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Quando a Bolívia e o Paraguai brigaram a toa

 

A Guerra do Chaco, travada entre a Bolívia e o Paraguai, foi não apenas o maior conflito da América Latina durante o século XX, como também o mais desnecessário talvez em toda a história do continente americano.

 

Antecedentes- a sina da Bolívia e Paraguai

Desde que se tornaram independentes, Bolívia e Paraguai tiveram problemas sérios para se integrar ao resto do mundo. A ausência de saídas para o mar em um período em que os grandes poderios comerciais estavam em outro continente se tornou uma grave dificuldade para os dois países, que precisavam da navegação fluvial para conseguir acessar os mares.

O primeiro a tentar criar certa hegemonia na navegação fluvial foi o Paraguai, e todos nós sabemos onde essa história foi parar: os projetos de país do Paraguai eram incompatíveis com os de seus vizinhos platinos, e isso resultou na guerra do Paraguai. A tentativa paraguaia de conseguir acesso ao mar foi um absoluto fracasso, e a guerra arrasou a economia do país. Mas, apesar das perdas territoriais e de infraestrutura, não demorou muito tempo até que o país se recuperasse do conflito e conseguisse negociar o acesso à bacia do Prata.

A Bolívia já passava por uma situação mais complicada. No século anterior ela tinha uma tinha uma saída para o pacífico e reservas de cobre próximas ao litoral. Mas graças a uma derrota militar contra o Chile, o litoral foi perdido junto com as reservas minerais mais importantes do país.

A derrota deixou Bolívia em profundo estado de crise territorial e econômica: perdeu seus portos e sua fonte de renda. Restava aos bolivianos tentar a sorte na navegação fluvial, e para isso deveria ter acesso ao chaco boreal: uma região semi árida, localizada numa fronteira mal delimitada com o Paraguai de onde poderiam navegar rumo aos portos do cone sul.

O problema é que o Paraguai já reivindicava a região. Algumas companhias de extração de petróleo já ocupavam o lugar, e o governo paraguaio já havia construído algumas ferrovias simples para transportar madeira, matéria prima comum na região. A relação entre os dois países ficou cada vez mais problemática, agravando-se ao longo das primeiras décadas do século XX.

Na década de 1930, a Bolívia encontrava-se no seu pior momento: além dos problemas do século anterior terem se tornado uma bola de neve, o país andino foi gravemente afetado pela crise econômica de 1929. O país precisava sair com urgência da crise, e novamente as reivindicações no Chaco ganharam força: não apenas a Bolívia ainda precisava dar um jeito de conseguir acesso à navegação fluvial, como foram descobertas pequenos poços de petróleo na parte ainda controlada pela Bolívia. O Chaco Boreal passou a ser visto não apenas como uma necessidade, como uma oportunidade para o país sair da crise explorando outros supostos poços de petróleo por ali.

Em 1932, em um momento de desespero, o exército boliviano invadiu o chaco paraguaio, dando início a tão esperada guerra.

 

O conflito

A esperança dos bolivianos estava na aposta sobre a vantagem numérica de seu exército e a maior capacidade econômica. Apesar da Bolívia atacar envolvida em uma crise, sua economia ainda era mais forte que a paraguaia. Por outro lado, o exército boliviano não estava totalmente modernizado. O governo havia contratado antes uma missão alemã para modernizar suas forças armadas, mas uma hora o serviço ficou caro e a missão foi cancelada.

Já os paraguaios contavam com duas grandes vantagens: sua infraestrutura, que permitia um transporte mais eficiente de sua tropa; e a moral dos seus homens, que estavam motivados e dispostos a não ceder nem um centímetro de seu território para os bolivianos. Além disso, o Paraguai contava com uma vantagem política: a política boliviana ficou caótica depois que a guerra começou. A ação precipitada do exército de atacar sem a permissão do governo repercutiu em uma série de conflitos na capital.

O avanço inicial boliviano foi um ataque agressivo, avançando o máximo possível para o interior do chaco. O objetivo era ocupar o território o quanto antes, para que pudessem forçar o Paraguai a um acordo e acabar rapidamente com a guerra. Mas a situação logo se reverteu a favor dos paraguaios.

Apesar da superioridade numérica, a infraestrutura boliviana era quase nula. Não haviam ferrovias ou hidrovias que pudessem facilitar o transporte de tropas, e suas estradas eram malfeitas e esburacadas. Já o Paraguai, apesar de ser mais pobre que a Bolívia, era um país cercado por dois grandes rios e contava com pequenas estradas de ferro ligando o país ao interior do Chaco Boreal. Isso permitiu aos paraguaios uma mobilização rápida de seu exército: mobilização que era impossível para os bolivianos conseguirem acompanhar.

Os bolivianos chegaram a um ponto em que sua superioridade numérica não servia mais pra nada. Seu exército era maior, mas demorava para chegar na linha de frente, fazendo com que o Paraguai arranjasse tempo para trazer um contingente maior do interior do país e também preparar com calma seus ataques.

Em junho de 1935, a Bolívia já se encontrava sem forças disponíveis, rendendo-se ao Paraguai.

 

Consequências

Em 1938, as negociações entre os dois países foram concluídas: ¾ do Chaco Boreal ficariam provisoriamente sob possessão paraguaia. O acordo veio a ser confirmado em 2009, já no governo de Evo Morales.

Logo depois da guerra, uma descoberta veio a tornar a guerra ainda mais trágica para a Bolívia: não apenas o país havia sofrido pesadas perdas humanas com a guerra e também perdas territoriais, como descobriu-se que as supostas reservas de petróleo no interior do Chaco Boreal não existiam. Os bolivianos haviam perdido uma guerra que não precisavam nem ter começado.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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2 comments

  1. Rômulo Catão

    Creio que o que você chama de poço de petróleo deveria chamar de reserva, poço é algo perfurado e produtivo, é posterior a constatação da reserva.