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E se Colombo estivesse Certo?

Cristóvão Colombo, o navegador e cartógrafo italiano foi talvez uma das mais icônicas figuras para um fenômeno que nós ocidentais chamamos de “Grandes Navegações”. Colombo, em seu esforço intelectual, propunha as seguintes teses:

A Primeira dizia que a terra era redonda;

A Segunda dizia que se uma tripulação navegasse em direção Oeste, chegaria diretamente nas índias Orientais.

Desde algumas décadas após as as primeiras viagens de Colombo que ficou conhecido que aquele continente encontrado à Oeste se tratava de um outro: O Continente Americano.

No entanto, como seria o mundo se o continente americano não existisse, e a rota para as índias orientais fosse a mesma como concebida pelo navegador italiano?

No seguinte cenário, a geografia da terra seria mais ou menos assim:

A distância entre o extremo oriente e a Europa Ocidental seria aproximadamente o mesmo do atual continente americano. Isso significaria também que o tamanho do globo terrestre seria drasticamente reduzido, implicando na mudança das forças gravitacionais entre outras alterações ecológicas.

No entanto, o objetivo deste raciocínio se volta apenas para um cenário de história alternativa, isto é, de que maneiras os agentes históricos atuariam caso alguns cenários diversos fossem considerados.

Portanto, vamos então as consequências históricas desta mudança, de forma cronológica:

Os outros grandes navegadores

Muito Antes da época de Colombo, já haviam civilizações especializadas na navegação. Com a proximidade elevada do continente asiático da Europa, a possibilidade do contato desses povos com os orientais se torna elevada.

Além disso, apesar dos poucos registros, alguns indícios arqueológicos na África e Península Ibérica levam a crer que as civilizações fenícia e cartaginense levaram suas expedições para além do Gibraltar, navegando pela costa da África e atingindo talvez algumas ilhas do atlântico. -em 2008, esse grupo de entusiastas até construiu um típico navio fenício com a intenção de circunavegar a África, algo que aparentemente este povo conseguiu milênios atrás-

Caso Cartago ou os fenícios não houvessem estabelecido uma lucrativa rota com o oriente ainda em seus tempos de glória, certamente sua queda teria ocorrido graças ao poderio e a expansão da jovem república romana.

Tanto as embarcação fenícia como a escandinava são fortes candidatas para a exploração atlântica

Com a hegemonia romana do mediterrâneo alcançada e a sua acumulação de poder e riquezas talvez ainda restasse a opção de uma expansão marítima romana, no entanto, essa talvez seja uma das mais fracas possibilidades. A razão disso certamente está no lucrativo negócio romano de escravos, adquiridos por meio da conquista das províncias europeias, africanas e do médio oriente. Desse modo, seria pouco provável que os romanos tivessem algum forte interesse em seguir carreira como navegadores –Ofício esse que em boa parte das vezes, terceirizavam-

Apesar desses fracos indícios, é possível que um contato inter-atlântico tivesse acontecido, porém vindo do outro lado. O palpite nesse caso é de que talvez alguns navegadores dos grandes navios da era Han e Tang Chinesa houvessem seguido o caminho pelos arquipélagos da Indonésia até chegar na costa africana. Talvez a idade média ou quem sabe a antiguidade tivesse observado o florescimento de um comércio Asia-Europa muito cedo. O impacto de tal intercâmbio poderia ter consequências interessantíssimas para o desenvolvimento da história humana.

Sobre tal intercâmbio, eu sugiro que entre os finais da dinastia Han e o início da Tang, poderiam ter acontecido dois grandes acontecimentos: O primeiro seriam as invasões Nórdicas na Ásia e o segundo se refere ao provável desenvolvimento de um centro comercial oceânico bastante parecido com o índico.

Sobre o primeiro, é de comum acordo que os escandinavos chegaram em algum ponto nas Américas. Porém, em nossa linha do tempo alternativa a América seria substituída pela Ásia. Logo, se as mesmas condições para o desenvolvimento da perícia marítima nórdica fossem preservadas, é possível que houvesse a chegada de tal povo na região nordeste do continente.

Minha especulação é de que, chegando na península de Kamchatka, os nórdicos teriam duas opções: se avizinhar com os nativos asiáticos e talvez colonizar a região ou então encontrar dificuldades logísticas e abandonar futuras expedições. Acho mais provável o primeiro cenário, no entanto, se por acaso os nórdicos tivessem chegado mais ao sul, conhecendo a civilização japonesa ou até mesmo Coreana, talvez as coisas seriam diferentes.

Uma vez tendo conhecimento de terras ricas e cheias de mercadorias, talvez isso estimulasse uma emigração ou até mesmo a pilhagem de certas regiões desprotegidas. O problema para isso no entanto, seriam as dificuldades logísticas para tanto. Seria muito pouco provável que os nórdicos estabelecessem uma presença na ásia maior que algumas expedições por lá. No final das contas, continuar pilhando e negociando com o continente europeu seria bem mais plausível.

Agora se voltarmos nossa atenção mais uma vez ao extremo oriente, talvez de lá sejam possíveis expedições de peso rumo a península ibérica e costa da África. Nesse caso, o palpite é de que navegadores chineses em algum momento chegariam à costa Africana e talvez européia, fazendo contato com os povos e levando ao estreitamento das relações intercontinentais.

 

Oceano Atlântico: o novo índico

Tendo os Chineses chegado à Europa Ocidental, seria uma questão de tempo até que mercadores, navegadores e exploradores Árabes partissem de suas bases no Marrocos e Andaluzia para estabelecer novas rotas de comércio.

De tal maneira, os Chineses são canditos à primeiros exploradores, porém dificilmente seriam povos conquistadores ou muito inclinados para o comércio marítimo como foram nas rotas históricas entre os Mares vermelho e pérsico e as ricas índias orientais.

De tal maneira, a expansão territorial do islã contemplaria também sua quase que hegemonia sobre todas as rotas asiáticas, tanto à ocidente quanto à oriente.

Além disso, a abertura de rotas diretas entre o leste asiático e o oeste afro-europeu significaria também o florescimento de cidades mercantis de grande importância em suas respectivas costas. Talvez fosse este o momento de surgimento de uma veneza africana ou uma gênova ibérica.

Caso fosse esse o cenário, então os muçulmanos –caso fossem controlados por um grande califa-  controlariam um enorme fluxo de riqueza e um análogo de um império Otomano nunca teria decaído da forma de decaiu.

De todo jeito, a medida que as sociedades atlânticas se desenvolvessem, o oceano se transformaria cada vez mais com o que foi o índico durante milênios de história: um enorme caldeirão que misturava culturas, religiões e sobretudo mercadorias.

 

Rotas comerciais do Oceano índico
As viagens exploratórias do Célebre Zheng He, coincidentemente muito similares com as rotas de comércio já existentes.

Os Europeus: uma luta pela sobrevivência

Não satisfeitos com sua posição desprivilegiada e seus inúmeros conflitos políticos e religiosos, os Europeus do medievo e da idade moderna desse mundo buscariam formas mais rebuscadas para sobreviverem.

A primeira solução seriam as guerras santas, desta vez voltadas também para o controle das rotas com a Ásia. Nesse sentido, a conquista e cristianização da península ibérica e do marrocos seriam de vital importância. Uma vez assegurado o estreito de Gibraltar, o importante portão para o leste asiático seria fechado.

Caso os Árabes ainda permanecessem na região, os europeus teriam de colonizar regiões mais favoráveis e assegurar entrepostos  para o comércio com China, Índia e Japão. No caso, Oceania e Nordeste asiático seriam as melhores opções para colonização e entrada dos interesses europeus.

Paralelamente, é bem provável que a ascensão do império mongol continuasse a mesma pois como foi dito, as explorações chinesas teriam um maior impacto para árabes e cristãos, uma vez que a China é quase sempre uma nação auto-suficiente e centrada em si-mesma –Não é a toa que se intitulam “império do Meio”-

A continuidade das invasões mongóis e anterior à estas, dos turcos, nos leva a crer que o mundo Árabe mesmo com sua explosão de prosperidade, ainda enfrentaria grandes desafios, oque seria uma oportunidade para os cristãos europeus.

De todo modo, ou os europeus asseguram as rotas de comércio ou provavelmente se encontrariam em uma pobreza extrema. Além disso, a não existência das Américas significa que não haveria a emergência de grandes impérios coloniais e nem mesmo a acumulação primitiva de capital. Consequentemente, a revolução industrial e o enriquecimento dos impérios absolutistas seriam algo de uma realidade paralela, no caso, a nossa.

 

Um fim para a nossa história

Se Colombo estivesse certo, muitas coisas estariam diferentes do mundo atual. Entretanto, a mais importante delas e talvez a que seja tema central do texto:

O desenvolvimento do processo de globalização iniciado pelas grandes navegações europeias e a inserção do continente europeu como centro de poder global certamente seriam pouco prováveis. O cenário mais plausível no final das contas seria um mundo onde a Europa nunca alcançaria hegemonia global e o eixo de poder mundial estivesse petrificado entre Constantinopla e Beijing.

O continente americano teve um papel muito importante para a emergência dos impérios coloniais e certamente lhes deu o dinamismo e independência não apenas para conter o avanço turco, como também de acumular capital para manutenção de impérios e futuramente de processos de industrialização.

Sem o continente americano, sem dúvida alguma haveria a esplêndida riqueza gerada pelas jazidas de outro e prata do império espanhol nem mesmo o lucrativo tráfico de escravos do atlântico.

Sem o alavancamento do poderio europeu,  as grandes transformações e revoluções geradas pela idade moderna talvez nunca tenham acontecido. O desenvolvimento da Indústria, do capitalismo e da ciência moderna talvez fossem protagonizados por Chineses e Árabes e certamente em ritmos distintos.

 

 

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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