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Desmistificando a Guerra dos Farrapos

A guerra dos farrapos foi sem dúvida a mais duradoura e é a mais conhecida guerra civil que já aconteceu no Brasil. Resultado das más administrações do caótico período da regência e de um extremismo liberal gaúcho, a revolução farroupilha não deixa de ser cercada de mitos, exageros e enganos. Antes de ir para os mitos, já dou logo um aviso: é melhor ler todos eles na ordem, pois pode ser que o entendimento de um dependa da leitura dos anteriores. Agora vamos ao:

Mito nº 1- A guerra começou por causa do preço do charque: bom, a desvantagem tributária e a negligência dos regentes no Rio de Janeiro em infraestrutura e estímulos ao mercado no sul do país não deixa de fazer parte das razões do conflito. Mas está longe de ser a única.

O fato é que o período entre a abdicação de D. Pedro I e a coroação de D. Pedro II foi um dos mais caóticos do país. Os regentes não possuíam muito apoio popular; os problemas já existentes no primeiro reinado se agravaram; a política externa foi deixada às moscas; o Exército e a recém criada Força Nacional criaram fortes desconfianças entre si e a regência negligenciou por completo os interesses dos cantos isolados do país.

Os problemas do Rio Grande do Sul não fugiram disso. De um fim da guerra da Cisplatina trouxe aos gaúchos um período de certeza de paz, depois de décadas de guerras constantes com os argentinos. Essa situação criou um ambiente favorável para os empreendimentos, como na pecuária e na crescente indústria do charque. Do outro, o crescimento da economia fez com que muitos pensamentos liberais se espalhassem pelo Rio Grande: principalmente filosofias a favor de um governo federado ou confederado; em que as unidades territoriais tinham autonomia. Oposto ao que os regentes tentavam fazer.

Além disso, a popularidade dos governo central caiu por água abaixo depois de um desentendimento do Rio de Janeiro com Bento Gonçalves, político e militar de grande prestígio no Rio Grande que fora acusado de conspirar junto com políticos uruguaios para separar o Rio Grande e criar uma confederação com o Uruguai. Outro fator importante foi a crescente desconfiança entre os brasileiros e os caramurus -apelido dado aos residentes portugueses- que eram constantemente acusados pela população de tentar reunificar o Brasil com Portugal. A presença de portugueses no parlamento aumentou a desconfiança dos gaúchos com o governo central.

A gota d’água para a revolta foi quando a regência apontou Fernandes Braga como presidente da província do Rio Grande. Braga, ao assumir posse como presidente, deu um discurso acusando e difamando Bento Gonçalves e vários outros políticos populares na província de traição e conspiração com o Uruguai. Esse discurso despertou a fúria da população, e deu início à revolta.

Mito nº 2- A revolta começou como um movimento separatista: ao contrário do que muitos pensam, a guerra dos farrapos não começou tentando separar o Rio Grande do resto do país. Não apenas isso, mas, como eu disse no mito anterior, a acusação de alguns líderes políticos gaúchos de tentar separar a província foi tida como uma grave ofensa.

O primeiro “levante” da revolução tinha na verdade por objetivo a derrubada do presidente Fernandes Braga. Depois disso, muitos líderes farroupilhas deram a revolução como terminada; não fosse a grave instabilidade deixada pela sua vacância na presidência da província. O que aconteceu é que houve uma forte resistência ao novo presidente apontado pela regência, o deputado Araújo Ribeiro; primo de Bento Manuel: outra figura de grande popularidade no cenário político e militar gaúcho.

A revolta contra o novo presidente desencadeou em uma guerra civil, desta vez sem o mesmo ânimo popular do levante anterior. Araújo Ribeiro tinha o apoio de alguns políticos locais; e muitas lideranças farroupilhas, como o tenente Osório e o próprio Bento Manuel se posicionaram a favor do novo presidente.

Cerca de um ano depois da primeira revolta, os revolucionários farroupilhas já perdiam o ânimo de lutar e o apoio no resto do país. E foi buscando recuperar esse apoio e restaurar a motivação da tropa que, em 1836, Bento Gonçalves declarou criada a República do Piratini, nome dado em referência à sua primeira capital. A mudança da razão da guerra não apenas deu aos soldados farroupilhas um novo motivo para lutar, como criou uma possibilidade até o momento inexistente: a das demais províncias também se separarem do país e se confederar com os rio-grandenses.

Mito nº 3- Somente brasileiros se interessaram pelo conflito: já é de se imaginar que, como nas demais guerras civis do período da regência, a Guerra dos Farrapos fosse vista pelo resto do mundo como “mais uma guerra civil qualquer no Brasil”. Mas na prática a guerra dos farrapos atraiu interesses de diversos estrangeiros, tanto dentro quanto fora do Brasil.

Em primeiro lugar, temos o interesse estrangeiro mais óbvio de todos: o interesse dos imigrantes estrangeiros no conflito. O Rio Grande já contava na época com grandes comunidades de estrangeiros contratados como mercenários na Guerra de Independência do Brasil e da Guerra do Cisplatina; principalmente comunidades alemãs.

Não apenas algumas dessas comunidades se juntaram a ambos os lados da guerra, como uma delas teve um papel crucial na guerra: a comunidade alemã em Porto Alegre. Os alemães em Porto Alegre se sentiam hostilizados pelo governo farroupilha, e bolaram um plano para devolver a cidade ao poder imperial: fizeram um festival regado à cerveja na cidade e convidaram os oficiais farroupilhas a participar. Quando todos os oficiais já estavam alcoolizados, alertaram a Armada Imperial avisando que as defesas da cidade estavam enfraquecidas, e então a cidade foi tomada pela marinha.

Já na Europa, a revolução farroupilha foi tida como a maior revolta liberal de seu tempo; vindo a atrair voluntários e mercenários do continente inspirados tanto na causa dos piratinis quanto no aprendizado do campo de batalha; para repetir a revolução em seu próprio continente. Um exemplo notável disso foi o de Giuseppe Garibaldi; mercenário italiano que lutou ao lado dos farroupilhas e mais tarde assumiu o comando de uma das frentes da unificação italiana.

Mas onde a guerra mais despertou interesses foi na bacia do Prata; mais respectivamente no Uruguai e na Argentina. Assim como no Brasil, uma guerra civil também acontecia no Uruguai entre seus dois maiores partidos políticos: o Partido Colorado, pró-independência; e o Partido Branco, à favor de unificar o país com a Argentina. O partido Branco era financiado pelo governo de Buenos Aires, que sabia que havia o risco do Brasil intervir na guerra a favor dos colorados. Buscando manter o governo imperial ocupado até o fim da guerra no Uruguai, Buenos Aires forneceu suprimentos na medida do possível para a República do Piratini.

O Partido Colorado também estava interessado na guerra; mas com um interesse oposto ao dos argentinos: queria que a guerra dos farrapos acabasse logo, para que o Brasil pudesse intervir em seu favor. Para isso, forneceram ao exército brasileiro livre trânsito em seu território; direito que foi muito bem utilizado pelo exército imperial no primeiro ano de guerra.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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