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Desmistificando a Guerra dos Trinta Anos

Já falei algumas vezes aqui na página sobre a Guerra dos Trinta Anos. Tanto no seu contexto mais geral, em uma das primeiras postagens aqui do site, quanto de um contexto mais específico ao falar do Império Sueco e do reinado de Gustavo II.

Mas não é raro eu encontrar fontes que cometem erros ao tratar do conflito, e por isso eu vou falar um pouco deles hoje.

 

Mito nº 1- Foi uma guerra estritamente religiosa: já vi muita gente falando esse tipo de coisa, sendo que essa afirmação não é verdadeira. Sim, a religião teve um papel marcante na Guerra dos Trinta Anos, mas não foi ela o seu principal fator. A principal causa da guerra foi o desejo de autonomia por parte dos príncipes do norte do Sacro Império Romano, e esses príncipes viam no protestantismo uma forma de legitimar sua causa. Portanto a religião não foi exatamente a causa, e sim uma desculpa para a guerra começar.

 

Mito nº 2- Foi uma guerra sem vencedores: o que passa na mente da maioria das pessoas que pensam nesse conflito, principalmente para quem estuda Direito ou Relações Internacionais, é o fim dele: a paz de Vestfália.

Em resumo, a Paz de Vestfália foi a conferência de paz que deu fim à guerra, e é considerado um marco histórico no surgimento do Direito Internacional Público. O motivo disso é simples: foi a primeira vez que representantes de quase todas as potências europeias se juntaram para encerrar uma guerra por meio da diplomacia.

A paz negociada leva muitas pessoas a cometer o erro de pensar que ninguém saiu ganhando ou perdendo com o conflito. Mas o que realmente aconteceu foi que a Liga Protestante e a França conseguiram alcançar seu principal objetivo com aquela guerra: reduzir consideravelmente o poder do imperador, e enfraquecer a dinastia dos Habsburgos.

A guerra dos trinta anos foi sem dúvida alguma uma derrota para os países católicos. Os Habsburgos, além de serem forçados a se submeter a uma espécie de parlamento dentro do Sacro Império Romano; perderam seu status de dinastia hegemônica na Europa, agora substituídos pelos Bourbon da França.

 

Mito nº 3- Não houveram países que se beneficiaram fora do conflito: se engana quem pensa que o único problema para os Habsburgos nesse período foi a guerra dentro do Sacro Império Romano, ou que os únicos países a se beneficiar com a guerra foram os que se envolveram diretamente no conflito ao lado dos vencedores.

A Guerra dos Trinta Anos não significou uma vitória apenas para a liga protestante e seus aliados, mas também para dois outros países que viram no conflito uma oportunidade para se libertar dos Habsburgos: Portugal e os Países Baixos.

Os Países Baixos tentavam sua independência já há muitas décadas antes da Guerra dos Trinta Anos começar, e aproveitaram as negociações em Westfália para negociar, com sucesso, sua separação. Já Portugal aproveitou o conflito para declarar sua guerra de independência contra a Espanha- independência que foi alcançada quase trinta anos depois.

Mito nº 4- Não houveram grandes inovações na guerra além da Paz de Vestfália: a Paz de Vestfália foi definitivamente a principal inovação resultante da Guerra dos Trinta Anos por ter alterado para sempre a forma como se faz a diplomacia, mas também não foi a única grande inovação. A Guerra dos Trinta Anos também foi um divisor de armas na forma como se faz a guerra.

O período sueco da Guerra dos Trinta Anos enterrou o modelo de combate medieval, em que cada arma (infantaria, artilharia e cavalaria) era utilizada de forma independente e o grande protagonista do campo de batalha era o piqueiro equipado com grossas armaduras.

A partir dessa guerra, as três principais armas do campo de batalha passaram a ser utilizadas de forma conjunta, com uma fornecendo apoio às outras. Além disso, a mobilidade e o poder de fogo da tropa passaram a ser o medidor de forças em combate no lugar da qualidade das armaduras e do tamanho das lâminas. O mosqueteiro deixou de ser uma unidade de apoio e se tornou a unidade de infantaria mais importante de seu tempo.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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One comment

  1. informações muito bem escritas, site bem legal, obrigado!