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Julia Ward Howe – Especial dia das Mães

Gostaria de pedir que durante a leitura deste artigo escutem esta obra: https://www.youtube.com/watch?v=Jy6AOGRsR80

Talvez se um historiador escrevesse a história das mães, provavelmente escreveria sobre um dos fenômenos mais universais da experiência humana. O que falar por exemplo da mãe de Temudjin – O Ghengis Khan- , que sofreu a mais sofrida das vidas e fez com que seu filho não quisesse submeter a si mesmo e ao seu povo, nunca jamais aquela condição de miséria e servidão. Seja por meio de fascinantes relatos como esse ou de outros, um pesquisador, ao se debruçar sobre a história das mães não só estaria se relacionando com uma parcela gigantesca das histórias individuais de todos nós como também buscando entender de que modo que a maternidade ou maternidades se inserem nas civilizações e povos em seu percurso histórico.

Ou seja, entender a história dessas mulheres, seus desafios, seus feitos e a sua influência em seus filhos é iluminar um espelho que irá refletir e preencher um salão rico em análises e novas perspectivas. Portanto, as mães são importantes historicamente.

Na história de hoje, veremos a trajetória de vida de uma mulher muito especial. Uma personalidade brilhante que se destacou em meio a multidão, uma mulher nascida em um meio neblinado pelas fumaças industriais e agitada pelas inovações tecnológicas, ideológicas e midiáticas.

Uma mulher, que nasceu 1819 e faleceu em 1910 e dessa forma, viveu quase que impecavelmente o longo século de Hobsbawn. Eu sou levado a acreditar que poucas pessoas estão repousadas em uma cronologia tão privilegiada para entender algumas das transformações tão latentes que ocorreram no século XIX e nos trouxeram para o mundo que se viveu até a primeira guerra e depois um que se vive até hoje.

Estou falando de uma mãe, poetisa, militante, compositora e intelectual norte-americana Julia Ward Howe.

Julia nasceu em Nova York, de uma família de classe média alta. Seu pai, um proeminente acionista e banqueiro tivera condições de bancar uma excelente vida para seus 7 filhos, sendo Julia a 4º mais velha.

Um grande acontecimento na vida de Julia foi quando seu irmão, ao voltar de uma viagem da Europa trouxe uma enorme coleção de livros e com a ajuda de seu pai montaram uma biblioteca particular em sua casa, nos EUA.

A biblioteca particular, diga-se de passagem é um simbolo da classe burguesa durante todo o século Vitoriano. Ao mesmo tempo simboliza a sede de dessa emergente elite assim como a nova relação da classe dominante com esse conhecimento. Onde o capitalismo, a burguesia e o liberalismo havia chegado, era muito comum encontrar esses curiosos acervos. Não obstante, nos países onde não havia um capitalismo e burguesia bem estabelecidos como no caso brasileiro, era mais comum que esse tipo de luxo se reservasse para uma aristocracia rural e outra, urbana.

Feito os devidos parêntesis, Julia adquiriu uma enorme paixão pela leitura e pela erudição tendo se tornado uma mulher letrada e inteligente, bem mais do que os padrões de sua época.

Não tardou para que Julia estivesse no interior de círculos de escritores, intelectuais, pensadores entre outras personalidades das letras e da elite pensante dos Estados Unidos.

Quanto a essa elite, muito diferente da européia, havia uma permeação bem maior de personalidade femininas. Havia na Europa, ainda um forte senso de papéis de gênero, de tal modo que as mulheres burguesas e aristocratas eram sim, educadas da melhor forma, fluentes em vários idiomas e instrumentos musicais. No entanto, a mesma fluência não poderia ser dita a respeito de sua participação na política e no ativismo midiático. As mulheres na América eram mais livres que aquelas do velho mundo.

Não obstante, o movimento sufragista e feminista terá um surgimento muito rápido no novo mundo e uma vez chegando na Europa, o abismo de direitos entre homens e mulheres era tamanho que o movimento por lá assumiu um caráter bem mais combativo que o seu irmão, do outro lado do atlântico.

De tal modo, a primeira onda de feminismo surgiu com bastante força nos Estados Unidos sobretudo relacionado ao movimento abolicionista. Um considerável número de autoras, como Sojourner Truth, Jane Addams provavelmente foram influenciadas por Julia Ward, já que esta era uma abolicionista declarada.

Julia e seu esposo tiveram seis filhos. Apesar de um casamento não muito feliz, os filhos eram uma verdadeira alegria em sua vida assim como as crianças amavam-a com grande intensidade. Julia, ao que tudo indica era uma pessoa extremamente bem humorada e uma ótima companhia em festas e eventos familiares, sendo uma ótima cantora e muito frequentemente, uma boa anfitriã.

Além de gregária, Julia também sabia apreciar seus momentos de solidão, dedicava-se em suas leituras, frequentemente escrevia ensaios e críticas aos livros mais populares na Europa. Engajou-se também na escrita editorial, publicando ensaios, textos assim, como enviando cartas que eram publicadas em jornais.

Além do seu problemático relacionamento com seu esposo, Julia tinha dentro de si uma inquietude quanto ao papel da mulher em sua sociedade, frequentemente escrevia e publicava textos vanguardistas criticando os social roles e assumindo essa militância antes mesmo de ser estruturada, Julia talvez tenha sido uma das primeiras feministas, até mesmo antes do movimento se organizar formalmente.

Enquanto isso, na década de 1850 Julia se torna definitivamente uma abolicionista e em 1860, engaja nessa luta superando algumas controvérsias geradas pela sua recente obra “viagem a Cuba”. Julia criticava constantemente e publicamente a escravidão ao dizer que era “moralmente certo que os negros fossem livres”. Como Julia vivia no norte e o movimento abolicionista já era bastante aceito por lá, Julia não enfrentou demasiados problemas por causa dessas ideias.

Claramente, é possível associar o movimento abolicionista com as primeiras feministas e tal interação de enorme importância factual, pois diz respeito à uma universalidade de pensamento estabelecida por essa intelectualidade feminina, liberal, e em boa parte burguesa.

Ainda sobre sua luta abolicionista. Julia compôs o importante hino de guerra “Battle Hymn of the Republic” após uma visita inspirada à Washington quando conheceu o então presidente Abraham Lincohn. Esse hino, se tornou uma das músicas mais populares da união durante toda a guerra civil, tendo inclusive ido as coletâneas das igrejas. (inclusive hoje aqui no brasil existem igrejas protestantes que tem esse hino como uma de suas músicas, que é muito bonito diga-se de passagem )

É evidente a influência que esse hino de batalha teve sob as mentes e as almas dos soldados da união durante a guerra e suas esposas, que esperavam impacientemente o retorno de seus homens e filhos do front. Essas mães e esposas, segundo Julia, estavam entre aquelas que mais sofriam por causa da guerra civil e cabia a elas levantar a bandeira da paz e pedir para uma solução mais rápida e menos trágica ao conflito.

Levando seu pensamento adiante, Julia abraçou a causa pacifista dentro de sua militância e escreveu seu famoso “apelo as mulheres ao redor do mundo” posteriormente conhecido como “proclamação do dia das mães” onde se manifestava completamente contrária aos horrores causados pela carnificina das duas guerras contemporâneas: A guerra civil norte-americana e a guerra franco-prussiana.

Sua sensibilidade as dificuldades enfrentadas pelas famílias dos soldados, pela vida dos escravos, e dos horrores da guerra garantiram a Julia, uma posição a frente de seu tempo. Sua contribuição para o movimento feminista pacifista é de enorme importância até hoje e seu hino consagrado, ainda permanece símbolo de liberdade, espirituosidade e da esperança de um futuro brilhante.

Julia Ward Howe

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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