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Soldados prussianos demonstrando seus fuzis Dreyse.

O choque do antigo contra o novo- A guerra Austro-Prussiana

Antecedentes

Por séculos, a Áustria foi a potência hegemônica na Alemanha e, por um certo período, no mundo. A dinastia dos Habsburgos da Áustria foi por muito tempo a mais poderosa do planeta: governando diversos países europeus e sendo eleitos sucessivamente como imperadores do Sacro Império Romano (uma quase-confederação que correspondia mais ou menos à atual Alemanha).

Com o passar das gerações, os principados que formavam o Sacro Império romano foram obtendo cada vez mais autonomia, até que, a partir do século XVIII, um deles chegou a desafiar a hegemonia austríaca no império: o Reino da Prússia. E com a crescente rivalidade entre os dois países, a influência austríaca na Alemanha encolheu cada vez mais.

Logo no início do século XIX, a Alemanha foi conquistada por Napoleão, que dissolveu de vez o Sacro Império Romano. Visando equilibrar o poder na Alemanha, Napoleão a dividiu em três países: a Áustria e a Prússia ficariam independentes; e os demais principados formariam um novo país: a Confederação do Reno. Após as guerras napoleônicas, a Áustria, Prússia e a Confederação do Reno passaram a compor a Confederação Alemã, e a rivalidade entre os dois pela hegemonia sobre esses principados retornou.

O conflito político entre a Áustria e a Prússia acompanhou também um conflito filosófico. O nacionalismo alemão crescia rapidamente, e duas correntes competiam entre si pela proposta de unificação: a corrente da Grossdeutchland (grande Alemanha), que defendia uma unificação abrangendo todos os povos alemães, incluindo nisso a Áustria; e a Kleindeutchland (pequena Alemanha), que defendia uma unificação somente de povos de maioria alemã, deixando a Áustria de fora graças ao seu império multiétnico.

Estava claro para os prussianos que, se a Áustria fosse envolvida na unificação, haveria o sério risco dela continuar como potência hegemônica. Portanto, caberia aos prussianos a tarefa de liderar uma unificação rumo a Kleindeutschland. Mas para isso, seria necessário encontrar uma forma tanto de desprestigiar o poderio austríaco quanto de garantir com que ela não fosse aceita após a unificação. E os esforços para tornar isso possível se iniciaram.

 

O Estopim

O início do processo de unificação exigiu certa cooperação entre a Prússia e a Áustria para libertar os ducados de Schleswig e Holstein da jurisdição dinamarquesa. A primeira tentativa de liberação foi por parte da Prússia, mas que teve que sair da guerra por pressão internacional; deixando apenas uma tropa de voluntários rebeldes lutando por lá (que mais tarde, fugiram para o Brasil e serviram como mercenários na Guerra do Prata, que estará mais detalhada clicando aqui).

A segunda tentativa de libertação dos ducados foi feita por meio de uma ação conjunta entre Áustria, Prússia e outros principados alemães interessados. Desta vez a campanha foi um sucesso.

A segunda Guerra dos Ducados gerou divergências quanto a administração de Schleswig e Holstein, reivindicados tanto pela Prússia quanto pela Áustria. Visando fazer seus interesses e reafirmar sua hegemonia, os austríacos declararam guerra à Prússia junto com os principados do sul da Alemanha. Os prussianos contaram com o apoio dos principados do norte, também adeptos da ideia da Kleindeutchland.

 

A Guerra

O exército austríaco era um dos maiores exércitos europeus de seu tempo, mas era também um dos mais tradicionais. Utilizavam táticas vindas da doutrina francesa, que visavam a rápida locomoção e o disparo a longas distâncias de forma a não dar tempo e nem espaço para o inimigo disparar com calma, mas conservando a cadeia de comando tradicional, tendo como prioridade a concentração do comando nos batalhões. Mantiveram também o uso das estradas de terra como principal forma de locomoção, mas já adotando o uso das pontes móveis.

Já os prussianos desenvolveram uma nova doutrina, focada no acréscimo da taxa de disparos de sua infantaria. Além disso, passaram a utilizar os esquadrões como principal unidade em suas cadeias de comando, e utilizaram pela primeira vez as estradas de ferro para locomover grandes contingentes.

Os italianos também lutavam para se separar da Áustria e para sua unificação, criando uma segunda frente de batalha para os austríacos.

A maior e mais decisiva batalha desta guerra foi a batalha de Königgrätz, na atual República Tcheca. O choque das duas doutrinas: uma extremamente tradicional por parte dos austríacos e outra totalmente nova por parte dos prussianos; resultou em um resultado desastroso para o exército dos Habsburgos: para cada baixa no exército prussiano, os austríacos sofriam outras 45. O enorme sucesso do exército prussiano nessa batalha não se deu apenas ao novo modelo estratégico, mas também graças ao seu equipamento.

Confronto entre a infantaria prussiana e a infantaria ligeira austríaca em Könniggätz.

 

Equipamentos

O choque entre o antigo e o novo durante essa guerra não se deu apenas pela estratégia adotada pelos dois lados, mas também pelo equipamento utilizado por eles.

Os austríacos adotaram o que havia de mais tradicional na indústria de fuzis de seu tempo: o fuzil Lorenz. O Lorenz funcionava da mesma forma que quase todas as armas de seu tempo: uma carga de pólvora e a bala eram introduzidas pela boca do cano, e empurradas para o fundo com uma vara. O fundo do cano tinha um furo, onde era encaixada uma cápsula de percussão: uma pequena cápsula que, quando esmagada, explodia e dava ignição na pólvora. O gatilho servia para acionar um martelo, que esmagava essa cápsula.

Já os prussianos desenvolveram o Dreyse: um fuzil que funcionava por um novo conceito, que é utilizado até hoje: a bala era inserida junto com a pólvora e com a cápsula de percussão na culatra do fuzil, por meio de um cartucho de papel. O disparo era feito com uma agulha, que perfurava o cartucho e esmagava a cápsula de percussão. O gatilho servia para acionar o ferrolho: peça responsável por empurrar a agulha.

O Lorenz tinha uma enorme precisão para os fuzis de seu tempo, mas um soldado bem treinado levava cerca de trinta segundos para recarregar. Já a recarga do dreyse levava metade desse tempo para um soldado pouco treinado, permitindo uma taxa de disparos muito superior. Se quiser ver um vídeo mais detalhes sobre as duas armas e ver elas em ação, basta clicar aqui.

Fuzis Lorenz (acima) e Dreyse (abaixo) utilizados durante a guerra.

 

Consequências

A guerra Austro-Prussiana não apenas marcou o fim do uso das armas de antecarga (armas carregadas pela boca do cano), como criou as bases para as táticas de combate contemporâneo: marcado pelo uso de unidades menores, com mais flexibilidade no campo de batalha e mais agilidade.

Politicamente, essa batalha significou o fim da hegemonia austríaca na Alemanha, que a deixaria de fora após a unificação. A partir desse momento, a Prússia teria seu papel garantido como nação unificadora. A hegemonia austríaca sobre a Itália também foi derrubada, pois essa também saiu vitoriosa contra os Habsburgos.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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