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A Grande Guerra do Norte: quando os suecos sofreram o destino de Napoleão

A Grande Guerra do Norte foi um dos maiores conflitos da história européia. O fim do conflito marcou o fim do Império Sueco, iniciou o caos na política polonesa que mais tarde resultou no fim da Comunidade Polaco-Lituana e foi o motivo pela qual a Rússia se tornou a potência hegemônica no norte europeu. Sem mais demoras, vamos para os:

 

Antecedentes

Desde a segunda metade do século XVI, o Reino da Suécia crescia buscando se tornar a potência hegemônica no norte da Europa. Os investimentos pesados na qualidade do seu exército, as boas relações com a França e o crescente expansionismo tornaram os suecos uma nação de enorme prestígio na política européia, mas o número de inimigos do império em expansão cresceu tão rápido quanto sua influência.

Na virada do século XVII para o século XIII, a Suécia contava com o melhor exército europeu de seu tempo, uma economia forte e vastos territórios, com posses ao redor de boa parte do mar báltico. Porém, o rei tinha apenas 16 anos. Apesar do rei Carlos XII ter sido bem preparado para assumir o trono, muitos dentro da política sueca não acreditavam na sua capacidade, assim como seus vizinhos.

A falta de credibilidade no jovem monarca foi vista como uma oportunidade para as nações vizinhas se unirem contra a Suécia. A partir da coroação de Carlos XII, os países vizinhos iniciaram uma série de políticas anti-suecas, que culminaram na guerra em 1700. Os suecos teriam então de enfrentar sozinhos uma coalizão formada pela Rússia, República das Duas Nações (atuais Polônia, Lituânia e Belarus), Saxônia e Dinamarca-Noruega.

 

A Guerra

Apesar de sofrer uma certa falta de contingente causada pela falta de população sueca, o exército sueco, conhecido na Europa como Exército Carolino, já era acostumado a combates em menor número. Sua tática padrão era conhecida como Gå–På, ou “avanço”. Caminhavam em meio ao fogo inimigo até que chegassem a cerca de cinquenta metros destes, distância em que já era possível acertar um tiro de mosquete. Depois da saraivada à queima roupa, os carolinos carregavam contra o exército inimigo utilizando piques e espadas, não dando tempo para o inimigo atirar de volta e nem restabelecer a formação.

O objetivo dessa tática era causar o máximo de fatalidades possíveis na linha de frente em um período muito curto de tempo. Assim, a moral inimiga caia depressa e a batalha acabava logo, de modo que o número de perdas suecas era mínimo. Para tornar isso possível, os carolinos eram treinados de forma extremamente rigorosa e deveriam desenvolver uma forte crença religiosa, para que não tivessem medo ao marchar em direção ao fogo inimigo.

Essa tática foi primeiro utilizada para expulsar os dinamarqueses. Para que a guerra contra eles não demorasse, Carlos XII ordenou um ataque direto à capital Copenhagen. O exército estabeleceu um cerco na cidade e a marinha a bombardeou até que os dinamarqueses fossem forçados a se render.

Em seguida, o exército foi mandado à Livônia (atuais Estônia e Letônia) para expulsar a invasão russa. Os dois exércitos se chocaram na Primeira Batalha de Narva, onde Carlos XII, contando com um exército de cerca de 15 mil homens, expulsou uma força russa de mais de trinta mil, deixando a maioria dos invasores mortos ou feridos. Essa vitória levou à dissolução da primeira coalizão anti-sueca, que agora contava apenas com a Polônia-Lituânia e a Saxônia, governada por uma união pessoal com o rei da Polônia.

A campanha contra os poloneses foi outro sucesso para Carlos XII. Em poucos anos, destronou o rei Augusto II da Polônia e pôs um rei pró-suécia no trono da República das Duas Nações. Augusto II continuou resistindo por meio de suas tropas na Saxônia, mas logo foi forçado a abdicar de todas as suas pretensões na Polônia.

A guerra teria acabado ali mesmo se, durante a campanha na Polônia, os russos não tivessem iniciado novas ofensivas rumo ao báltico. Visando deter a última ameaça à soberania sueca, Carlos XII iniciou os preparativos para uma invasão ao Império Russo.

Formação da infantaria carolina. Os mosquetes disparavam ao mesmo tempo visando romper a formação inimiga. Em seguida, todos carregavam, com os piques cobrindo o avanço da tropa.

 

Campanha na Rússia

Com o fim da ameaça polonesa, restou ao rei Carlos XII lidar com um último adversário: os russos sob comando do Tsar Pedro I. O exército russo havia sofrido algumas derrotas pesadas contra os suecos até o momento, e Carlos esperava chegar rapidamente em Moscow e acabar com a guerra.

Pedro I percebeu as intenções de Carlos de invadir a Rússia quando este recusou uma proposta de acordo de paz. E não demorou para preparar uma defesa.

A Suécia, apesar de na época ser um vasto império, ainda era um país europeu. Seu exército era excelente e bem equipado, mas acostumado a marchas curtas, graças às pequenas distâncias do continente. Pedro I sabia disso, e decidiu tirar proveito quando Carlos XII iniciou sua ofensiva, penetrando o território russo pela Ucrânia.

As ordens de Pedro I foram de evacuar toda a população para o interior, levando consigo comida e suprimentos. Conforme o exército sueco avançava, os russos recuavam, deixando apenas terra arrasada em seu caminho (eu sei que você já sabe no que isso vai dar). Uma hora os suprimentos suecos foram acabando, e sentiram no estômago essa carência.

O grosso do exército carolino era formado pela cavalaria, que foi totalmente inutilizada graças a terra arrasada. A falta de comida obrigou os soldados a sacrificar os cavalos para que não morressem de fome.

Em 1709, os dois exércitos se enfrentaram na fortaleza de Poltava, na Ucrânia. A fome destruiu a moral dos carolinos antes mesmo da batalha, que sofreram pesadas fatalidades ao longo do confronto. Ao ver que a vitória seria impossível; Carlos XII fugiu com alguns homens para o Império Otomano, onde conseguiu refúgio.

 

Início do declínio sueco

Visando forçar o sultão otomano a expulsar o rei Carlos, os russos tentaram invadir o Império. A invasão foi um fracasso, e Pedro I teve de conceder algumas posses aos turcos e garantir o retorno seguro de Carlos XII de volta para a Suécia para que o confronto com os otomanos não se agravasse.

Com o retorno de Carlos ao seu país, Pedro I liderou uma nova coalizão anti-sueca. Carlos XII segurou o quanto pôde o avanço inimigo, até iniciar uma nova contra-ofensiva. Assim como na guerra contra a Primeira Coalizão, seu primeiro alvo foi o reino da Dinamarca-Noruega.

Em 1716, o império sueco invadiu a Noruega visando forçar a Dinamarca a um novo acordo de paz. Seu exército avançou em direção à cidade de Fredriksten, onde em 1718 foi estabelecido um cerco. Ao tentar invadir a cidade, um tiro atingiu Carlos XII. O mais importante comandante sueco estava morto, e seu exército teve de recuar para fora da Noruega.

Mesmo sem um rei, os suecos resistiram aos invasores na medida do possível, mas uma hora não deram mais conta. Em 1721, foram forçados a aceitar um acordo de paz, que entregava aos russos as suas posses na Livônia e no atual litoral russo, além de entregarem aos prussianos boa parte das suas posses na Alemanha.

Essa guerra marcou o início do fim do imperialismo sueco. A partir de então, a potência hegemônica no Báltico não seria mais a Suécia e sim a Rússia, que ficava cada vez mais prestigiada na política européia. Pouco menos de um século depois, Napoleão Bonaparte sofreu o mesmo destino que Carlos XII ao tentar invadir o Império Russo.

Corpo de Carlos XII sendo carregado de volta para a Suécia.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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