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Desmistificando o Brasil colonial

O período colonial é definitivamente o que é pior ensinado no sistema educacional brasileiro. Sempre com uma ênfase excessiva no aspecto econômico, deixando quase que de lado os aspectos políticos, sociais e até mesmo a história militar desse período que foi o mais longo da história brasileira. E como já é de se esperar, é uma era cheia de mitos, exageros e períodos praticamente apagados. E por isso, hoje falaremos um pouco disso, começando pelo:

 

Mito nº 1- A expansão colonial no Brasil foi um processo pacífico: sempre é ensinado nas escolas como era feita a divisão territorial no Brasil durante o período colonial, mas quase nada se fala dos conflitos que aconteceram por aqui com outras nações coloniais para que Portugal pudesse estabelecer e expandir seu império colonial na América do Sul. Geralmente se fala apenas por alto da Batalha de Guararapes, ou com sorte uma coisa ou outra sobre a guerra contra a França Antártica, uma tentativa de colonização francesa no Rio de Janeiro.

O fato é que, assim como todo o resto do continente americano, o Brasil foi alvo de diversos conflitos entre nações europeias que tentavam formar seus impérios coloniais. No nordeste, como já é ensinado, colonos brasileiros e as forças armadas da União Ibérica se juntaram duas vezes para expulsar os invasores holandeses em Pernambuco. No Rio de Janeiro, aconteceram dois confrontos contra os franceses: um no século XVI, contra invasores que buscavam estabelecer uma colônia, e outro no século XVIII, contra uma frota francesa tentando resgatar prisioneiros de guerra franceses e conseguir algum dinheiro atacando a cidade.

Mas a fronteira mais conturbada a se formar no Brasil foi na região sul, onde hoje são os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Aquela região foi alvo de uma série de conflitos com a Espanha (e posteriormente com a Argentina) desde a Guerra dos Sete Anos no século XVIII, e esses conflitos só se encerraram muitos anos depois do Brasil ficar independente.

E só lembrando que os conflitos que citei até agora foram só entre as nações europeias. Haviam também conflitos entre tribos indígenas que os colonos acabaram por se envolver, e também tribos que ofereceram resistência à colonização até dizer chega, como os habitantes do atual Espírito Santo.

 

Mito nº 2- Os ciclos econômicos extrativistas eram a única importância do Brasil: outro erro muito comum ao se falar do período colonial é pensar que a única importância do Brasil para a coroa portuguesa era a de explorar matérias primas e plantar alimentos mais tarde vendidos como mercadorias. Na verdade, esse mercado foi se formando com o tempo, conforme Portugal foi voltando seus olhos para o continente americano. Mas o motivo especial que fez com que Portugal expandisse os limites do Tratado de Tordesilhas até a costa brasileira era muito mais sutil: os mares do nordeste brasileiro eram um caminho necessário para as expedições portuguesas ao oriente.

Em sua expedição para o subcontinente indiano (que mais tarde teve de ser interrompida), o navegador Bartolomeu Dias realizou uma manobra para cortar caminho pelo atlântico visando chegar mais rápido ao sul da África: ao invés de seguir diretamente ao sul, sua expedição começou seguindo ao oeste, até mares próximos da costa brasileira. Ali os ventos eram mais rápidos, e com isso a esquadra não teria que passar pelas calmarias do centro do atlântico.

Dominar esse caminho era de vital importância para que Portugal pudesse preservar seu domínio sobre as rotas marítimas para o oriente. E esse foi o objetivo inicial de Portugal ao reivindicar o ainda não descoberto nordeste brasileiro em Tordesilhas e para se estabelecer nessas terras.

 

Mito nº 3- As tribos indígenas viviam em paz antes da chegada dos portugueses: um dos erros mais comuns ao se falar do Brasil colonial é a falsa noção de que o Brasil era quase uma utopia indígena, e que a chegada dos portugueses significou uma era de desgraça para essas tribos.

A verdade é que, assim como qualquer outro povo, as tribos indígenas brasileiras tinham rixas entre si. E assim como qualquer outro povo, essas tribos frequentemente entravam em guerra para tomar os recursos das outras. E claro, havia entre algumas tribos uma rivalidade cultural, como entre os Tupinambás e os Tupiniquins.

 

Mito nº 4- (Quase) não houve desenvolvimento no Brasil: um dos erros mais graves ao se falar do período colonial com excessiva ênfase em observar os aspectos puramente econômicos é esquecer que a colônia inteira não se resumia à produção de açúcar. Quando se fala de Brasil colonial, muita gente imagina enormes engenhos de açúcar cercados de mato, quando na prática isso é uma realidade quase que exclusiva do norte e nordeste.

Cada província brasileira passou por um diferente processo de exploração e povoamento, e cada uma se desenvolveu à sua maneira. No Rio de Janeiro, por exemplo, grande parte do desenvolvimento foi devido a atividade portuária, pois era de lá que escoava o ouro extraído em Minas Gerais: outra atividade produtiva que fez diversas cidades prosperarem na província.

Os ciclos econômicos como o do açúcar e do ouro foram parte importante da história brasileira, mas sempre se deve lembrar que não eram tudo. O Brasil era uma colônia do tamanho de um continente, e seria uma erro pensar que tudo que acontecia por aqui se resumia a economia de algumas regiões específicas.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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