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A Idade Média – A cristandade une os medievais

Iniciando no século IV,  esse período simboliza para a historiografia contemporânea um período de transição, tanto sob uma ótica positivista como uma marxista. No entanto, tentarei me aproximar aqui o melhor possível sob uma análise pós-marxista. Ou seja, a Idade Média não foi apenas um período do meio onde havia intrinsecamente uma auto-determinação para se constituir um pré-capitalismo e lançar as bases para a modernidade e por conseguinte a contemporaneidade

Bem, papo de historiador de lado, o lance é o seguinte: A idade média é um período separado da auto-determinação contemporânea, assim como todos os outros períodos não contemporâneos. Ou seja, o medievo atua com seus próprios sistemas de historicidade e caminha não para o progresso capitalista como analisado pelos cientistas sociais vitorianos ou para a universalização das monarquias absolutistas como na idade moderna. Em oposição a isso, o medievo é na verdade extremamente marcado por sua metafísica religiosa e por sua referência eterna ao glorioso passado imperial latino.

Antes de seguir, no entanto, faço dois recortes:

O recorte geográfico-político da análise do medievo para esse artigo será a Europa Centro-ocidental Cristã.

Já o Cronológico será a temporalidade clássica, do século V ao século XV.

A partir desse recorte sigo com os meus dois argumentos centrais.  Essa idade média, Europeia e Cristã se fundamenta quase que exclusivamente em dois princípios: A Cristandade e a Romanidade

Isso significa dizer, que desde o século IV, um lento porém constante processo engendrou esses dois princípios nas cabeças e nas almas do homem medieval. De tal forma, que até a idade contemporânea e até mesmo os dias de hoje, a reverência a roma e aos ideais cristãos nunca completamente foram apagados e ainda são, grandes referências para muita gente.

No entanto, essas referências que trago aqui, não devem estar ainda muito claras para você, leitor.

O Cristianismo foi uma Religião Sincrética e Universal

Primeiro, imagine uma Europa dividida, entre Pagãos Romanos e Pagãos Bárbaros. Agora, imagine uma série de invasões, migrações, misturas étnicas e tudo isso concorrentes a expansão da fé cristã, tanto da vontade de missionários e pregadores particulares como das missões patrocinadas pelos primeiros estados cristãos, tanto do oriente, como do ocidente.

Ainda no século III, já existem registros de debates entre monges bizantinos e bárbaros de muito além do rio Danúbio sobre suas respectivas religiões. Esses monges procuravam converter-los por meio do entendimento de suas crenças bárbaras, para depois transportarem os mesmos sistemas no cristianismo. Ou seja, o cristianismo desde cedo, é uma religião sincrética.

Não apenas isso, mas ao passo que monges faziam o proselitismo a torto e direita pela Europa continental e mediterrânea, surgiam em número assustador, variações novas de cristianismo: Nestorianos, Coptas, Arianos, Simonianos, Montanianos e por aí vai. A fé cristã, durante um período, tomou conta do mediterrâneo, do oriente e do norte europeu de forma avassaladora. Porém, nunca como um movimento único, sempre plural e sincrético com os sistemas de crença locais.

Talvez essa habilidade do cristianismo seja resultado do próprio meio em que surgiu. Visto que se originou na judeia, uma região bastante helenizada e sincrética. Além disso, o cristianismo, como todo culto de mistério, propõe soluções proféticas e metafísicas ao contrário do panteão Romano, por exemplo.

O cristianismo não foi inevitável

E antes que se diga que o Cristianismo foi algo inevitável, longe disso. Na mesma época que surgiu, haviam também muitos outros cultos de mistério, que também assumiam um tamanho considerável dentro das populações Latinas e Helenizadas.  O Mitraísmo, Religião de mistério de origem Persa, ganhou força no mediterrâneo Oriental, assim como outros cultos, todos concorreram e disputaram com o Cristianismo.

Ou seja, poderia ter sido o Mitraísmo e não o Cristianismo a religião dominante do ocidente até hoje.

Porém, o Cristianismo ganhou essa corrida religiosa. Porque? Essa pergunta tem várias respostas mas irei destacar aqui apenas uma delas.

O Cristianismo só se tornou difundido da forma que foi majoritariamente por um motivo: A adoção do cristianismo como Religião oficial do Império. Não foi o Mitraísmo ou o culto de Sol Invictus que ganhou o coração do Imperador Constantino. Graças a ele, o mediterrâneo iniciou o seu processo –agora irreversível- de cristianização.

No entanto, essa razão é a mais óbvia e a mais difundida. E quanto a Constantino, oque fez com que ele abraçasse o fé cristã e permitisse o livre culto dos fiéis?

Existem duas teorias que podem ser complementares, inclusive:

A primeira delas, a mais bonita  é conhecida como a epifania de Constantino ou o Sonho do Imperador.  Sobre ela, farei uma citação a um texto que tenho muito carinho:

Há muito tempo atrás, em 312 d.C., um líder romano chamado Constantino tinha de desfechar uma batalha para tornar-se imperador. Na noite anterior ao combate, contou que tivera um estranho sonho. Nesse sonho vira uma enorme cruz no céu. E na cruz estava as palavras: “Com este signo, vencerás.”

Que poderia significar isso? Constantino lembrou-se de que a cruz era o sinal de Jesus Cristo. Jesus fora morto numa cruz e muitas pessoas acreditavam que ele tinha ressuscitado. Elas haviam fundado uma religião chamada cristianismo.

Constantino decidiu levar em conta o sonho. Ordenou que seus soldados pintassem nos escudos as duas primeiras letras do nome de Cristo em grego. Portando esses escudos, eles ganharam a batalha. Constantino ficou agradecido, e fez muito para ajudar os cristãos. Deu-lhes dinheiro para construir igrejas, e mandou que seus soldados participassem de procissões. Em 320 d.C. fez do cristianismo a religião oficial.

Depois Constantino partiu de Roma para construir uma nova capital no oriente, Rumou para uma cidade banhada pelo mar Negro, chamada Bizâncio. Reconstruiu Bizâncio, transformando-a em uma bela cidade a que chamou Constantinopla, e que veio a tornar-se o centro do cristianismo. Hoje, nós a chamamos de Istambul.

Trecho do livro “Explorando o Passado”, parte da coleção Mundo da Criança oferecida pela Enciclopédia Barsa.

A segunda das teorias diz respeito a permeação de cristãos dentro da administração e das comitivas ou séquitos da nobreza Romana.

O Cristianismo, assim que surgiu, era visto com maus olhos pelos imperadores romanos e a classe Patrícia num geral, no entanto, passado o século de perseguições aos Cristãos, estes se tornaram parte de uma nova moda da aristocracia Romana. A Elite do império, ganhou cada vez mais e mais interesses nesses estranhos e formidáveis seres de uma religião misteriosa, vinda do oriente. O exotismo e a romantização desses cristãos pela elite intelectual e Patrícia de Roma, foi o início desse processo.

Com o tempo, servos cristãos eram cada vez mais frequentes dentro das Villas e dos Séquitos Romanos e inclusive, eram mais desejosos, visto que eram considerados mais dóceis que servos pagãos. Além disso, esses cristãos, ainda quando eram minoria, fizeram sua parte para propagar a sua fé como podiam, construíam igrejas, instituíam dogmas e também usavam de artimanhas políticas para ocupar cargos administrativos e burocráticos dentro do sistema imperial.

Esse processo de cristianização do funcionalismo Romano foi um processo similar ao que houve no califado Abássida, no qual os Turcos foram ganhando cada vez mais força. No entanto, ao contrário do califado, Constantino aproveitou o momento e se tornou ao mesmo tempo patrono e protetor da fé cristã, ainda no século IV. A adoção ao cristianismo, não era um problema como os turcos, pois é uma identidade religiosa e não étnica, logo, qualquer um poderia ser cristão, mas nem todos podem ser turcos. Um tempo depois, agora sob o reinado de Teodósio, o império adotara o Cristianismo como sua religião de estado por meio do Édito de Tessalônica.  Por meio deste, a cristandade agora tinha amparo e também patrocínio.

Resumindo: final das contas, o cristianismo se tornou, a religião da classe burocrática imperial e adota-lo como religião oficial teve fácil permeação entre a elite, representou uma forte aliança com os burocratas cristãos e também colocou um fim nas disputas de religião que haviam naquele conturbado período.

O Manto branco

Dado que os cristianismo foi uma religião sincrética, missionária e conseguiu ganhar o apoio de um dos mais poderosos impérios da história, estavam lançadas as bases para a sua universalidade. Universalidade essa, que conseguiu se espalhar em pouquíssimo tempo por todo o velho mundo chegando até a China, Norte da Bretanha e profundezas da Rússia. Nessas extremidades, o cristianismo não permeou certamente como religião dominante –como era no mundo romano-, mas como uma presença secundária que demonstra a aventura da fé cristã em seus primeiros séculos.

Em roxo, a extensão do cristianismo oriental

Essa presença Cristã, que se estende pelas regiões romanizadas e as não romanizadas do mundo, a ela, se denomina como Manto Branco. Esse nome é uma escolha conceitual que nos permite analisarmos supra-nacionalmente o mundo daquela época e nos permite também entender como os homens medievais entendiam seu próprio mundo. O manto branco se delimita ao mesmo tempo como os limites da fé e como espaço da comunidade dos irmãos em Cristo, onde, independente das disputas particulares, políticas e étnicas, todos ali tem o mesmo credo.

Durante os primeiros séculos do cristianismo até o Império Carolíngio, esse manto branco e essa cosmologia medieval europeia é ainda muito incerta. Apenas com o fim das guerras bizantinas e sassânidas, o surgimento do Islã e o sacro império de Carlos Magno é que a Cristandade terá limites, tanto geográficos como dogmáticos.

Antes, a cristandade era muito plural e extensa. Havia uma necessidade constante da igreja de Constantinopla organizar concílios para que se instituísse as diretrizes da fé para as outras partes do império e outras regiões cristãs. Entretanto, os concílios e a centralização teológica de Constantinopla foram pouco eficazes em unificar a fé.

O concílio de Nicéia

No entanto, com a cisão definitiva do arcebispado e Roma e com o estabelecimento de uma barreira muçulmana a oriente, a cristandade de definiu tanto a ocidente como a oriente.

O Manto Branco, antes extenso e de pouco significado, agora havia diminuído o seu tamanho e ganho forte caráter identitário, pois unia os povos cristãos Europeus frente a ameaça islâmica e ao paganismo, encorporado tanto pelos Nórdicos saqueadores como pelo frontier religioso ao leste. Dessa forma, a consciência pensante europeia se insere na sua autodeterminação de expandir sua fé e de se proteger contra as ameaças dos infiéis.

Falo de consciência pensante e me refiro automaticamente as cabeças da religiosidade romana e dos cleros locais do extinto império Carolíngio. Isso porque, o homem comum medieval não tem a mesma autodeterminação que os anteriores. Ainda sim, o clero paroquial certamente transpirava muito de suas visões de mundo para essa Comunidade medieval.

O manto cristão, tem uma consideração geopolítica enorme no mundo medieval visto que as divisões internas entre reinos, condados e ducados, eram todos subordinados de jure a realeza do Papa como representante do verdadeiro Rei -o Rei dos Reis- nosso senhor Jesus Cristo. Era dessa forma que operava o pensamento político e diplomático da elite secular e eclesiástica.

Por fim, a Cristandade, ganhou força tamanha na narrativa Medieval que assumiu caráter identitário entre os homens europeus assumindo uma identidade comum – longe de resolver as disputas locais- mas suficiente para que fossem lançadas grandes expedições da fé, como as cruzadas, por exemplo.

Esse formato de pensamento universal e de longa duração é o gancho perfeito para falarmos do segundo definidor da Idade Média: A Romanidade.

No entanto, esse tópico ficará para uma segunda PARTE.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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3 comments

  1. O erro deste artigo é que Constantino adotou o cristianismo como religião do Estado. Isto é mentira. Constantino só cessou a perseguição aos cristãos, quem adotou o cristianismo como religião do Estado foi Teodósio, o Grande mediante o Édito de Tessalónica de 380 d.C.

    • Muito obrigado pela correção, Já fiz as devidas atualizações! Espero que tenha gostado do restante do texto. Até a próxima 😀

  2. Ótimo! Excelente! Tenho uma dúvidas sobre o texto, mas sou leigo, então pode não ser typo, nem nada de mais. Como passa falar contigo ? Abraços !