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Futurismo, Guerra e o Declínio do Ocidente

Realmente, o século XX nasceu na paz e na prosperidade de manjedouras douradas da Belle époque, nascimento esse que anunciava um futuro brilhante e promissor. Nesse novo mundo, política ideologia e arte se confundem e dão vez aos movimentos mais vanguardistas, ainda sendo ânsia sincrônica de seu tempo. Não há senão melhor exemplo desse devir artístico e civilizacional que o manifesto futurista italiano.

Nele, o autor anuncia um tempo marcado pelo ronco de motores, luas elétricas iluminando a noite e o ápice do gênio humano em demonstrar até mesmo o seu potencial na brutal indústria da morte. A carnificina é vista como um gesto de progresso para varrer do passado fraquezas e sujeitar os incapazes ao destino civilizador.

O futurismo acabou não sendo o movimento artístico de maior prestígio dessa época e por uma boa razão: O progresso arrastado pelas potências beligerantes da primeira guerra mal foi atingido em face à destruição e perdas humanas causadas pelo confronto. Nesse ambiente, o mal-estar e o pessimismo tomaram conta da época pela primeira vez em muito tempo.

Aqui abaixo, podemos ver o manifesto futurista italiano na íntegra do italiano Filippo Marinetti:

                              MANIFESTO FUTURISTA

Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e do destemor.

A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.

Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o “futurismo”, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários. Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

 

De certa forma, em toda potência imperialista e seus movimentos revolucionários opostos havia esta tal noção de progresso fomentado pela agressividade e pelas armas e isto é vital para o Ethos dos impérios beligerantes. De tal forma, está em paralelo com o otimismo civil e os tiros de felicidade nas ruas de Berlim, Londres e Paris, logo no início da grande Guerra.

Porém a mesma guerra durou bem mais que os curtos meses que prometera e o que seria uma breve disputa entre potências se tornara um sacrifício em escala industrial de milhões de vidas.

Sem dúvida alguma a primeira guerra foi um conflito gerado através do sistema de crises diplomáticas internacionais, presente na política europeia desde a crise de 1873 ou desde a unificação alemã. Esse sistema provisionava acordos e mediações entre potências sobre pequenos litígios e desse modo diversas crises foram evitadas pois: ou as alianças não estavam ainda interessadas na guerra ou não havia uma perspectiva certa de vitória.

Nesse sentido, há uma clara, definição de papéis: para a primeira guerra ser declarada, era, necessário que a Grã-Bretanha –Maior império da época- estivesse disposta a encerrar um século de PAX BRITANNICA e calma prosperidade. Já do lado alemão, era necessário que esta estivesse certo de sua vitória contra a Inglaterra e estivesse confiante em seus aliados.

O sistema de crises por bastante tempo resolveu as situações diplomaticamente porém quando a crise em Sarajevo explodiu, os gatilhos para um conflito generalizado foram disparados: tanto Inglaterra como Alemanha desta vez cumpriam os requisitos para o conflito.

França e Rússia também estavam ansiosas por uma guerra, visto que o revanchismo francês estava alto desde a guerra franco-prussiana e o império russo tinha pretensões claras nos balcas, o que dizia respeito diretamente ao império austríaco e turco.

 Assim, os interesses de cada país definiram claras alianças e o armamentismo silencioso das décadas anteriores finalmente possibilitou a guerra de 1914.

Dois anos mais tarde, a guerra já encontrava seu fim e as imediatas implicações foram de uma derrota geral: muito embora desastrosas para Alemanha, Áustria e império Turco, todos os impérios iniciaram seus processos de declínio, ao passo que do outro lado do atlântico, os EUA, saem da guerra de algum modo mais poderosos e influentes na balança mundial.

Para a sociedade civil e no mundo das artes no entanto, Europa e Estados Unidos estavam no mesmo barco. Os intelectuais e artistas do futurismo e da Belle époque se transformaram na tão chamada “geração perdida” e desde esta época, passou a ser anunciado não mais o progresso, porém o declínio do ocidente.

 

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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