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Desmistificando os Guerreiros Ninja

Ah, os guerreiros Ninja! Suas roupas pretas, shurikens e bombinhas de fumaça! Eles eram os agentes mais letais e podiam entrar em palácios guarnecidos por um exército inteiro, assassinar o seu alvo, lutar contra 45 guardas no caminho de volta e ainda sair sem nenhum aranhão com um sorriso enorme no rosto. Seria uma pena se eles fossem desmistificados!

Provavelmente o caso descrito acima ficaria bem interessante em um filme ou em um mangá, mas certamente quando entra a pesquisa histórica em jogo, a coisa muda de figura. Os Shinobi (忍び), como realmente eram chamados não eram nem um grupo organizado nem eram altamente perigosos e como é de suspeitar todos aqueles golpes e suposta imortalidade não passam de lenda e truques de hollywood.

Mito #1 : Os Shinobi são uma invenção japonesa

A história dos shinobi começa não no japão mas na China. A arte da guerra de Sun Tzu entre outros manuais bélicos chineses já contavam por séculos a necessidade e a possibilidade do emprego de agentes secretos. Esses agentes secretos, muito de cumprirem uma função, se tornaram parte integral dos estratagemas militares e táticas empregados pelos estados e dinastias chinesas em períodos de guerra.

Sun tzu em seu livro, deixa claro a importancia dos agentes. Esse excerto de “Arte da guerra”  ilustra bem isso:

“A informação prévia (do inimigo e de sua situação) não se pode obter de fantasmas nem espíritos, nem se pode ter por analogia, nem descobrir mediante cálculos. Deve se obter de pessoas; pessoas que conheçam a situação do adversário. Existem cindo classes de espiões: o espião nativo, o espião interno, o duplo agente, o espião liquidável e o espião flutuante. Quando estão ativos todos eles, ninguém conhece suas rotas: a isto se lhe chama de gênio organizativo, e se aplica ao governante.

Os espiões nativos contratam entre os habitantes de uma localidade. Espiões internos se contratam entre os funcionários inimigos. Os agente duplos se contratam entre os espiões inimigos. Os espiões liquidáveis transmitem falsos dados aos espiões inimigos. Os espiões flutuantes voltam para trazer seus informes.

Entre os funcionários do regime antigo, se acham aqueles com os quais se pode estabelecer contato e os que se pode subornar para averiguar a situação de seu país e descobrir qualquer plano que se trame contra ti, também podem ser utilizados para criar desavenças e desarmonia. Em consequência, ninguém nas forças armadas é tratado com tanta familiaridade como os espiões, nem ninguém recebe recompensas tão grandes como a eles, nem há assunto mais secreto que a espionagem. Se não se trata bem os espiões, podem converter-se em renegados e trabalhar para o inimigo. Não se podem utilizar a os espiões sem sagacidade e conhecimento; não pode servir-se de espiões sem humanidade e justiça, não se pode obter a verdade dos espiões sem sutileza. Certamente, é um assunto muito delicado.

Os espiões são úteis em todas partes. Cada assunto requeres um conhecimento prévio. Se algum assunto de espionagem é divulgado antes de que o espião seja informado, este e o que o divulgou devem ser eliminados. Sempre que queiras atacar a um exército, assediar uma cidade ou atacar a uma pessoa, deves de conhecer previamente a identidade dos generais que a defendem, de seus aliados, seus visitantes, seus sentinelas e de seus criados; assim, pois, faz que teus espiões averiguem tudo sobre eles. Sempre que vais atacar e combater, deves conhecer primeiro os talentos dos servidores do inimigo, e assim podes enfrentá-los segundo suas capacidades.

Deves buscar agentes inimigos que tenham vindo te espionar, subornálos e induzi-los a passar para teu lado, para poder utilizá-los como agentes duplos. Com a informação obtida desta maneira, podes encontrar espiões nativos e espiões internos para contratá-los. Com a informação obtida destes, podes fabricar informação falsa servindo-te de  espiões liquidáveis. Com a informação assim obtida, podes fazer que os espiões flutuantes atuem segundo os planos previstos. É essencial para um governante conhecer as cinco classes de espionagem, e este conhecimento depende dos agentes duplos; Assim, pois, estes devem ser bem tratados.

Assim só um governante brilhante ou um general sábio que possa utilizar os mais inteligentes para a espionagem, pode estar seguro da vitória. A espionagem é essencial para as operações militares, e os exércitos dependem dela para levar a cabo suas ações. Não será vantajoso para o exército atual sem conhecer a situação do inimigo, e conhecer a situação do inimigo não é possível sem a espionagem.”

 

Mito #2: Os shinobi eram usavam roupas pretas para se moldar na escuridão

Qualquer agente secreto, durante uma missão de reconhecimento ou de assassinato, caso se vista como um agente certamente será identificado e prontamente morto. Mesmo que este seja um hábil escapista, há de se lembrar que os guerreiros do japão feudal são extremamente bem treinados no arco e flecha, portanto não há muita escapatória de uma morte certa.

Para executar suas missões, os agente shinobi usavam roupas mais do que comuns para o local que tivessem de infiltrar e deveriam se mesclar não com a noite, mas com os funcionários, campesãos e outras pessoas de confiança do inimigo. De tal modo, a tão conhecida roupa preta não só era incomum como poderia render a vida do agente.

Mito #3: Os shinobi são uma classe de tradição que durou séculos

Errado. Os agente shinobi surgiram no período do sengoku gidai em um período de guerra generalizada e violência civil. Em meio ao caos, alianças e traições os shinobi se tornaram uma solução necessária para coletar inteligencia para os clãs que desejassem sair vitoriosos em seus conflitos pessoais.

Da mesma forma que ilustrado na arte da guerra, os shinobi eram um tipo de agente que podia tomar diversos papéis sendo desde agente duplo até agentes descartáveis, sendo iludidos por seu soberano e os levando a sua morte, com o propósito de confundir o inimigo.

Esse clima de extrema hostilidade e emprego de táticas astuciosas foi muito comum durante todo o sengoku jidai. O famoso código de honra –Bushido- dos samurai, certamente não valia o estrume de seus cavalos durante essa época. Planos e estratagemas como incendiar o acampamento inimigo, envenenar seus suprimentos, atacar durante tréguas era muito comum. Tudo valia para sobreviver e se projetar como um clã vitorioso durante a guerra de todos contra todos.

Quando a ausência de lealdade e de honra, tal tema foi abordado em nosso artigo anterior desmistificando alguns preconceitos dos samurais, como por exemplo, seu fictício código de honra, inventado apenas depois da guerra em um período de longa paz conhecido como a era tokugawa.

Voltando ao ponto anterior, a arte da guerra japonesa valorizava antes de tudo a razão e a praticidade, muito mais importantes para obter a vitória que códigos de honra. Sobre a disciplina e a lealdade Sun Tzu também irá comentar, mas dizendo que estas dependem da boa organização e do bom comando, não de um suposto vínculo espiritual entre um mestre e seu vassalo. Portanto, tal qual Sun Tzu observava, as relações de lealdade no Japão feudal e as táticas de guerra se desenvolviam de acordo com sua praticidade e ocasião.

Mito #4: Os shinobi utilizavam armas altamente letais e especializadas

Em concordância com o segundo mito, parte do trabalho de um shinobi era completar sua missão, para tal, se vestir ou portar objetos suspeitos não seriam a escolha mais inteligente. O mais comum e indicado para missões de assassinato seriam objetos pequenos e comuns, como ferramentas e instrumentos utilizados por camponeses e cortesãos.

Mito #5: Os Shinobi eram essencialmente assassinos

O trabalho menos frequente para o qual os Shinobi eram empregados era o assassinato, muito antes disso, seu trabalho principal era coletar informações, descobrir segredos, roubar objetos, interceptar mensagens entre outras coisas que bem, fazem do shinobi muito mais um Espião nos termos de Sun Tzu que própriamente um assassino

Mito #6: Os shinobi eram bem treinados em combate

A julgar pelo tipo de trabalho que faziam na maior parte das vezes, o grosso dos shinobi contratados eram homens e mulheres velhos pouco ameaçadores que se passavam como pessoas comuns em território inimigo. A parte restante dos shinobi ou eram jovens mercenários aspirantes ou eram de fato mercenários bem treinados também no combate campal. Existem relatos escritos de shinobi dos clãs de Iga e Köga lutanto em batalhas campais ao lado de das tropas de Ieyasu Tokugawa. No final das contas o grosso mesmo dos shinobi talvez não soubesse nem o básico do combate corpo-a-corpo.

 

Conclusão

A identidade Ninja/Shinobi que vemos nos Filmes/Mangás/Naruto é bastante associada com o mito da indestrutibilidade, alta furtividade e até mesmo poderes sobrenaturais são atribuídos as vezes. No entanto, o Ninja histórico não está subscrito em nenhum desses moldes. O ninja histórico não é sequer nem mesmo uma sociedade ou uma classe, ele está mais para uma profissão. Que surgiu durante um período de crise, onde os ensinamentos da arte da guerra chinesa tiveram de ser empregados constantemente, e os líderes políticos e militares se viram necessitados de coletar informações vitais para obter sua vitória ou sobrevivência no Sengoku Jidai.

 

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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2 comments

  1. Comecei a ler os artigos do site hoje, gostei bastante. Acho que seria legal botar também as referências. Vlw

    • Costumamos citar as principais referências quando estamos tratando de algum fato muito questionável ou difícil de encontrar em outros lugares. Mas geralmente os artigos não tem as referências citadas porque utilizamos principalmente conhecimentos acumulados ao longo do tempo, ficando difícil lembrar exatamente onde foi que aprendemos isso ou aquilo. De qualquer modo, estamos sempre dispostos a oferecer algumas referências dos assuntos dos nossos artigos caso alguém venha pedir, basta direcionar ao autor do post.