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Zuavos Baianos: Os negros que lutaram na guerra do Paraguai que não te contaram

Os zuavos, originalmente, eram regimentos de infantaria leve empregados pelo exército francês em suas colônias no norte da África a partir de 1831. Inspirados no modelo militar francês, no Brasil, esses regimentos foram organizados para uso na Guerra do Paraguai. Os chamados “zuavos da Bahia”, ou “zuavos baianos”, foram organizados pela primeira vez em fevereiro de 1865, em sintonia com a mobilização dos voluntários da pátria. Os regimentos de zuavos da Bahia eram compostos por negros baianos e pernambucanos, libertos ou não, que entravam no exército como voluntários, compondo uma parte menor dos grandes corpos de Voluntários da Pátria. Os negros libertos entravam automaticamente nesses regimentos assim que entravam voluntariamente no exército. Entretanto, muitos dos grandes latifundiários, para ele mesmo ou algum outro parente esquivar do serviço militar, enviavam seus escravos em seu lugar. Muitos escravos fugidos também buscavam sua liberdade no exército, já que ganhariam a sua alforria caso voltassem vivos da guerra.

O equipamento dos zuavos baianos não possuía uma diferença notável dos voluntários da pátria no quesito armamento e, como os corpos de voluntários da pátria a qual pertenciam, usavam a carabina Minié de fabricação belga, uma inovação militar usada amplamente na Europa que usavam as temíveis balas Minié, com um poder destrutivo maior do que as antigas balas redondas de mosquetes. Comparado com o equipamento paraguaio, os mosquetes utilizados pelos brasileiros eram mais modernos e estavam em sintonia com a tecnologia bélica utilizada na Europa e nos EUA.

A grande diferença, entretanto, estava no uniforme desses regimentos de zuavos, que usavam praticamente a mesma vestimenta militar dos zuavos empregados pelo exército francês. O distinto uniforme dos zuavos era composto por uma jaqueta azul aberta, com detalhes em verde e amarelo. Além disso, como os zuavos franceses, os zuavos baianos usavam uma calça serouel vermelha, e um chapéu, chamado de fez, também vermelho em sua cabeça. Segundo o Conde d’Eu, os zuavos baianos eram o regimento mais lindo do exército brasileiro, notando também como eles eram organizados e inteiramente a par dos serviços de seu batalhão.

 

 

Como regimentos de infantaria leve, os zuavos baianos assumiam exatamente essa função no campo de batalha. Portanto, os zuavos baianos faziam parte da vanguarda do exército imperial brasileiro, tendo função de reconhecimento do terreno adiante e, além disso, tomar parte nas primeiras escaramuças e assim abrir caminho para a infantaria de linha que viria atrás deles. De forma errada, o emprego de negros nessa função de infantaria leve foi associado a uma espécie de “genocídio sistemático” por parte dos brancos para aniquilar a população negra brasileira.

Essa ideia, creditada a Julio José Chiavenatto, responsável por propagar o mito do “Paraguai potência” no Brasil, não leva em consideração o fato de que brancos também faziam parte de regimentos de infantaria leve, não necessariamente os zuavos baianos e que, independentemente de cor, todos morreram igualmente pelo seu país ou pela sua liberdade. De qualquer forma, o emprego de negros no exército imperial brasileiro continua sendo um tema controverso e, portanto, também pouco estudado, mas estima-se que aproximadamente de 5% a 7% de seu contingente completo era negro.

Os zuavos baianos participaram de diversas batalhas ao longo da duração da Guerra do Paraguai. Entre elas, os zuavos chegaram no Cerco de Uruguaiana, mesmo ficando pouco tempo antes dos paraguaios se renderem. Além disso, eles também participaram da Primeira Batalha do Tuiuti, e finalmente na Batalha do Curuzu. A Batalha do Curuzu não foi um marco de sua performance, mas um divisor de águas na sua história. Afinal, os corpos de zuavos baianos foram dissolvidos nos eventos que se decorreram após essa batalha e seus soldados remanejados para batalhões comuns. O principal motivo para essa atitude foi a reorganização do general Manuel Luís Osório nas fileiras do exército brasileiro. A razão por trás disso foi o cada vez menor número de soldados que ele tinha a sua disposição, já que o exército imperial perdeu boa parte de seu contingente na Batalha do Curupaiti, a pior derrota já sofrida pela Tríplice Aliança na guerra, e que foi depois a Batalha do Curuzu, além das mortes em acampamentos devido às constantes epidemias de cólera, um problema comum nas guerras da segunda metade do século XIX devido à má higienização desses acampamentos.

 

 

 

Com o fim da Guerra do Paraguai com uma vitória brasileira, três dos batalhões de zuavos retornaram para a Bahia, sendo recebidos com diversos festejos entre os cidadãos baianos. Entretanto, seu esforço heroico nos campos de batalha da guerra não foram inteiramente reconhecidos pelo império, com apenas poucos desses membros ganhando posições de destaque e determinado reconhecimento. O único oficial dos zuavos que foi mencionado pela imprensa baiana na cobertura das festas, o capitão Barbosa, permaneceu no Asilo dos Inválidos por algum tempo, e infelizmente esse também foi o destino de vários outros veteranos que se viram de volta para casa como mutilados de guerra, ou portando diversos outros tipos de ferimentos que conseguiram durante seu serviço, não muito diferente de muitos outros veteranos da Guerra do Paraguai, igualmente desamparados pelo império.

Muitos daqueles que permaneceram na Bahia se viram com a dificuldade de se adaptar à vida civil, muitos não recebendo a pensão de guerra, ou ela sendo simplesmente insuficiente para sustentar a família. Ao longo do tempo, vários desses veteranos foram morrendo velhos e cansados, e aqueles que não morreram se viram golpeados duramente pela proclamação da república, que buscou cada vez mais fazer o Brasil à imagem e semelhança da Europa, e negar as fundações africanas de sua nação, ostracizando figuras imperiais importantes como Dom Obá II, veterano de guerra como zuavo baiano e companheiro de D. Pedro II, a quem a república retirou a sua patente de Alferes.

 

 

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One comment

  1. Precisamos contar mais essas histórias que poucos sabem para que voltemos a ter amor à pátria, já quase morto nos dias atuais por causa da má qualidade na política. Ótimo site, parabéns a todos que o fazem!

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