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A idade média colheu o que plantou

O sistema de agricultura de campo aberto era predominante na maioria dos países da Europa medieval, e era essencialmente ligada ao feudalismo. Tendo origem no modelo germânico de agricultura e distribuição de terra, praticado principalmente pelos godos antes da queda do Império Romano do Ocidente, o modelo de campo aberto não era universal na Europa: apenas os locais primariamente agrários e com uma população grande empregavam esse sistema, notavelmente o sudeste da Inglaterra, França e o Leste Europeu, enquanto outras regiões aplicavam outros sistemas agrários distintos, como era o caso da iqta na Ibéria Medieval, que era muito mais um sistema fiscal do que feudal. No sistema de campo aberto, cada pedaço de terra possuía, em média, centenas de hectares, com o modelo de vila medieval geralmente tendo aproximadamente 800 ha., por mais que houvessem variações de acordo com o país e seus senhores.

Claramente, nem toda essa terra era usada somente para a agricultura. O terreno abrigava uma variedade de funções, desde uma parte reservada para o pasto, a parte reservada para a moradia da população geral, a terra habitada pelo senhor feudal, e uma floresta reservada para a coleta de madeira e a caça. Apesar disso, a caça era uma atividade estritamente ligada à nobreza, e esse terreno geralmente se esbarrava com o terreno da casa do senhor feudal. Uma das principais características desse tipo de agricultura era, justamente, o terreno utilizado para o plantio. O nome “campo aberto” vem pelo fato de que ela não era protegida por cercas, de forma que as famílias que habitassem a localidade pudessem trabalhar coletivamente. A divisão da terra era feita por faixas, cada uma cultivada por uma família diferente, de forma que deixassem marcas no estilo crista e sulco, o que ocorre quando somente um lado da terra é arado. Nem toda terra, entretanto, era cultivada ao mesmo tempo, ou com a mesma cultura.

Cada pedaço de terreno era usado para plantar um tipo diferente. Um pedaço da terra era usado para a plantação de primavera, que geralmente era de legumes e aveia, em outro plantava-se trigo e centeio durante o outono, e um terceiro pedaço de terra era deixado intocado. Na mudança de ano, os terrenos eram então revezados. Os camponeses viviam uma vida regida pelos feriados religiosos, e como eles eram extensos durante a idade média, eles trabalhavam em dias específicos e condizentes não só com os tais feriados, mas também com as estações corretas de plantio e colheita. A maioria desses camponeses, entretanto, não possuía nenhum tipo de terra para si.

 

 

 

Pelo menos metade dos trabalhadores rurais medievais não tinham terra, e dependiam somente do trabalho para o senhor feudal na hora de ganhar o seu sustento. Uma relativa minoria possuía terra o suficiente para trabalhar e conseguir sustentar sua família. Apesar disso, tudo aquilo não era propriedade privada deles. Todo o campo era administrado pelo senhor feudal, e aquela terra foi concedida a ele pelo rei. Ocasionalmente, o senhor feudal deveria não só ficar com parte do que fora coletado em plantio, mas também em dinheiro através de impostos, e parte disso era redirecionado para a coroa. A relação entre camponês e senhor era, também, ambivalente. Um camponês não poderia simplesmente sair de sua servidão e ir para outro lugar sem ter o embasamento legal para isso, da mesma forma que um senhor feudal estava proibido de expulsar um servo de sua terra sem possuir o resguardo da lei. Ainda assim, esse tipo de coisa era possível, principalmente entre os séculos XI e XIII, mesmo com fortíssimas represálias dos senhores feudais.

Por ser um sistema altamente dependente das famílias que habitavam o local, o sistema de campo aberto contava com um apoio enorme da população geral, principalmente para que os recursos não se esgotassem, estritamente controlando a agricultura e a pecuária para que não ocorresse um desgaste total. Esse modelo, entretanto, começou a ver a sua decadência a partir do início do século XVI, com a ascensão do modelo capitalista, e a vigência do conceito de terra como mercadoria. A partir de então, houve uma transferência gradual de terrenos comunais para a propriedade privada, com o fenômeno do cercamento dos campos iniciando na Inglaterra de Elizabeth I e depois se transferindo para a França e a Alemanha. Por mais que esse sistema estivesse em processo de suplantação, ele continuou vigente até o século XX, sobrevivendo na Rússia até a política de coletivização da agricultura na década de 1930, já no regime stalinista.

Nos Países Baixos, por exemplo, existiam campos abertos que não faziam parte de nenhuma propriedade privada até essa mesma época, e na França até a década de 1950, quando ambos esses países passaram várias leis que obrigavam a posse pessoal de terras que não possuíam um dono. Em alguns lugares do Reino Unido, esse sistema, com algumas modificações, ainda prevalece em cidades do interior, principalmente onde algumas tradições agrárias e medievais prevalecem até hoje. No caso da vila de Laxton, em Nottinghamshire, a tradição local conta que a terra permanece tratada como nos tempos medievais já que dois grandes latifundiários do século XIX não conseguiram um acordo de divisão de suas próprias terras, no que resultou na perpetuação desse sistema. Realmente, um pedaço da Idade Média em plena Inglaterra contemporânea.

 

 

 

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