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Negros na SS: verdade ou mito?

Recrutamento de estrangeiros nunca foi novidade em exército algum na história. No Brasil, duas grandes legiões estrangeiras já foram recrutadas durante o período imperial. Na França, até hoje existe uma legião estrangeira permanente. E a Alemanha não fugia dessa regra.

Mas ao se falar da Alemanha nazista, a discussão já fica mais nebulosa. Não é novidade que os alemães chegaram a recrutar batalhões estrangeiros, mas algumas pessoas questionam se a política racial alemã chegou a afetar drasticamente a sua política de recrutamentos. E é sobre isso que falaremos hoje.

Mas antes de mais nada, já aviso que a narrativa hoje será um tanto quanto diferente das demais publicações aqui do site. O assunto de hoje carece muito de fontes confiáveis, e as poucas fontes que pude encontrar a respeito dão informações bastante nebulosas. E por isso, ao invés de narrar os fatos em ordem cronológica, como costumo fazer; tentarei esclarecer os fatos do mais geral ao mais específico, estabelecendo uma ordem não de tempo, e sim de fases da pesquisa.

Estrangeiros no exército alemão:

Desde o início da Segunda Guerra Mundial que os alemães buscavam voluntários nos países ocupados para preencher suas fileiras no campo de batalha. A SS chegou a formar unidades inteiramente estrangeiras, como a Legião Letoniana e a Legião Estoniana.

Outras forças paralelas chegaram também a servir a causa de Hitler, como no caso da Ustaše: um exército de 76 mil croatas que lutaram ao lado dos alemães durante a ocupação da ex-Iugoslávia. Havia também a Divisão Azul, formada por voluntários espanhóis para lutar na operação Barbarossa com o aval do ditador Francisco Franco.

Mas se houveram negros na SS ou nas forças armadas alemãs como um todo, então certamente não foi nas unidades de origem europeia. Os alemães chegaram também a recrutar voluntários da Índia e do Oriente Médio, além de contarem com o apoio do Azad Hind: um Estado fantoche dos japoneses na Índia Britânica.

Para tentar descobrir se houveram negros em quantidade “aceitável” nas forças armadas alemãs para fazer tal afirmação com segurança, podemos começar observando sua legião estrangeira com maior probabilidade de contar com voluntários negros: a Freies Arabien Legion ou “Legião Árabe Livre”.

A Legião Árabe Livre

O fornecimento de recrutas para preencher as reservas e as linhas de frente em combate é uma necessidade constante no campo de batalha, e não foi exceção para os alemães durante sua campanha na África durante a Segunda Guerra Mundial.

Independente da sua política racial, o exército alemão precisava constantemente preencher suas baixas sofridas em combate; e treinar soldados alemães e transportar até o outro lado do mediterrâneo era um processo excessivamente demorado. Para resolver esse problema, os oficiais alemães encontraram duas soluções: ou recrutavam prisioneiros, ou procuravam por recrutas nas cidades e vilarejos ocupados. Os alemães optaram por fazer as duas coisas.

E para recrutar a população local do norte da África, uma nova unidade foi criada no exército alemão: a Legião Árabe Livre, criada pelo comandante palestino-otomano Amin al-Husseini. Esses voluntários vieram principalmente do Iraque, Palestina e Síria; mas com o tempo foram recrutando pessoas de outros lugares do Oriente Médio e do norte da África, vindo a atingir 20 mil homens em seu auge.

A maioria desses recrutas se voluntariavam em busca de emprego ou simplesmente porque acreditavam que a Alemanha sairia vencedora na guerra. Mas havia também um conjunto de recrutas e oficiais que se juntavam à legião pois viam os alemães como um aliado contra dois inimigos comuns: o Império Britânico e a França, que desde o século anterior colonizavam aquele continente.

Essa legião ficou conhecida, entre outras, por três participações importantes na guerra: serviram para auxiliar o exército alemão na travessia do Cáucaso, durante a invasão à União Soviética; serviram para manter a presença alemã na Grécia e, por fim, lutaram durante a campanha alemã na Tunísia.

A Campanha na Tunísia

Visando fortalecer o colonialismo italiano e remover a presença britânica na África, as nações do Eixo iniciaram uma série de campanhas no norte do continente africano. Essa campanha contou com uma extensa participação da Legião Árabe Livre, e essa participação exigiu grandes buscas por voluntários.

Se houve o recrutamento de negros na legião, certamente foi durante essa campanha. E ao pesquisar sobre a campanha, pude encontrar trechos de alguns autores se referindo a participação de negros; além de algumas fotos de soldados negros com o uniforme alemão. Portanto, aqui já podemos dizer que sim, haviam negros lutando no exército alemão.

Mas segundo Robert Satloff, esses soldados negros não estavam isentos do pensamento racista da política alemã. Apesar de terem tido participações importantes em campanhas na África, no Cáucaso e nos Balcãs, chegando até mesmo a enfrentar levantes antifascistas na Iugoslávia; esses soldados negros eram sempre visto como unidades inferiores, e eram muito pouco valorizados até mesmo pelos árabes dentro da unidade.

Esses soldados negros- e também os Árabes- tiveram também, segundo o mesmo autor, uma importante participação no combate ao holocausto, pois frequentemente ajudavam os prisioneiros a escapar dos campos de concentração.



Negros na SS: verdade ou mito?

Como eu disse no início do post, as fontes acerca do assunto são poucas e nebulosas. Portanto, não há certeza acerca disso. Mas baseado no que foi apresentado aqui, já é possível dizer que:

-Primeiro: é pouco provável que houvessem negros especificamente na SS. Geralmente os estrangeiros dessa força eram acoplados em unidades específicas, e os poucos que se misturavam eram soldados de grande prestígio da Wehrmacht (exército alemão propriamente dito). Como os negros eram mal vistos e desrespeitados no exército alemão, então certamente não, não haviam negros na SS.

-Segundo: já no exército alemão já é possível afirmar que sim, é bem provável que houvesse um certo número de negros. Mas isso não chega a ser motivo para se afirmar que o regime nazista era “menos racista do que se costuma pensar”; pois além desses negros não terem recebido o devido respeito enquanto soldados, eles foram recrutados muito mais por uma questão de necessidade do que de desejo do Estado Maior alemão.

Vale ressaltar que não é correto se referir a esses possíveis soldados negros no exército alemão como nazistas. A maioria buscava apenas garantir seu ganha pão, e os membros da Legião Árabe Livre que entraram por razões políticas, sejam negros ou não; entraram não por simpatia com os nazistas, e sim porque viam neles uma possibilidade de expulsar seus colonizadores britânicos e franceses.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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