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Especial- A Guerra Do Paraguai

A Guerra do Paraguai é o assunto preferido de muitos dos que estudam a história do Brasil. Foi o maior e um dos mais importantes conflitos tanto na história dos países platinos quanto na história do Brasil; e infelizmente é mal ensinado nas escolas (assim como todas as guerras platinas).

E por isso, no post de hoje, tentaremos explicar- da forma mais detalhada possível- as causas, os participantes diretos e indiretos, o andamento e as consequências do conflito.

Agora sem mais demoras, vamos à:

Parte I- Os antecedentes do conflito: graças ao grande número de participantes nessa guerra, cada um com seus próprios motivos para participar, cada país deve ser analisado individualmente para compreender o cenário como um todo. E para isso, vamos começar pelo:

 

Paraguai antes da guerra- uma ditadura no coração da América do Sul:

O Paraguai era definitivamente o país mais controverso da América do Sul após as guerras de independência das nações latino-americanas. Enquanto seus vizinhos seguiam um modelo econômico relativamente aberto, procurando sempre manter boas relações com parceiros comerciais e militares em potencial, o pequeno país localizado entre os rios Paraná e Paraguai optou por se isolar, mantendo-se sempre alheio a assuntos do resto do mundo.

E esse isolamento não veio à toa. Desde sua independência que o Paraguai era reivindicado pelos argentino como membro da Confederação do Prata, e o país não poderia permitir com que qualquer brecha política pudesse servir de casus belli ao governo argentino. A política paraguaia desse período lembrava a atual Coréia do Norte: ninguém entrava ou saía do país, a família López tinha poder absoluto e a população cultuava a personalidade do presidente. E a sua economia se resumia a um comércio quase que clandestino de exportação de erva-mate e algodão aos seus vizinhos.

Essa situação começou a mudar na década de 1850, durante as guerras civis no Uruguai e na Argentina que formaram a chamada Guerra do Prata (mais detalhes aqui). Durante esse conflito; o Paraguai foi oficialmente reconhecido pelo Brasil, pelos legalistas uruguaios e pelas províncias argentinas de Entre-Rios e Corrientes. Além disso, o quase-desmantelamento da Confederação do Prata debilitou e muito o expansionismo argentino, permitindo com que o Paraguai- que a esse ponto já havia investido tanto em suas forças armadas que já se tornara quase uma enorme fortaleza- baixasse a guarda e abrisse mais a sua diplomacia.

Mas mesmo após a Guerra do Prata, o Paraguai ainda tinha assuntos fronteiriços mal resolvidos com a Argentina e com o Brasil. Mas esse conflito de fronteiras não chegou a gerar problemas, pelo contrário- o filho do presidente paraguaio, Francisco Solano López, viajou pela Europa para “apresentar seu país ao mundo”, e na volta criou uma grande zona de influência no cone-sul ao atuar como mediador em muitos conflitos dentro da Argentina e do Uruguai- roubando aos poucos a zona de influência brasileira e intensificando as suas reivindicações territoriais no atual Mato Grosso do Sul.

Argentina antes da guerra- os rivais que vão com a cara um do outro:

A Argentina encontrava-se terrivelmente debilitada após a Guerra do Prata. Ao contrário do que se esperava na época, a vitória dos unitários do general Urquiza contra do ditador federalista Juan Rosas não trouxe estabilidade para o país.

Pouco depois da queda de Rosas, os conflitos entre Buenos Aires e o resto do país voltaram a ganhar força, mas desta vez com lados diferentes: Buenos Aires era governada pelos unitários sob o comando de Bartolomeu Mitre; enquanto que seus inimigos eram governados pelo partido Federalista de Urquiza- que havia trocado de partido.

Mas ao contrário do grande conflito anterior, os unitários e federalistas não eram mais inimigos mortais. Mitre e Urquiza estavam sempre dispostos a evitar a guerra, procurando sempre maneiras de negociar a solução de seus conflitos (o que, claro, nem sempre era possível).

As divergências entre os dois partidos não estavam apenas no âmbito da política interna. A política externa dos dois também divergia: enquanto os unitários tinham claramente mais simpatia pelo Brasil e pelos colorados uruguaios; os federalistas deixavam dúvidas nos diplomatas em relação a qual lado teria seu apoio, mas aparentemente pendendo mais a simpatizar com os blancos uruguaios e aos paraguaios sob o comando de Carlos Antonio López e mais tarde pelo seu filho, Francisco Solano López.

 

Uruguai antes da guerra- o conflito interminável:

Assim como na Argentina, a Guerra do Prata não cooperou para encerrar os conflitos civis no Uruguai. O pequeno país na banda oriental do Prata passou mais de 10 anos em uma guerra civil em que o partido Colorado, com apoio da lei, dominava a capital Montevidéu e os rebeldes do partido Blanco ocupavam o resto do território. Terminada a guerra, os dois partidos passaram a competir pelo poder com um golpe de Estado atrás do outro.

Os blancos acabaram por vencer na política, adotando uma política de boas relações com os federalistas argentinos e com o Paraguai- inclusive permitindo com que este utilizasse seus portos para o comércio; e ao mesmo tempo hostilizando o Brasil e os unitários argentinos.

Essas hostilidades com o Brasil culminaram em 1864 na Guerra do Uruguai; conflito em que os brasileiros, utilizando-se principalmente da marinha e da cavalaria rio grandense, atacaram o país e derrubaram o governo blanco, colocando no país o general colorado Venâncio Flores: político já conhecido por uma postura hostil ao Paraguai e amigável aos brasileiros.

O Brasil antes da guerra- de velhos amigos para novos inimigos:

A década de 1850 foi a década de ouro do Império do Brasil. As vitórias militares contra os blancos uruguaios em 1851 e contra os federalistas argentinos em 1852 serviu para elevar o prestígio do país no resto do mundo; e a economia brasileira disparava com a proibição do tráfico de escravos em 1850 e com a tarifa Alves Branco, que protegia os produtos nacionais, em 1844.

Na política, a campanha contra Rosas fez com que os antigos generais farroupilhas e legalistas se reconciliassem, juntando forças no parlamento para representar os interesses do Rio Grande do Sul- a província mais interessada pela participação brasileira nos assuntos platinos.

Mas essa união entre os militares não durou muito tempo. No início da década de 1860, os militares gaúchos se dividiram em dois grandes partidos: o Partido Liberal, liderado pelo general Marques de Souza, e o Partido Republicano Histórico, liderado pelo general Osório.

Essa divisão dentro do exército no Rio Grande do Sul se mostrou terrivelmente desastrosa durante a Guerra do Uruguai, em que as forças armadas intervieram em favor dos colorados de Venâncio Flores. Os generais do partido liberal, no geral menos experientes, recusaram-se a seguir ordens conselhos dos republicanos históricos, com mais experiência com medo de que estes fossem utilizar o resultado da guerra para suas campanhas eleitorais.

Essa fragilidade na cadeia de comando brasileira foi muito bem notada por Solano López- único general de um exército formado por quase toda a população masculina de seu país, e detentor absoluto das forças armadas paraguaias.

 

O cenário platino- A faísca no barril de pólvora

No início da década de 1860, as nações platinas já haviam formado dois blocos concretos, que só precisavam de uma justificativa para a guerra começar. De um lado; estavam os brasileiros, aliados aos unitários de Mitre na Argentina e os colorados de Flores no Uruguai. Do outro; estava o Paraguai, apoiado pelos blancos uruguaios e com uma forte expectativa de conseguir o apoio dos federalistas argentinos de Urquiza.

A justificativa apareceu em 1864, quando as hostilidades entre brasileiros e uruguaios na fronteira dos dois países culminou na Guerra do Uruguai. A vitória brasileira e colorada contra os blancos representou uma grave ameaça ao comércio paraguaio, que dependia dos portos do Uruguai. Com isso, Solano López iniciou uma série de hostilidades contra o governo e os diplomatas brasileiros, afirmando que uma agressão ao Uruguai implicaria também em uma agressão ao governo paraguaio (mesmo não havendo acordo formal entre os governos dois dois países).

 

Mapa do Cone Sul de 1860.

 

Parte II- Paraguai declara a guerra

Em dezembro de 1864, o Paraguai apreendeu o navio brasileiro Marquês de Olinda, que levava à bordo o então presidente da província do Mato Grosso. Essa apreensão serviu como uma declaração informal de guerra ao Brasil, que foi logo seguida de uma grande invasão paraguaia ao atual Mato Grosso do Sul- região pouco protegida pelo exército brasileiro e sem muito treino ou equipamento à guarda nacional.

Solano López tinha muita confiança de que poderia vencer a guerra. As décadas de isolacionismo permitiram ao Paraguai construir um vasto sistema de fortificações que tornaram o sul do país praticamente impenetrável. Além disso, seu exército contava com um enorme contingente, pois a maior parte dos homens paraguaios, por uma questão cultural; ou eram soldados ou eram servidores públicos.

Seu plano era ocupar o máximo de território brasileiro possível e conseguir o apoio dos federalistas argentinos para se conectar ao Uruguai, onde se encontravam seus aliados do Partido Blanco. López imaginava que não seria difícil fazer isso, pois além da falta de união entre os oficiais brasileiros, não era raro encontrar um simpatizante paraguaio no norte da Argentina. Muitos argentinos influentes viam o Paraguai como um aliado contra o intervencionismo brasileiro, e acreditavam ser uma boa ideia se juntar a eles na guerra.

Primeiros meses da guerra- A ofensiva paraguaia

Com ou sem o apoio argentino, López sabia da necessidade de conectar seu país ao Uruguai. E graças a demora de Urquiza para se manifestar à favor ou contra o Brasil, o presidente uruguaio optou por ocupar a província argentina de Corrientes e então seguir seu caminho até a banda oriental do Prata pelo Rio Grande do Sul.

A ocupação de Corrientes foi vista por Mitre como uma agressão, declarando guerra logo em seguida em favor do Brasil. Logo depois, o presidente uruguaio Venâncio Flores declarou apoio ao Brasil e também declarou guerra ao Paraguai.

A esse ponto, a guerra havia estagnado. O Paraguai já ocupava boa parte do Mato Grosso do Sul e toda a província Argentina de Corrientes; mas boa parte do exército que combatia ao sul estava parado em Uruguaiana, no Rio Grande.

Para prosseguir com a guerra, López precisava obter o apoio de Urquiza: governador da província argentina de Entre-Rios, que supostamente parecia pender ao lado dos paraguaios.

Para obter seu apoio, seria necessário deixar clara a possibilidade de uma vitória paraguaia. E o ditador paraguaio teve um plano ousado para demonstrar seu poder: romperia o bloqueio naval imposto pelo almirante Tamandaré no rio Paraná, abrindo caminho para os navios paraguaios até o Uruguai e conseguindo acesso para Entre-Rios.

A Batalha do Riachuelo- quando os brasileiros lutaram feito gregos

Desde o início da guerra entre Brasil e Paraguai que a armada brasileira mantinha um bloqueio naval na entrada das águas territoriais paraguaias.

Apesar de ser um país pequeno e pobre, o Paraguai contava com um poderio naval formidável para o porte do país. Além de possuir um grande navio de guerra, a armada paraguaia contava com vários navios mercantes adaptados para o combate. Mas sua principal arma nos combates fluviais era a chata paraguaia.

A chata paraguaia era um enorme pranchão de madeira com capacidade para um pequeno esquadrão de artilharia. Apesar de ser uma arma absurdamente simples, essas pranchas estavam sempre muito próximas ao nível das águas; garantindo com que seus tripulantes estivessem quase sempre fora do alcance dos canhões inimigos e tivessem os cascos dos grandes navios diretamente em sua mira.

Mesmo assim; tal poderio não era suficiente para enfrentar uma frota da armada brasileira, equipada com navios e armamento de ponta. E para reverter a situação, Solano López bolou um plano simples mas ousado: os navios paraguaios deveriam ancorar muito próximos aos navios brasileiros, para que suas tripulações roubassem os navios da armada imperial.

O plano deu bons resultados no começo da batalha, que se iniciou na manhã de 11 de julho de 1865. Alguns navios brasileiros chegaram a ser neutralizados nas primeiras horas de combate, principalmente graças ao tamanho dos navios brasileiros- a maior parte grande demais para o combate fluvial.

A situação começou a mudar no início da tarde quando o almirante Barroso, comandante da frota brasileira, percebeu que seria perda de tempo continuar lutando da forma convencional. Ao invés de insistir em apostar nas bocas de fogo, o comandante brasileiro decidiu aproveitar o tamanho e os cascos reforçados de sua nau capitânia, a fragata Amazonas, para esmagar os navios e as chatas paraguaias.

A vitória brasileira nas águas não serviu para desanimar o espírito de Solano López, mas trouxe duas consequências importantes para seus inimigos: o Brasil agora reinava absoluto nas águas da Bacia do Prata; e Urquiza finalmente tomou partido, declarando apoio ao presidente Bartolomeu Mitre. A Argentina agora estava finalmente unida na guerra contra o Paraguai.

O cerco de Uruguaiana- a parte do anime em que inimigos se juntam contra o mal comum

A invasão paraguaia ao Rio Grande do Sul não foi tão bem sucedida quanto no Mato Grosso. Pouco tempo depois de iniciar os avanços rumo ao sul, o contingente paraguaio acabou cercado na cidade brasileira de Uruguaiana, localizada na tríplice fronteira Brasil-Uruguai-Argentina.

Após a batalha do Riachuelo, todas as principais lideranças anti-paraguaias se encontraram nos arredores da cidade: os generais brasileiros Manuel Osório e David Canabarro, o almirante Tamandaré, o presidente argentino Bartolomeu Mitre, o presidente uruguaio Venâncio Flores e por fim, o governador de Entre-Rios, Justo Urquiza.

Apesar de unidos por um objetivo em comum, os diversos comandantes divergiam muito em relação a como deveria seguir aquela guerra.

O primeiro conflito era operacional- Venâncio Flores queria expulsar de uma vez os paraguaios das proximidades de seu país, e defendia um assalto direto em Uruguaiana. Já os demais generais preferiam manter o cerco até que os suprimentos paraguaios acabassem, e assim se renderiam pela fome.

O outro conflito já era um conflito estratégico: quem ficaria responsável por comandar aquela frente? Os brasileiros defendiam Osório, mas Mitre afirmava ser o mais apropriado a comandar aquele exército por ser o oficial de patente mais alta e por representar o primeiro país agredido naquela frente.

A situação mudou com a chegada quase inesperada do imperador D. Pedro II. O monarca conseguiu conciliar os comandantes, colocando Mitre na liderança do ataque mas conferindo autonomia aos oficiais brasileiros. Estabeleceu também um acordo determinando o andamento da guerra: o Tratado da Tríplice aliança.

Ainda antes do retorno do imperador ao Rio de Janeiro, a guarnição paraguaia em Uruguaiana se rendeu. Começavam então então os preparativos para uma contraofensiva ao exército de Solano López.

 

O Desembarque no Paraguai

Uma coisa que já estava clara para todos os líderes da tríplice aliança era que a guerra não tinha como acabar com a guerra sem derrubar o regime político de Solano López. Enquanto toda a política paraguaia estivesse centralizada em sua pessoa, o Paraguai continuaria agressivo e uma nova guerra seria iminente.

Sendo assim, logo após o cerco em Uruguaiana, começaram os planos para uma invasão ao território paraguaio. Mas os comandantes aliados teriam de se preparar para três grandes problemas:

O primeiro deles era o próprio exército paraguaio. Não haviam dados precisos em relação ao tamanho de seu contingente, mas todos já sabiam que López contava com um contingente formidável. E para piorar, os soldados paraguaios temiam mais as consequências da rendição do que a morte, e por isso custavam a morrer. Não era raro eles continuarem lutando mesmo já não conseguindo mais nem andar.

O segundo problema era geográfico: o Paraguai era um país desconhecido pelos vizinhos. Pouquíssimos estrangeiros já haviam conseguido entrar e sair do país. E para piorar, o pouco que se sabia da geografia paraguaia já era uma má notícia: a maior parte do território paraguaio era formado por pântanos. Além de dificultar o transporte de suprimentos e expor os soldados à doença, o terreno pantanoso tornava inútil boa parte da cavalaria- a arma dominante nas tropas da tríplice aliança.

E para piorar, havia um terceiro problema ao invadir o Paraguai: o imenso complexo de fortalezas no sul do país conhecido como “quadrilátero”, onde o ditador paraguaio se mantinha encastelado.

As fortalezas paraguaias-em especial a de Humaitá- eram muito bem construídas, equipadas com canhões de ponta e guarnecidas por milhares de homens. Não havia exército no cone sul capaz de ultrapassar suas muralhas.

Mas por ironia do destino, López apostou todas as moedas na possibilidade de uma invasão pelo rio Paraná, esquecendo de guarnecer alguns trechos do rio Paraguai. Na manhã de 16 de abril de 1866, o general Osório desembarcou com seu exército na praia de Atoja, próximo a aldeia paraguaia de Passo da Pátria. A aldeia foi tomada logo em seguida, e virou o quartel general da tríplice aliança. Dois dias depois, a tríplice aliança conquistou o forte de Itapiru: primeira fortificação paraguaia a ser ocupada.

 

Os golpes de mão paraguaios

O exército brasileiro e seus aliados fizeram uma série de avanços sob o comando de Osório e Mitre, mas ao longo do mês de maio, o ritmo do exército diminuiu e a tríplice aliança estabeleceu um enorme acampamento próximo à lagoa do Tuiuti.

Esse período de maior lentidão dos avanços e maior precaução da tríplice aliança foi marcada por dois golpes de mão realizados por López para quebrar a moral e roubar o equipamento de seus inimigos.

O golpe de mão era uma tática muito utilizada nos combates da era colonial no continente americano. Tratava-se de um ataque inesperado de um grande contingente contra um exército em situação vulnerável, como no transporte de suprimentos ou de feridos.

Esses golpes de mão resultaram no efeito oposto ao esperado. Ao invés de assustar seus inimigos, López despertou seu ódio. O cavalheirismo era um princípio quase que obrigatório entre os oficiais do cone sul, e um golpe de mão era tido como um ato covarde, um sinal de desrespeito ao inimigo e um desperdício de vidas humanas dos dois lados da guerra.

Além disso, os golpes de mão revelaram a incompetência de López enquanto comandante, graças a um erro grave cometido pelo ditador: a total negligência na hora de preservar uma reserva em seus ataques. Para a tríplice aliança, duas coisas ficaram claras: a primeira era que López não se importava em sacrificar seus soldados. Seu exército para ele não passava de um escudo humano. E a segunda coisa a ficar clara: nenhuma frente de ataque paraguaia teria reforços em suas missões. Solano atacava com tudo o que tinha, sem manter reservas.

 

A Batalha do Tuiuti- a maior batalha da América do Sul

Em maio de 1866, uma série de discussões começaram entre os comandantes da tríplice aliança acerca de como tomar a fortaleza de Humaitá. O forte era quase impenetrável, e os três exércitos não tinham soldados e nem canhões em quantidade o suficiente para um assalto em grande escala. Eis que é posta em prática a genialidade do General Osório, hoje patrono da cavalaria brasileira.

Osório percebeu que López lutava sempre pensando nas consequências políticas de seus ataques. E justamente por isso, o general brasileiro percebeu que certamente o ditador paraguaio atacaria os argentinos no dia 24 de maio- véspera do dia nacional da Argentina- para que a derrota derrubasse a imagem de Mitre em seu país e o obrigasse a capitular. E como López jogava todas as moedas nos ataques, certamente um ataque mal sucedido deixaria Humaitá desguarnecida.

E por isso, o general brasileiro ordenou que o acampamento de Tuiuti fosse fortificado até o dia 24 de maio. Trincheiras foram escavadas para a infantaria, um fosso foi escavado diante da artilharia e a cavalaria recebeu mais de 500 cavalos de combate do general Netto- melhor amigo de Osório e antigo líder farroupilha que agora defendia o império com unhas e dentes. E o mais importante- tudo isso foi feito da forma mais discreta possível, para que López pensasse que eles estivessem se preparando para atacar Humaitá, e não para se defender de mais um de seus golpes de mão.

O combate se iniciou exatamente conforme o previsto, na manhã de 24 de maio de 1866. Mais de vinte mil paraguaios atacaram o acampamento guarnecido com cerca de trinta mil soldados do Brasil, Argentina e Uruguai. O combate se estendeu pela tarde inteira inteira e no fim, muitos oficiais brasileiros foram gravemente feridos (como o próprio General Netto), mas os paraguaios saíram definitivamente na pior: perderam mais de dez mil homens entre mortos e feridos, enquanto que os brasileiros não chegavam a quatro mil.

A expectativa de Mitre e Osório era de que López capitulasse depois de tamanha derrota, como costumava acontecer nas guerras platinas. Mas o ditador permaneceu encastelado em sua fortaleza, ainda decidido a negociar somente nos seus próprios termos.

 

General Osório comandando seus homens na batalha do Tuiuti.

 

A saída de Osório e Mitre

Apesar da derrota no Tuiuti, Solano López ainda conseguiu utilizar uma arma poderosa a seu favor: o tempo.

Mesmo com o apoio de Urquiza; Mitre ainda tinha opositores fortes dentro de seu país. E graças a demora do conflito no Paraguai, muitos governadores do noroeste argentino aproveitaram para fazer sua própria rebelião, declarando guerra a Buenos Aires. Essa rebelião obrigou Mitre a se retirar do conflito no Paraguai para resolver os problemas de seu país.

Osório também enfrentava problemas graves a essa altura do conflito, e precisou abrir mão do comando. Sua saúde física já estava gravemente abalada durante o conflito, graças a sua idade e ao grande esforço em combate. Sua saúde mental também foi duramente abalada pela última batalha, onde perdeu muitos amigos próximos para tiros paraguaios.

Mas o principal motivo de sua saída da guerra era por uma questão estratégica. Osório, por mais competente que fosse, era um general de cavalaria- uma arma de pouca utilidade no terreno pantanoso. E justamente por isso que ele aceitou ser substituído pelo seu maior rival político- o Visconde de Porto Alegre- enquanto cuidava de sua saúde. Já o comando geral da tríplice entente saiu das mãos de Mitre e caiu nas mãos do Marquês de Caxias.

A passagem de Humaitá

O ano de 1867 foi um ano de poucos avanços para a tríplice aliança. O Visconde de Porto Alegre sofrera uma grande derrota contra os paraguaios, seguida de uma pequena vitória. Caxias comandou por muito pouco tempo a tríplice entente, pois logo seu lugar voltou a ser assumido por Mitre; e o marquês passou a comandar o exército no lugar de Porto Alegre.

Mesmo com Caxias no comando do exército, a situação dos aliados ainda era crítica. Uma epidemia de cólera matava milhares de soldados aliados; e o general Marquês de Caxias frequentemente discutia com o presidente argentino por acreditar que fossem imprudentes suas ordens, até que este teve de se retirar por razões políticas em 1868 e devolver o comando a Caxias.

Nesse ponto, Humaitá já era isolada pelos navios brasileiros pelos rios, mas nada havia sido feito de bem sucedido por terra para tomar o forte. Foi necessário o retorno de Caxias para que o forte pudesse ser finalmente cercado em terra e atacado sucessivamente pelo rio, finalmente capitulando em julho de 1868.

A Dezembrada

Com a queda de Humaitá, restava apenas a López fugir para o interior do país e garantir sua proteção por tempo o bastante para que pudesse negociar uma paz em que seu regime não fosse muito prejudicado. Para isso, guarneceu as fortalezas que restavam no caminho até a cidade com pouco menos de vinte mil homens- tornando quase impossível o avanço da tríplice aliança sem que sofressem milhares de mortes no caminho.

E buscando contornar as fortificações paraguaias, Caxias tomou uma decisão inesperada: decidiu chegar até Assunção pelos pântanos do norte do país, uma região quase intransponível para grandes contingentes.

Enquanto Caxias preparava o plano de ataque, Osório (que já se preparava para retornar à guerra) realizava uma grande campanha de recrutamentos no Rio Grande do Sul. Quando as operações começaram, em 5 de dezembro de 1868, o exército brasileiro já contava com mais de vinte mil homens- formados principalmente por escravos com a promessa de alforria para substituir seus “donos” e pelos voluntários de Osório- para a invasão rumo a capital paraguaia.

Diversas batalhas ocorreram durante essa campanha, que ficou conhecida como dezembrada, mas duas ficaram marcadas especialmente na memória dos soldados brasileiros- a batalha do Itororó e a batalha do Avaí.

A batalha do Itororó foi a primeira batalha travada na campanha e ficou marcada por um grande feito do Marquês de Caxias. Itororó era um rio profundo que só era possível para o exército atravessar por uma ponte duramente protegida pelos paraguaios. Após sucessivas tentativas fracassadas de travessia por parte de Osório; Caxias decidiu tomar uma iniciativa drástica: levantou sua espada, berrou “Sigam-me aqueles que forem brasileiros” e cavalgou em direção aos paraguaios do outro lado da ponte. O brado de Caxias levantou a moral da tropa, que o acompanhou no confronto ao inimigo. Os paraguaios sofreram duras baixas nessa última tentativa, e foram forçados a entregar a ponte aos brasileiros e recuar.

Logo depois dessa batalha, o contingente paraguaio foi perseguido, até finalmente se confrontar novamente com os brasileiros na Batalha do Avaí. Essa batalha já ficou conhecida por um grande feito de Osório, que assumiu a frente de sua cavalaria mesmo sendo atingido por um tiro de fuzil em seu maxilar. Novamente, a bravura do comandante garantiu a vitória aos brasileiros.

No natal do mesmo ano, o exército brasileiro já estava próximo de Assunção, e um emissário foi enviado para oferecer uma oportunidade de rendição ao ditador Solano López. Mas o emissário não teve resposta. No primeiro dia de janeiro de 1869, Assunção foi ocupada pelos brasileiros mas já totalmente evacuada por López, que fugiu para o norte do país.

 

A Batalha do Avaí, por Pedro Américo.

A busca por Solano López- a última campanha

Duas semanas depois da tomada de Assunção, Caxias teve de se retirar da guerra. A idade já afetava sua saúde, e o velho marechal de campo já não tinha condições de permanecer em batalha. Em seu lugar, assumiu o comando do exército Gastão de Orleans, o Conde D’eu, genro de D. Pedro II.

A saída de Caxias fez com que muitos voluntários dessem a guerra por terminada e voltassem para cara. Dos soldados que sobraram, poucos eram membros do corpo de Voluntários da Pátria. A imensa maioria era de escravos que aguardavam o fim do conflito para que pudessem receber suas cartas de alforria.

E foi com esse exército que Gastão de Orleans marchou ao norte, buscando finalmente capturar Solano López e dar um fim definitivo ao conflito.

A esse ponto, López não contava mais com uma força militar minimamente aceitável. O ditador forçou o recrutamento de velhos, crianças e feridos para combater os brasileiros. Até a tomada de Assunção, Solano López contava com um exército que era usado de escudo humano. Agora tinha um escudo humano que chamava de exército, e o usava como distração para fugir dos brasileiros.

Em 1º de março de 1870, López finalmente foi alcançado pelo Conde D’eu em Cerro Corá. Os soldados brasileiros não tiveram dificuldade para o reconhecer, pois era o único gordo em um exército de famintos. No meio do combate, uma lança arremessada pelo cabo José Francisco Lacerda- lanceiro brasileiro conhecido como “Chico Diabo”- o atingiu na perna, derrubando-o de seu cavalo.

Terminado o confronto, o ditador paraguaio encontrou-se cercado de soldados brasileiros sob o comando do general José Antônio Correia da Câmara. López recebeu uma última oferta de capitulação, que foi negada por um berro de “Morro por minha pátria!”. Solano então avançou com sua espada em direção ao general Câmara, mas foi impedido por um tiro de fuzil. A guerra estava finalmente acabada.

 

As consequências da guerra

A guerra do Paraguai ficou na história como a mais sangrenta da história da América do Sul, deixando um saldo total de quase quatrocentas mil mortes se somados os dois lados do conflito. O Paraguai, que já era um país pequeno e pobre, perdeu grandes porções de terra ao sul e leste de seu território- terras que já a muito tempo eram motivo de empasses diplomáticos com o Brasil e a Argentina.

Mas as principais consequências da guerra foram as consequências políticas. No Paraguai, estava finalmente extinta a ditadura da família López, e finalmente o país largou o isolacionismo quase aos moldes da atual Coréia do Norte e se abriu ao mundo.

Já no Brasil, uma instituição saiu gravemente ameaçada da guerra: a escravidão. Nos últimas anos do conflito, muitos brasileiros foram chamados a lutar em uma campanha de alistamento obrigatório. Para escapar da guerra, mandaram seus escravos no lugar. Desde o período colonial que era comum os donos de escravos mandarem seus escravos para a guerra em seu lugar, e estes geralmente lutavam com a promessa de receber alforria depois que a paz fosse restaurada.

Durante a guerra do Paraguai, esses escravos combatentes tiveram uma intensa convivência com os oficiais brasileiros, que passaram a defender a bandeira do abolicionismo. Terminada a guerra, a causa abolicionista no Brasil estava mais forte do que nunca.

E não se deve deixar passar também os efeitos da guerra nas principais lideranças políticas brasileiras, especialmente D. Pedro II. O imperador, que chegou a acompanhar a guerra pessoalmente durante o cerco de Uruguaiana, saiu abalado do conflito. A propaganda paraguaia comparando os soldados brasileiros a macacos o deixou terrivelmente ofendido, e o próprio estresse político causado pela guerra resultou no seu envelhecimento precoce.

O monarca brasileiro sofreu uma mudança profunda não apenas na aparência mas também de comportamento após a queda de Solano López. Passou a se dedicar mais a sua vida pessoal- quase inexistente graças aos seus deveres enquanto imperador- e a se aproximar mais da população.

Parte III- Curiosidades, esclarecimentos e mitos

 

Os exércitos da Tríplice Aliança e do Paraguai- vantagens e fraquezas

Algo que foi muito solicitado pelos seguidores ao anunciar esse especial foi que fosse explicado acerca do contingente e táticas dos dois exércitos. E por isso, farei um breve resumo da situação dos dois exércitos no início e primeiros anos do conflito:

 

1- Exército paraguaio:

Desde sua declaração de independência que o Paraguai se dedicou à criação de um forte aparato militar para conseguir resistir no caso de uma invasão argentina. E para isso, Carlos Antonio López construiu um vasto sistema de fortalezas entre a fronteira sul do país e Assunção, tornando o país quase impenetrável. E essas fortalezas eram protegidas por um vasto número de soldados, o que era possível naquele país de baixa densidade populacional graças a cultura guarani.

Na sociedade guaranítica, os homens eram encarregados pela guerra enquanto as mulheres eram encarregadas do trabalho. Isso possibilitou à família López recrutar quase toda a população masculina paraguaia em seu exército. Além disso, os soldados paraguaios eram ensinados desde pequenos a não se render, e duramente punidos pelo seu ditador na menor demonstração de covardia. Por isso, lutavam sempre até o fim, resistindo em combate até mesmo quando não tivessem mais lâminas ou munição.

Por outro lado, o exército paraguaio carecia de generais. O único general no país era o presidente Solano López, que não permitia a existência de nenhum opositor nas forças armadas. Isso prejudicava a unidade do exército paraguaio, pois um só general não dava conta de comandar uma tropa tão grande por conta própria.

A inconsistência tecnológica também era um problema sério no exército paraguaio. Enquanto que o exército brasileiro passava por um processo de modernização desde 1850, os paraguaios contavam desde armamento de ponta até mosquetes de pederneira das guerras napoleônicas.

2- Exército da Tríplice Aliança

Os problemas da Tríplice Aliança eram praticamente opostos aos problemas do exército paraguaio. Ao contrário do exército de López, o exército aliado chegava a ter um excesso de generais, e quase todos eles eram rivais envolvidos até o pescoço com a política de suas províncias.

O contingente brasileiro também era problemático. Enquanto que no Paraguai era fácil para López encontrar um voluntário para sua guerra; no Brasil a onda de patriotismo gerada pela agressão do vizinho durou pouco. O Corpo de Voluntários da Pátria começou como uma campanha de sucesso para reforçar o exército brasileiro, mas em pouco tempo perdeu o prestígio e se transformou em um exército de escravos aguardando a alforria.

Por outro lado, quase todos os generais da Tríplice Aliança eram combatentes experientes, já veteranos e diversas guerras. O General Osório, por exemplo, já combatia desde adolescente na guerra de independência brasileira. Já o Paraguai entrava em guerra pela primeira vez na sua história.

O equipamento brasileiro também era muito superior ao paraguaio. Quando a guerra começou, todos os soldados brasileiros já estavam equipados com fuzis de espoletas com a alma raiada comprados da Bélgica, Inglaterra e Estados Unidos- muito mais confiáveis e precisos do que os mosquetes utilizados na década anterior e ainda presentes em alguns pelotões paraguaios. A marinha brasileira também trabalhava com equipamento de ponta, utilizando navios com reforço de aço em seus cascos e inaugurando na américa latina o uso dos monitores- navios de cascos baixos totalmente blindados, utilizados pela marinha da União durante a guerra civil americana e a esse ponto já fabricados no Brasil, nos estaleiros de Mauá.

Carabina Spencer- arma de repetição americana amplamente utilizada pela cavalaria brasileira

O mito da “potência paraguaia” e da intervenção inglesa

Tenho absoluta certeza de que quase todos os que estiverem lendo isso já devem ter ouvido nas escolas a versão da Guerra do Paraguai que diz que o Paraguai era um país em rápido desenvolvimento industrial durante o século XIX e que, temendo o surgimento de um concorrente, o governo britânico teria investido no exército brasileiro para que este prolongasse a guerra e destruísse a economia paraguaia.

Mas se você leu tudo até aqui, com certeza já deve ter percebido que essa história não é verdade. O comércio paraguaio era muito fraco antes da guerra, exportando apenas erva-mate e matérias primas. Seu produto interno bruto anual chegava a ser menor que o do Uruguai- país mais pobre da Tríplice Aliança.

A Inglaterra não apenas não se sentia ameaçada pelo Paraguai, como via a guerra com maus olhos, pois mantinha alguns acordos comerciais com o pequeno país. Além de serem os principais importadores do algodão paraguaio, que era utilizado para alimentar a indústria têxtil do país, os britânicos estavam se preparando antes da guerra para entregar uma encomenda de navíos de guerra feita por Solano López- encomenda que não pôde ser entregue graças ao bloqueio naval brasileiro.

Segundo Lilia Schwarcz, essa versão da história da guerra do Paraguai que trata o conflito como uma enorme guerra por procuração feita pelos britânicos nunca foi comprovada empiricamente. Trata-se de uma análise historiográfica feita por historiadores dos anos 60 e 70, com mais preocupação de legitimar suas pautas políticas do que em retratar de fato a história do conflito.

A verdade é que ninguém sabe explicar exatamente qual foi o motivo do prolongamento da guerra. Alguns historiadores jogam a culpa em Solano López por, mesmo com diversas propostas de capitulação, permaneceu optando por lutar. Outros associam a demora para o fim do conflito à D. Pedro II, que se sentiu profundamente ofendido com a propaganda paraguaia comparando os soldados brasileiros a macacos, e teria exigido que o conflito fosse levado adiante até que López respondesse por tamanha ofensa.

 

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About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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