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Plantador de arroz vietnamita ao notar a chegada de soldados americanos. Vietnã, 1968

Desmistificando a Guerra do Vietnã

Ah, a Guerra do Vietnã. Bons tempos em que se comia napalm no café da manhã, agente laranja no almoço e não tinha janta porque a comida no país inteiro acabou. Infelizmente, assim como quase todo fato histórico do século XX, a guerra do Vietnã é tratada por muitos com parcialidade. Então lá vai mais um post de desmistificação pra vocês.

Há um tempo atrás, uma galerinha em grupos de história e política internacional no Facebook e outros fóruns na internet começou a falar, de forma bem convencida, que a Guerra do Vietnã não foi exatamente uma derrota para os EUA, pois esses estavam levando a melhor no campo de batalha e mais alguns motivos que vou especificar mais tarde. E agora, parece que essa discussão voltou em alguns grupos.

E eu sei bem de onde começou esse mito de que os americanos não saíram derrotados no Vietnã: de um vídeo do canal Prager University, lançado em 2015 no Youtube. Não vou entrar muito em detalhes, mas no vídeo, é dito basicamente que os americanos alcançaram a vitória em 1972, por meio dos Acordos de Paris. Estes estabelecia o fim da agressão do Vietnã do Norte e a remoção das tropas americanas, que passariam a apoiar o sul apenas de forma indireta, fornecendo apoio logístico.

Porém, assim como em muitos outros vídeos, a equipe do PragerU falou com o coração, mas não com o cérebro. E antes de mais nada, para os fãs do canal: não me levem a mal, eu gosto dos vídeos deles. Os vídeos sobre economia, filosofia e teologia deles são excelentes. Mas na hora de falar sobre história ou política internacional, costumam bostejar. E esse vídeo não foi exceção.

Voltando ao assunto, tentarei desmistificar o vídeo apontando dois argumentos. E por se tratar de um assunto complicado, é necessário entender o primeiro para entender o segundo. Então lá vai:

1- Não importa o que aconteça no campo de batalha, o lado vencedor é aquele que alcançou seu objetivo político principal- esse aqui certamente está mais relacionado à Teoria da Guerra do que a história. E isso principalmente porque esse argumento não é meu, e sim do general prussiano Karl Von Clausewitz.

Clausewitz, para quem não sabe, foi o que nós podemos chamar de primeiro teórico da guerra. No século XIX, ele escreveu sua obra prima, chamada “Da Guerra”, em que pela primeira vez as guerras passaram a ser analisadas por um viés científico, com uma formulação complexa de teorias baseadas em método científico, e não mais em “essa técnica aqui funcionou mais ou menos bem até agora, então vou repetir até todo mundo entender ela”.

E foi nessa obra que Clausewitz estabeleceu uma teoria acerca do que é a guerra: para ele, a guerra não passa de uma forma de se fazer política por meios alternativos. A guerra não passa de uma ferramenta para se fazer política. O vencedor não é aquele que melhor se sai no campo de batalha, e sim aquele que, ao final do conflito, consegue atender seus interesses.

Agora que você entendeu esse argumento, vamos para o próximo:

2- Os EUA sofreram uma derrota política. Logo, perderam a guerra- Voltando a Guerra do Vietnã, podemos agora saber quem venceu a guerra simplesmente sabendo quem teve sua vontade inicial cumprida ao fim do conflito. E quem foi? Isso mesmo, o Vietnã do Norte, que teve êxito em seu objetivo de unificar o Vietnã sob um regime socialista. O Vietnã do Sul foi dissolvido, e os EUA não alcançaram seu objetivo inicial de o proteger.

“Ah, mas os EUA saíram da guerra após os acordos de Paris, e a guerra tecnicamente acabou por lá”- não, amiguinho. Os Acordos de Paris não acabaram com a guerra, e muito menos tiraram os EUA dela. Eles apenas estabeleceram um cessar fogo e a saída DAS TROPAS americanas do país, e não da sua presença da guerra. Mesmo não fornecendo mais soldados, os EUA permaneceram apoiando o Vietnã do Sul.

Estava claro para os dois lados que a guerra não estava acabada com os Acordos de Paris, e que uma hora ou outra um dos lados atacaria novamente. Além disso, os interesses iniciais continuaram os mesmos.

História recente, principalmente após a Primeira Guerra Mundial, é sempre cheia de parcialidades. Por muitos fatos do século XX estarem diretamente associados a eventos atuais, não é difícil, nem para a esquerda e nem para a direita, enfiar seus interesses ideológicos no meio. E justamente por isso, tudo aquilo que se fala sobre fatos recentes deve ser analisado com cautela, para ter certeza que a história que está sendo contada não foi alterada a favor do ponto de vista do autor. A história não é patrimônio nem da direita e nem da esquerda, e por isso deve ser lida com o cérebro, e não com o coração.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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One comment

  1. Deyvison dos Santos Oliveira

    Muito boa a sua analise.