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Nazismo: A máquina da comunicação de massa

O Nacional socialismo alemão (Nazismo)  produziu dentro de seu regime uma verdadeira máquina de comunicação de massa. Apenas por meio dela, este regime autoritário de alinhamento fascista conseguiu tamanho apelo público tanto nacional como internacional. Em outras palavras, a ingenuidade das mentes do terceiro Reich elevou a comunicação à escala industrial.

Introdução: A Comunicação de Massa no Regime Nazista

O presente texto tem como objetivo esclarecer os principais pontos presentes na chamada “Teoria Funcionalista da Comunicação”, desenvolvida por Harold Lasswell em meados do século XX, a partir da contextualização e análise de veículos de propaganda da Alemanha nazista dos anos 30 e 40. Com isso, demonstraremos de que maneira os avanços na pesquisa da Mass Comunication Research ajudaram a elucidar e desmistificar a relação da chamada “Teoria Hipodérmica” com a ascensão do regime autoritário de Adolf Hitler. Ainda que o recorte histórico analisado se constitua de uma situação sui generis, é possível estudá-lo sob um viés pragmático e utilizar-se de pesquisas ligadas a comunicação de massa fundamentadas em experimentos posteriores ao período nazista.

Harold Lasswell.

No dia 31 de Janeiro de 1933, o jornal alemão Völkicher Beobachter (“Observador Popular”) pública uma manchete comemorando o que fora chamado de “Um dia histórico”. No dia anterior, 30 de Janeiro, a coalizão parlamentar de Adolf Hitler acabava de assumir a chancelaria. No dia citado, a câmara dos deputados seria dissolvida e novas eleições seriam chamadas para o dia 5 de março, no qual os nazistas tomariam maioria absoluta no parlamento e um dos governos mais sanguinários e autoritários da história da humanidade teria início.

A história de vida do Völkicher Beobachter caminha junto com a do próprio regime nazista. Criado em 1920, com uma tiragem inicial de 8,000 cópias por semana, o número de impressões do periódico chegou a cerca de 1,7 milhões de cópias diárias até 1944,  sendo o mesmo dissolvido no ano seguinte, após o fim da Segunda Guerra.

Durante seus 25 anos de vida, o jornal propaganda do regime teve a função de divulgar, propagar e informar seus leitores acerca das movimentações de seus benfeitores, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), elencando e criando sua figura mais carismática e símbolo do movimento, Adolf Hitler.

Uma edição do Volkicher Beobachter na qual lê-se o lema nazista “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” (Um povo, uma nação, um Líder)

O exponente crescimento do da publicação, assim como todos os outros meios de mídia que apoiaram o regime naquela época, reforçam ultimamente a hipótese de que estes foram força motriz na ascensão do nazismo. Ou ao menos era o que pensavam os estudiosos da Mass Communication Research até poucos anos após o fim do conflito mundial.

O marketing da destruição

Assim como o Völkicher Beobachter, o Die Stürmer (“O tempestuoso”), jornal independente, propagador de notícias sensacionalistas de cunho antissemita criado em 1923, acenderia em meio aos órgãos de mídia e atingiria uma tiragem de mais de 2 milhões de exemplares diários até 1944. A adesão alemã aos meios de propaganda ultranacionalistas que endossaram o regime é impressionante, como afirmou o ministro da Propaganda Nacional Socialista, Joseph Goebbels, em discurso na rádio, após o sucesso de seu Volksempfänger (“Receptor Popular”, modelos simples de rádios subsidiados por financiamento estatal para que todas as pessoas na Alemanha tivessem acesso ao rádio):

“Teria sido impossível para nós tomarmos o poder se não fosse o rádio […] Não é exagero dizer que a “Revolução Alemã”, ao menos do jeito que ocorreu, nunca teria ocorrido não fosse o avião e o rádio.”

Joseph Goebbels discursando em cadeia nacional, 18 de Agosto de 1933.

Joseph Goebbels durante um discurso numa das costumeiras reuniões do Partido Nazista.

Ou seja, é notável como era claro, para os próprios partidários do governo nazista, como a comunicação e seus efeitos sobre a população tinham grande relevância na popularidade e adesão ao regime. Deve-se isso principalmente a crença no chamado  modelo hipodérmico, ou Bullet Theory,  na qual os indivíduos constituintes da “massa” se encontram atomizados e se constituem de seres facilmente manipuláveis. Neste modelo, um indivíduo que é atingido por uma mensagem aceita facilmente o conteúdo desta, tal qual a injeção de uma “seringa hipodérmica” e passa a crer e reproduzir imediatamente aquilo que lhe foi informado. Algo que a princípio era bastante factível no contexto da propaganda nazista e sua enorme adesão popular.

Os meios de comunicação em massa, de facto, estavam aparelhados de tal forma que qualquer ditadura atual invejaria. As próprias forças armadas tinham, em cada um de seus três recortes semanários extremamente populares. O Die Wehrmacht, Der Adler, Luftflotte West e o Die Kriegsmarine (“O Exército”, “A Águia”, “Frota Aérea Oeste” e “A Marinha de guerra”, respectivamente) eram revistas de alta circulação, apontando que a guerra, em si, também era fortemente explorada como meio propagandístico. Antes da televisão ser um fenômeno popular, era comum que a população fosse para cinemas assistir a filmes informativos. Durante a Guerra, o Deutsche Wochenschau (Show semanal alemão) foi, disparadamente, um dos programas mais assistidos.

Até pouco tempo após o término do conflito mundial, a eficiência comunicativa do regime nazista era incontestável. De fato, a homogeneidade da propaganda nazista e sua adesão pela maioria da população alemã são incontestáveis. Entretanto, em 1948, Harold Lasswell propõe a Teoria Funcionalista, uma superação do modelo hipodérmico, o qual considerava que os meios de comunicação eram agentes de massificação social. A premissa funcionalista levava em conta um embasamento no positivismo de Auguste Comte, ou seja, partia do pressuposto que os agentes dentro da sociedade cumpriam funções que garantem seu desenvolvimento e sobrevivência, independente de suas causalidades.

Edição do Die Stürmer na qual lê-se “Das Lügenmanöver” (As manobras da mentira), abaixo vê-se uma caricatura depreciativa de um judeu.

 Contextualizando o Nazismo à Teoria Funcionalista

No caso, o modelo Funcionalista no Mass Communication Research não aborda as consequências causadas pela comunicação de massa, mas sim, suas funções dentro da sociedade, sendo estas: (1) informar, ou alertar a sociedade dos perigos que a ameaçam; (2) fornecer escopo para realização de atividades econômicas; (3) atribuição de status a agentes sociais, no caso, pessoas ou instituições; (4) reforço de normas sociais. Bem como as disfunções da comunicação, que são: (a) disfunção narcotizante, ou como a grande massa de informação torna o indivíduo apático perante o “turbilhão” informativo e (b) as ameaças que a própria comunicação livremente circulando pode causar nas bases fundamentais da sociedade.

Aplicando-se a teoria funcionalista no caso do periódico Völkicher Beobachter, seria impossível negar sua função como atribuidor de status social à figura de Adolf Hitler. Com efeito, contando com atenção da maioria dos meios comunicativos da época, o líder nacionalista alcançou o status de herói nacional. Entretanto, teriam sido os meios de comunicação os principais causadores da ascensão do regime, como havia dito Joseph Goebbels?

O modelo funcionalista de Lasswell argumenta que não. A comunicação de massa, do ponto de vista funcional, realça e reforça modelos sociais de comportamento. Partindo de tal premissa, é possível afirmar que a adesão ao movimento autoritário dos nazistas não foi causado pela mídia aparelhada, mas por uma tendência social presente naquela sociedade, sendo o meio de comunicação utilizado apenas para elencar a figura do líder e reforçar uma condição já presente.

O antissemitismo não nasceu com o nazismo. Tal preconceito vem a surgir ainda no desenvolvimento dos burgos, na baixa Idade Média, quando os comerciantes judeus passaram a lucrar muito mais que os católicos, já que estes últimos estavam proibidos pela Igreja de cobrar juros, sendo a usura considerada um pecado. Nasce aí a ideia de que os judeus são um povo egoísta e pecador. Desde o século XIX a “ciência racial” iria apresentar os judeus como uma “raça” inferior (o termo “antissemitismus” seria realmente cunhado em 1873, na Alemanha, uma alternativa eufemista para o termo anteriormente usado, “Judenhass”, literalmente “ódio aos judeus”). Já durante a Segunda Guerra, grupos de resistência poloneses e franceses também contribuíram com a perseguição dos judeus, fazendo do antissemitismo um fenômeno não apenas nazista, mas europeu. Assim como anseio por uma figura carismática que colocasse a Alemanha num lugar digno novamente, pois a derrocada do Império Alemão, ainda na Primeira Guerra (1914-1918), tornou a jovem República de Weimar (1918-1933) um país onde a extrema pobreza e o desemprego eram endêmicos. A subida de Hitler ao poder sanou ambas as tendências. Nesse sentido a Teoria Funcionalista corrige as hipóteses antes levantadas pelo modelo hipodérmico.

Desenho do artista francês Charles Lucien Léandré de 1898, entitulada “Rothschild”, onde vê-se um judeu abraçando o mundo, ao centro é possível ver que a França é alvo de observação do tal “vilão”. Reprodução da teoria da conpiração judaica de dominação global.

Dentro da teoria ainda existem os “usos e gratificações”, os quais argumentam que, ao preencher seu papel social, os mass medias satisfazem necessidades dos indivíduos. A audiência, no caso, relaciona as escolhas de transmissão do meio com suas próprias necessidades, sendo ativa. A interpretação e endossamento da mensagem, por fim, irá depender do emprego de juízo de valor dos destinatários, isto é, se a mensagem pode satisfazer ou não seus anseios. A teoria responde, ao elencar os usos e gratificações, a adesão popular ao regime. Na medida que a hipótese anterior, que considerava os indivíduos átomos isolados, sem interação e senso crítico, só poderia responder argumentando que o meio de comunicação os teria manipulado; pecando ao não considerar as interações sociais e o intelecto dos indivíduos, assim como sendo pobre em evidência empírica.

No entanto, é fato que a teoria funcionalista argumenta que o papel dos meios de comunicação, muitas vezes, se refere à satisfação de necessidades do público, sendo que   esse, a priori, se configura como demasiadamente heterogêneo. Isto posto, tornar-se-á problemático o fato de que movimentos populares de resistência nazista – que não partissem, por exemplo, de oficiais do exército ou de parte da elite alemã conservadora – terem sido em sua grande maioria, sufocados e não tiveram uma adesão popular significativa. Se os meios atendem a necessidades e essas necessidades são variáveis, uma vez que a população é heterogênea, por que articulações como a Weisse Rose (“Rosa Branca” movimento pacifista que distribuía panfletos contra a opressão nazista), entre outros, tiveram uma duração tão efêmera e entraram para história muito mais pelo simbolismo que carregavam do que por conquistas relevantes? Dentro da Alemanha do período havia um número significativo de opositores ao nazismo que, invariavelmente, de uma forma ou de outra, foram completamente tragados e invisibilizados pela massiva propaganda nazista. Fenômeno esse que, em um primeiro momento, não pode ser totalmente explicado pelos conceitos da Teoria Funcionalista.

Conclusões

Em resumo: observa-se a propriedade da teoria funcionalista na análise do contexto social envolvendo os veículos oficiais e não-oficiais da propaganda nazista. A premissa de que deve-se estudar não necessariamente os efeitos que uma mensagem implica na sociedade, mas sim o que a sociedade faz com essas informações e quais funções esse processo origina, é bastante aplicável quando se analisa o conteúdo e o público, por exemplo, do Völkicher Beobachter. A população alemã do período já apresentava uma certa “tendência social” para abraçar Adolf Hitler e seus ideais autoritários. A existência de publicações como essa apenas colaboraram com o papel ativo que a audiência desempenhava, fazendo com que o conteúdo propagandeado por esses veículos atendesse a certas necessidades da população. Ainda que a teoria não possua subsídios o suficiente para problematização da adesão quase que unânime ao regime, já que para tanto a população alemã em sua totalidade necessitaria apresentar um caráter deveras homogêneo, sua aplicabilidade é bastante razoável para se compreender a relação dos efeitos e usos da sociedade alemã da época com os meios de comunicação de massa e o nazismo.

Nota

Este artigo foi escrito sob autoria de Vitor Matheus Beira Machado e co-autoria de Daniel Victor de Tozzi Mendes, sob orientação da Profª Dra. Kelly Prudêncio para o curso de Comunicação Social – Relações Públicas/Jornalismo da Universidade Federal do Paraná. Tendo então o objetivo de levantar uma hipótese acerca da plausibilidade da Teoria Funcionalista da Comunicação.

 

Referências:

“Caricatures from Der Stürmer: 1933 – 1945”, German propaganda archieve. Disponível em: research.calvin.edu/german-propaganda-archive/sturmer.htm, acessado em 14/12.

Enciclopédia do Holocausto.  “Disseminação da Informação Jornalística Nazista” Disponível em https://www.ushmm.org/wlc/ptbr/article.php?ModuleId=10007821, acessado em 14/12

Enciclopédia do Holocausto, “Formando um líder”, disponível em www.ushmm.org/wlc/ptbr/article.php?ModuleId=10007817, acessado em 14/12.

Revista Veja: A jornalista da Veja, Cecília Araújo, em resenha do livro “Apoiando Hitler”, do historiador Robert Gellately. Disponível em veja.abril.com.br/mundo/os-alemaes-sabiam-e-aplaudiam-atrocidades-do-nazismo/, acessado em 14/12.

TRUEMAN, C. N. “Völkicher Beobachter”, The History Learning Site, 2012. Disponível em: www.historylearningsite.co.uk/nazi-germany/volkischer-beobachter/, acessado em 14/12.

Wikipedia, a enciclopédia livre: Antissemitismo disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Antissemitismo, acessado em 14/12

WOLF, Mauro. ​Teorias da Comunicação​. 5ª Edição, Lisboa: Editorial Presença, 1999. LAZARSFELD, Paul; MERTON, Robert. Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada (1948). In: COHN, Gabriel. ​Comunicação e indústria cultural​. São Paulo: TA Queiroz, 1987.

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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