de um total aproveitamento não compulsório dos países satélites, ou seja, um fundamento da economia de mercado, abominada por Hitler. A partir de dado momento o planejamento laborista alemão, encabeçado por Fritz Sauckel, se viu encarregado do recrutamento forçado de milhões de trabalhadores não-alemães, o que igualmente gerou diversas crises de insatisfação nas localidades de onde tais trabalhadores eram retirados. Não sabia-se mais se as massas etnicamente “inferiores” deveriam servir para forças de trabalho ou se estas deveriam ser eliminadas em virtude de criar uma Europa racialmente pura, tais questões norteavam as discussões entre os burocratas alemães durante todo o decorrer da guerra.

Mazower também levanta a questão racial como grande enfoque do regime. A criação de um bem-estar racial era crucial para a manutenção do Lebensraum, encabeçados pela SS, centenas de milhares de pessoas de origem étnica alemã, Volksdeutsche, foram realocadas de diversos lugares da Europa de volta para o Reich. Desde o Tirol até a Bessarábia e do Caucaso à Letônia, a questão era que tais massas deveriam ser assentadas nas regiões anteriormente pertencentes à Polônia e Iugoslávia. A política de realocação de Untermenschen para regiões como o novo Governo Geral da Polônia levou a diversos conflitos econômicos; “Tal projeto, no entretanto, desagradava a outros burocratas nazistas. Em primeiro lugar, envolvia praticamente a desintegração da economia local. Nos territórios anexados, a expulsão dos camponeses poloneses e dos artesãos judeus ameaçava provocar um colapso econômico; no Governo Geral os administradores não estavam gostando nem um pouco de receber multidões de poloneses e judeus pobres”  (p. 167).

Os que mais sofreram com as políticas de germanização foram os poloneses. Diferente da germanização proposta no século XIX, que tinha como virtude a gradatividade, os nazistas adotaram a truculência e extermínio. Não fossem só os nazistas, os polacos também enfrentavam políticas de reassentamento dos soviéticos na polônia ocupada entre 1939 e 1941. Universidades fechadas, intelectuais assassinados faziam parte da política para eliminar a cultura polonesa. Os judeus encontraram tal problema, todos os seus bens culturais seriam removidos e enviados á Frankfurt, e sua população que antes abarrotava alojamentos no Governo Geral Polonês, para constituir uma mão de obra facilmente explorável, encontrou um destino ainda pior e mais sombrio. A “questão judaica”, levantada por Himmler em meados de 1940 veio a tona no ano seguinte, levando milhões de judeus à campos de extermínio, tarefa que não sai somente sobre os ombros dos alemães, mas de franceses, croatas, romenos e diversos outros governos notadamente antissemitas colaboraram nas deportações em massa dos mais de 5 milhões de judeus que vieram a perecer durante o Holocausto; “Convidados a colaborar, os governos estrangeiros reagiram de acordo com as possibilidades de uma vitória alemã. […] Alguns governos, notadamente o francês, o eslovaco e o croata, eram no mínimo tão fervorosos em seu anti-semitismo quanto os alemães e acataram com prazer a oportunidade de despachar “para o Leste” sua população judaica” (p. 176), elucida o escritor.

Os campos de trabalho, tornaram-se base da economia da SS, que abarcava diversos setores econômicos, como mineração e indústria pesada. “Como a União Soviética na década de 1930, o Reich em guerra tornou-se uma economia baseada no trabalho escravo” (p. 179), descreve Mazower.

O historiador conclui o capítulo afirmando que, o plano que saiu de um triunfo e com uma série de oportunidades perdidas se tornou uma total catástrofe. A truculência, a ideologia racial ultrapassando os deveres econômicos foram o que levaram o regime de Hitler à sua derrocada.

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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