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Desmistificando a Primeira Guerra Mundial

Ah, a Primeira Guerra Mundial, quando aquele bosníaco que não batia muito bem da cabeça matou o arquiduque da Áustria e mais alguns milhões de pessoas ao longo de quatro anos. Pois bem, camaradas; o artigo de hoje é justamente para desmistificar algumas lendas da guerra que deveria acabar com todas as guerras. Porém, como eu sei que se entrar nas questões políticas relacionadas à guerra vai ter gente se digladiando nos comentários, tentarei focar o artigo de hoje em questões mais técnicas, voltadas mais para a guerra em si do que ao cenário por trás dela. Agora vamos ao:

Mito nº 1- A Primeira Guerra Mundial foi a guerra mais sangrenta que já aconteceu até aquele momento: A 1ªGM de fato foi uma das mais violentas, mas em termos de número de vítimas, ela é cheia de competidores. Alguns exemplos disso são a Rebelião de TaiPing na China, entre 1851 e 1864, que deixou um saldo de 30 milhões a 50 milhões de mortos, contra os 17 milhões da 1ªGM. Em proporção de mortos a 1ª GM também não foi a mais sangrenta: a guerra da Crimeia, ocorrida entre 1853 e 1856, deixou cerca de 20% dos combatentes mortos, enquanto que na 1ªGM a porcentagem total de mortos entre combatentes foi de 13%.

Mito nº 2- Os soldados viviam nas trincheiras: as trincheiras foram o palco principal de quase todas as frentes durante a Primeira Guerra Mundial, mas elas não guardavam exércitos inteiros. Geralmente, as fronteiras eram preenchidas somente com o número necessário de soldados para sua proteção, ficando o resto dos soldado atrás, cumprindo outras tarefas. Além disso, os oficiais sabiam que proteger uma trincheira era uma tarefa perigosa e exaustiva, e que a moral dos soldados caía rapidamente se ficassem muito tempo lá dentro. Por isso, alternavam os postos entre os soldados, permitindo com que, por exemplo, cada soldado britânico passasse apenas 3 dias de cada mês entrincheirados.

Mito nº 3- Não haviam negociações e nem tréguas entre os dois lados da guerra: não é difícil imaginar que a matança durante a guerra era sempre contínua, e que os oficiais de um lado jamais cooperariam com os do lado inimigo. Mas isso não era verdade. Nos primeiros anos da guerra, era comum os oficiais negociarem ordens de cessar fogo após os confrontos para que os soldados pudessem recolher seus cadáveres. Algumas tréguas ficaram até famosas, como no natal de 1914, quando britânicos e alemães cessaram durante o dia inteiro os disparos das armas e muitos soldados dos dois lados se cumprimentaram na terra de ninguém. Existem lendas de que chegaram a haver jogos de futebol entre eles nesse dia, mas isso nunca foi comprovado.

Metralhadora francesa “Chauchat”

Mito nº 4- Armas automáticas e semiautomáticas dominaram pela primeira vez o campo de batalha: não. Não, não, não e não, parem de confundir Battlefield 1 com história. O padrão de armas de infantaria, durante toda a Primeira Guerra Mundial e mais a primeira metade da segunda, eram as armas de ação por ferrolho. Haviam fuzis automáticos e semiautomáticos na 1ªGM, mas esses eram raros, geralmente difíceis de produzir e pesados. Submetralhadoras também chegaram a ser utilizadas, mas apenas nos últimos meses da guerra. Armas automáticas e semiautomáticas, com exceção das metralhadoras, ainda eram consideradas armas experimentais, e muitas vezes nem sequer saiam do papel.

Como vimos aqui então, a primeira guerra mundial foi um conflito bem mais organizado do que se acredita por aí, e são frequentes os exageros e anacronismos. Por isso, nosso esforço em desmistificar grandes temas como este. O conhecimento leigo da história muitas vezes resulta em exageros cometidos e análises apaixonadas.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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