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Gustavo II da Suécia- o pai do combate moderno

Reinando sobre o trono sueco por vinte anos, Gustavo II foi não apenas um dos monarcas que mais deixaram marcas na história sueca, como um dos políticos e generais mais notáveis da história da Europa. Durante seu reinado, foi responsável pelas reformas políticas e campanhas militares que transformaram a Suécia em potência hegemônica no Báltico até o século seguinte.

Reinado

Quando Gustavo nasceu, em 1594, a Suécia era governada por uma união pessoal com a Polônia, sob a coroa de Sigismundo III Vasa. Graças a forte pressão causada pela maioria protestante na corte sueca, Sigismundo foi forçado a abdicar, entregando a coroa ao ramo luterano da dinastia.

Seu reinado começou em 1611, e foi marcado por uma série de reformas políticas: estabeleceu um parlamento, centralizou o sistema jurídico e tributário sueco e separou a administração civil da militar. Além disso, buscou reafirmar a presença sueca no território conquistado da Estônia, onde investiu pesadamente em escolas e universidades.

Externamente, seu reinado começou ameaçado por uma disputa dinástica com seu primo Sigismundo III, que buscava recuperar o trono sueco. A disputa culminou em 1626 na guerra polaco-sueca: guerra em que os suecos saíram vitoriosos, conseguindo para si novos territórios ao redor do báltico e o direito de parte dos lucros de diversos portos poloneses.

Desde que a Suécia ficou independente da Dinamarca que os monarcas suecos tiveram como um dos principais objetivos de suas campanhas a hegemonia sobre o Mar Báltico. E após a guerra contra a Polônia, boa parte da ambição estava atendida: boa parte da Livônia estava sob domínio sueco, além da Finlândia e toda a atual Suécia. Além disso, a Suécia já contava com o direito de exploração comercial de portos da Polônia e Lituânia, restando agora conseguir hegemonia apenas sobre o norte da Alemanha; na época parte do Sacro Império Romano.

Intervenção na Guerra dos Trinta Anos

Poucos anos após a chegada de Gustavo II ao trono sueco, uma guerra civil sangrenta que mais tarde ficaria conhecida como A Guerra dos Trinta Anos se iniciou dentro do Sacro Império Romano entre principados católicos e protestantes. Diversos príncipes protestantes pediram apoio ao rei sueco, mas o conflito nunca lhe pareceu uma grande oportunidade; até a guerra com a Polônia acabar.

A partir de 1629, a força católica, comandada principalmente pelos Habsburgos da Áustria, se encontrava prestes a vencer a guerra. O Reino da Dinamarca, que assumia a liderança da liga protestante, havia fracassado em sua campanha na Alemanha e se retirava da guerra.

O fracasso dos dinamarqueses assustou a França, que temia o rápido crescimento do poderio dos Habsburgos e não estava em condições de intervir na guerra; pois sofria de problemas internos. Para tentar deter os austríacos, o primeiro ministro francês ofereceu ao rei Gustavo II dinheiro para a Suécia intervir no conflito e trazer de volta a maré da guerra à favor dos protestantes.

Desta vez, agora que a Suécia estava livre da ameaça polonesa e altamente interessada no norte da Alemanha, Gustavo II aceitou intervir com três objetivos: impôr o luteranismo no Sacro Império Romano, derrubar a hegemonia dos Habsburgos e conquistar as províncias e principados ao norte da Alemanha.

A campanha na Alemanha e o nascimento do combate moderno.

Gustavo II desembarcou com um pequeno exército em 1630 na região da Pomerânia, ao norte da Alemanha. Chegando lá, obteve o apoio de diversos principados protestantes, além de capturar diversos portos. As primeiras semanas não tiveram grandes confrontos com os católicos, mas já foi possível ocupar boa parte do norte do Sacro Império Romano.

Durante o primeiro ano de campanha, algumas cidades estratégicas foram tomadas sem muita resistência por parte dos católicos. Seu maior inimigo nesse período não era a liga católica- que ainda tentava reunir forças para um contra-ataque, e sim a desconfiança de príncipes protestantes. Principalmente por parte de seu sogro- o Duque da Prússia, que viu sua neutralidade no conflito ameaçada.

A situação mudou quando as forças imperiais saquearam Magdeburgo- um aliado dos suecos. Apesar das perdas materiais do saque, Gustavo II fez bom uso do ataque, espalhando propaganda na Europa de como os habsburgos tratavam seus vassalos protestantes.

O primeiro grande confronto entre suecos e católicos se deu em 1631, quando a Saxônia: um principado neutro na guerra foi invadido pelas forças imperiais, ao sul, visando se aproximar do exército de Gustavo II.

Os dois exércitos se encontraram aos arredores de Breitenfeld, em 7 de setembro. Apesar do relativo equilíbrio numérico e dos dois exércitos estarem bem supridos e equipados, o lado sueco contava com uma vantagem muito grande em termos de comando: mesmo os católicos sendo liderados pelo general Johann Tserclaes, um dos oficiais mais competentes de seu tempo; a visão de Gustavo II sobre o combate estava muito afrente de seu tempo.

Até aquele momento, os generais viam as armas de fogo como sendo uma arma secundária. Elas serviam apenas para dar apoio aos piqueiros: verdadeiros protagonistas dos campos de batalha. Além disso, ainda se operava com diferentes unidades à maneira medieval: cada tipo de unidade operava separadamente, enquanto as demais aguardavam a vez em que fossem necessárias.

Gustavo II alterou por completo a lógica de combate de seu tempo. Os mosquetes; apesar de no momento serem armas lentas, imprecisas e problemáticas; eram amplamente utilizados. Ao invés de permitir com que cada soldado disparasse conforme sua capacidade, as ordens era de atirar em fileiras, disparando chuvas de chumbo contra o inimigo. O objetivo disso era derrubar a moral dos soldados católicos, já que agora tinham riscos reais de serem atingidos; e perfurar as grossas armaduras usadas pelo exército dos Habsburgos.

Outra mudança de grande impacto no exército de Gustavo II foi a utilização de armas combinadas: cada tipo de unidade era organizado no campo de batalha de forma com que pudesse auxiliar as demais, e posicionadas conforme a necessidade de proteger cada uma. Assim os campos de batalha se tornaram zonas de carnificina: o exército imperial enfrentava um inimigo capaz de atacar com várias armas ao mesmo tempo, perdendo de vez a coragem de continuar avançando.

Além disso, a mobilidade passou a ser uma das prioridades táticas de Gustavo II. A rápida locomoção permitia aos suecos reorganizar suas formações e manter distâncias seguras do inimigo muito mais rápido do que os católicos, equipados com pesadas armaduras espanholas.

A batalha de Breitenfeld ficou marcada como o nascimento do combate moderno. Graças a superioridade estratégica, os católicos saíram da batalha com menos da metade de suas forças e os protestantes voltaram a ter a vantagem na Guerra dos Trinta Anos. A partir daquele momento, os suecos passariam a avançar cada vez mais ao sul; saindo vitoriosos em quase todas as batalhas.

Gustavo II comemorando a vitória em Breitenfeld

 

A morte de Gustavo II

Após a vitória em Breitenfeld, o exército sueco seguiu em direção à Baviera: um dos reinos de maior importância para a liga católica e porta de entrada para o território pertencentes aos Habsburgos. Em novembro de 1632, ao perceber que o exército imperial estava próximo, os protestantes começaram uma perseguição, até se encontrar com os católicos em Lützen; novamente na Saxônia.

A batalha de Lützen foi travada de manhã, e uma névoa densa cobriu os campos durante quase todo o confronto. A mistura da névoa com a fumaça dos disparos fez com que Gustavo II se perdesse de seus homens enquanto liderava uma carga de cavalaria. Horas mais tarde; seu corpo foi encontrado desfigurado por buracos de bala.

Mesmo com a sua morte, os suecos continuaram lutando e derrotaram os católicos em Lützen. A sua morte não fez com que os suecos abandonassem a guerra. Pelo contrário: a ausência de um comandante forte na liga protestante fez com que a França fosse forçada a intervir no conflito, temendo novamente uma vitória por parte dos Habsburgos.

A guerra durou por mais 16 anos, sob o comando dos franceses. Em 1648, cansados de continuar lutando e sem mais esperanças de vencer, os Habsburgos aceitaram negociar com os países da liga protestante no que ficaria conhecido como “os acordos de Vestfália”. Nessas negociações, a Suécia conseguiu o que desejava: territórios no litoral norte da Alemanha.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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4 comments

  1. Bernardo Castro

    Gustavus Adolphus, Libera et Impera, Acerbus et Ingens, Augusta per Augusta

  2. muito boa a postagem. Conhece a história de Carlos XII? Ninguém esperava nada dele, mas liderou a última grande campanha militar sueca. Poderia fazer um post sobre ele…😉

  3. Chamávamos esse de “Gustavinho Fodão”. Eu lembro, estava lá.

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