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A idade Média – Roma nunca morreu

Introdução

Na primeira parte,  discutimos sobre a idade média como período histórico e lancei o desafio de encontrarmos categorias medievais para entendermos oque esse período significou para os homens daquele tempo. A partir desse desafio fiz o meu ponto que a idade média se auto-fundamente em dois elementos: um religioso e outro histórico-legitimista

Recapitulando, o recorte temporal utilizado para os textos será o clássico, do século V ao século XV enquanto o recorte geográfico se refere a Europa cristã.

No entanto, como foi discutido no artigo anterior, este recorte geográfico foi feito para enquadrar as teses que aqui levanto, uma vez que a idade média clássica se refere às regiões cristãs. Nesse sentido, ainda argumento que a idade média é muito mais um lugar espaço-tempo que apenas um tempo, que vale igualmente para as outras regiões do globo.

Apesar disso, não é necessário problematizar muito sobre isso, uma vez que eras históricas podem servir apenas como marcadores cronológicos. Além disso, uma discussão sadia é necessária para revisarmos conceitos e procurarmos formas mais eficientes de categorizarmos os processos do homem no tempo.

O passado glorioso e o presente incerto

Voltando a idade média, no artigo anterior, essa Europa –feitos os respectivos recortes- se baseava por um lado em um cristianismo capaz de unificá-la em uma comunidade espiritual e por outro, em uma necessidade de se referenciar e legitimar-se no extinto império romano, seus feitos e suas glórias.

De tal modo que, se no artigo passado nos dedicamos a explicar a cristandade, por conseguinte hoje explicaremos o segundo aspecto: a romanidade.

É de comum acordo que no século V o império romano do ocidente caiu. Partes de si foram divididas entre o ascendente império oriental e entre outros reinos bárbaros e neo-latinos. Em meio a esse declínio desenfreado, na cidade de roma renasce como uma diocese cristã protegida pelos bizantinos que será responsável pela fé cristã se espalhar com força entre as regiões à oeste do antigo império.

Ao longo dos anos, essa igreja em roma, agora munida do cristianismo e da proteção bizantina, ganhou poder e influência entre os reis bárbaros convertidos às custas dos mesmos. Até que um dia deixou de responder ao imperador em Constantinopla e se aliou aos francos com seu imperador carolíngio. Essa foi a história da ascensão e consolidação dos estados pontifícios.

Roma, agora comandada pelo papa, coordenava e orientava missões e empreitadas religiosas por toda a porção oeste do continente. As doações feitas por Carlos Magno e seus descendentes estabeleceram uma tradição secular de empoderamento da igreja e acumulação de terras e tesouros. Recursos estes que serão direcionados não só para a construção física da igreja, mas também a sua estrutura canônica, intelectual e espiritual.

Isso significa dizer que graças ao poderio da igreja ocidental, pode gozar de recursos para construir e ordenar mosteiros e nestes preservar o conhecimento dos antigos. O catolicismo nos seus primeiros séculos é uma religião que vive no passado, não porque apenas deseja, mas porque precisa buscar na glória de roma, os exemplos e as bases para estruturar a civilização.

E estruturar a civilização após o século V se mostraria uma tarefa hercúlea. As regiões da Gália, Germania e Britannia eram ainda pouco férteis, as florestas ainda difíceis de manejar e os pastos, concorridos entre tribos e senhores locais. O continente tinha uma economia pouquíssimo eficiente e tanto a pobreza quanto a fome eram leis da terra.

Para cada grão que se plantava no solo, em média 2 eram colhidos, as vezes 3, em uma temporada abençoada por deus. Um desses grãos voltava para o solo e só sobravam um ou dois terços do volume safrado para produzir o pão que se comia.

As grandes cidades romanas foram esvaziadas, seja pelo saque ou morte, mas de todos os motivos o mais proibitivo deles foi o logístico. Não havia produção local ou infraestrutura de importação para abastecer grandes contingentes populacionais de só uma vez.

Para comentar sobre isso, basta lembrar da política de importação de grãos de Roma. Uma enorme fluxo de moeda diário era gasto para manter roma em sua segurança alimentar, geralmente os grãos vinham de regiões muito férteis tendo o Vale do nilo como potência exportadora. No entanto, com a divisão do império em dois, o vale do nilo passou para o liderança oriental do império e a segurança alimentar do ocidente estava comprometida.

A insegurança devido a violência, os bandos errantes e a fome provocaram um êxodo urbano em massa e um número espantoso de comunidades se estabeleceram em vales pouco acessíveis, pântanos, bosques fechados e colinas ingrimes. Essas comunas mais tarde formarão povoados livres, cidades-estado e feudos de difícil conquista.

No entanto, nem todos aqueles que viviam sob o extinto império tiveram essa sorte. A maior parte deles ocupou os campos de fácil acesso e alguns permaneceram nas cidades, ainda que estas tivessem diminuído de tamanho.

Mentalidade, teleologia e misticismo

No Cosmos Medieval, Deus reinava sobre os céus e a morte reinava sobre a terra. Não havia nenhum duque ou rei mais poderoso que a fome e as moléstias da natureza. Talvez seja por isso que a ideia de vida eterna tenha feito tanto sentido. A vida se resume a um teste, uma provação constante, e aqueles que perseverarem no caminho do justo, terão a salvação.

E quando esses homens enfim sobreviviam e perseveravam, suas vidas eram controladas pela natureza. Seus dias, suas festas, seus humores, tudo estava associado com o movimento dos sóis as as estações do ano. Esses movimentos orientavam o horizonte de ações humano e traçavam o plano de Deus, até o fim dos dias.

Desse modo, o homem medieval era um ser muito ligado a natureza pois este dependia dela. E quando esta o castigava, a mentalidade cristã inseria este castigo como algo divino. Talvez essa mentalidade já seja religiosa, valendo de uma classificação de Frazer. No entanto, certamente ainda guarda muitos dos misticismos de tempos remotos.

Esses misticismos surgem antes do feudalismo medieval e nele se preservam e se modificam. Se antes existiam deuses que controlavam a colheita e os bosques, agora Deus estará no centro desse destino, e controlará a forma como os homens progridem no tempo, a depender de suas ações. Deus castiga e abençoa, o velho testamento judeu já deixa claro isso e da mesma maneira o homem medieval entende.

Portanto, o sistema de pensamento da época entende que não existe nada –seja bom ou ruim- que tenha sido feita por obra do acaso. Todas as ações e eventos estão enquadrados num universo divino que regula e direciona a história humana até a volta do messias.

É no passado que o medieval fundamenta seu futuro

O extinto império romano era visto como uma fonte de brilho e de glória. A nova jerusalém provavelmente teria as colunas de mármore de um panteão Latino. O maior desejo da igreja católica era construir uma civilização baseada na infraestrutura romana e na superestrutura cristã. Por isso, é de vital interesse resgatar e preservar o quanto antes o conhecimento deste império antes que esse seja perdido.

Para alcançar o seu objetivo, a igreja e as ordens monásticas copiaram manuscritos inteiros de textos em grego, latim, aramaico. Eram tratados de Aristóteles, poesia grega, tragédias, textos canônicos, enfim, todo tipo de texto que valesse a pena ser preservado para aqueles que o julgassem dessa forma.

Pode-se argumentar que não apenas o projeto civilizacional católico desejava preservar esses textos. Basta exemplificar a era de ouro da ciência islâmica, que além de traduzir inúmeros textos gregos para o árabe, também foi inovadora na matemática, astronomia e medicina.

Ao lado destes, estavam também os bizantinos ou Romanos do oriente, que apesar de preocupados com sua própria existência como reino, também foram pioneiros nas ciências e na preservação de textos.

No entanto, a parte desses dois, a intenção da igreja romana era a de civilizar as regiões por onde tinha jurisdição ideológica e por meio dessa civilidade, aumentar seu poder e levar o catolicismo ao seu último objetivo: a universalidade.

Sim, porque a cristandade católica, assim como a fé islâmica é universal e é proselítica ou seja, a fé pode existir em qualquer região e deve ser espalhada o quanto antes. Isso porque existe a ideia de “fim dos tempos” e de que todos devem conhecer a palavra de Deus/Allah antes que esse dia chegue. A teleologia Cristã/Muçulmana é causa também de seus efeitos na história.

Dessa forma, por meio da romanidade e do estudo dos antigos, a igreja não quer apenas garantir o seu presente, mas deseja também alcançar seu objetivo final de universalidade. Roma se tornou símbolo de poder, soberania, e civilização, três virtudes que serão objeto de fascínio para a civilização cristã medieval.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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One comment

  1. José Eduardo

    Não é totalmente correto seu comentário de que os grãos de Roma vinham do Egito. O império romano do ocidente e oriente só se diferenciavam na estrutura de organização administrativa, mas o comércio entre ambos os territórios se manteve. Esse é um erro grave de análise da sua parte.
    Os grãos de Roma não vinham do Egito, vinham de Cartago. Excetuando períodos de guerra civil onde o governante dessa região se rebelava contra os poderes centrais, Roma não sofreu nenhum risco sério de fome até a tomada da África ocidental pelos vândalos, período a partir do qual o fluxo de grãos ficou comprometido, e mesmo assim o influxo de grãos foi reestruturado partindo a vir então da Hispania e sul da Galia.