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Como os Beatles mudaram a história da televisão

Os Beatles são aquela “banda que não é só uma banda”. Você certamente já deve ter ouvido falar que “Os Beatles fizeram mais sucesso que Jesus”, isso não apenas por sua música, mas pela contribuição cultural agregada em suas produções e o momento histórico colocam os Beatles num patamar além de “apenas uma banda”. Os Beatles ajudaram a mudar a história da televisão porque foram peças-chave em uma das datas mais importantes da história das telecomunicações.

 

Contexto

Em 25 de junho de 1967 ocorreu a primeira transmissão global ao vivo através de um satélite de TV. O “Our World”, programa de duas horas e meia de duração com artistas internacionais, foi transmitido simultaneamente para 24 países. Neste dia, Lennon e McCartney apresentaram ao mundo um dos versos mais conhecidos da história da música, ao realizarem a primeira performance de “All You Need Is Love”, exatamente às 20 horas e 54 minutos daquele histórico domingo em Londres.

A atração que obteve a maior audiência da história da TV até então (estimada em cerca de 400 milhões de telespectadores) foi idealizada pelo produtor da BBC britânica, Aubrey Singer, que comandou a sala principal de controle da transmissão dos estúdios da emissora na capital da Inglaterra. Para a empreitada se concluir, além da existência de outras salas de controle ao redor do mundo, foi necessária a utilização de três satélites geoestacionários de longo alcance na órbita terrestre (Intelsat I, Intelsat II e ATS-1), cerca de 1,5 milhões de quilômetros de cabos e uma numerosa equipe de funcionários também espalhada pelo mundo (cerca de 10 mil pessoas teriam trabalhado na transmissão, entre técnicos, produtores e intérpretes, nas mais de duas dezenas de países para os quais o sinal do programa chegou ao vivo).

 

Logo do especial “Our World”, transmitido para 24 países em junho de 1967

Em tempos sombrios de Guerra Fria, a atração foi concebida para ser uma demonstração de união do mundo (ao menos dentre os países ocidentais) e levar a mensagem de paz e confraternização aos telespectadores. Para tanto, tudo deveria ser feito ao vivo, sem o uso de videoteipes e nenhuma das pessoas que aparecessem na transmissão deveriam ser políticos ou chefes de Estado. Neste contexto, os Beatles, que atravessavam uma fase de efervescência criativa após o lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, foram convidados pela BBC para serem a atração principal do evento, que seria encerrado com uma performance da banda. O convite (feito dias antes da data oficial da transmissão) veio junto com o pedido dos produtores do programa para que o Fab Four apresentasse uma música com uma mensagem positiva e de fácil compreensão para todo o mundo.

 

O programa

George Martin, o lendário produtor da banda, contou suas impressões a respeito do episódio em entrevista à revista revista Rolling Stone, anos depois:

“Brian Epstein (empresário dos Beatles) entrou de repente e contou que iríamos representar a Grã- Bretanha em um encontro mundial. Tínhamos menos de duas semanas para acertar tudo”.

“Oh meu Deus! É tão perto assim?. Deveríamos compor algo”, teria dito John Lennon. Paul McCartney chegou a sugerir que os Beatles tocassem “Hello Goodbye”, composição sua, lançada meses antes como single. No entanto, o grupo preferiu a ideia de John e começou a trabalhar em “All You Need Is Love” no dia 14 de junho . Foram 33 takes gravados com as mais diferentes combinações de instrumentos, que iam desde John tocando um cravo e um banjo e Paul um contrabaixo com arco, até George Harrison tocando violino e o produtor George Martin um piano. Após escolherem a versão definitiva, o quarteto passou a trabalhar nas harmonias de orquestra e os vocais de apoio que acompanhariam a canção.

 

O famoso refrão da canção escrito em diversas línguas, transmitindo o sentimento de integração do evento.

O programa começou com a música tema de abertura do “Our World” sendo cantada pelo “Viena Boys’ Choir”, em impressionantes 22 línguas diferentes. A atração seguiu com participações em todo o mundo através do link ao vivo (prática tão corriqueira nas transmissões atuais, mas que certamente causou grande deslumbramento no dia em que foi usada pela primeira vez). Depois do coral ter se apresentando em Londres, a transmissão foi para o Canadá, onde o grande estudioso das comunicações, Marshall McLuhan, foi entrevistado em um estúdio de TV em Toronto. Nos Estados Unidos foi filmada uma reportagem sobre a conferência de Glassboro, em Nova Jérsei, onde ocorria um encontro entre o então presidente norte-americano Lyndon Johnson e o premier soviético Alexei Kosygin, seguida de uma entrevista com Dick McCutheon, representante da National Education Televisions (NET), a respeito do impacto das novas tecnologias televisivas na sociedade. Após isso, a transmissão foi deslocada para a Ásia, onde a rede de televisão japonesa NHK mostrou imagens da construção do sistema de metrô da cidade de Tóquio. Antes de voltar para a Inglaterra, o programa cruzou a linha do Equador pela primeira vez, e fez uma tomada em Melbourne, na Austrália, dentro de uma das estações dos famosos bondes que cortam a cidade. Em diversos momentos da transmissão, também participaram do programa personalidades como a cantora de ópera Maria Callas e o pintor Pablo Picasso.

A transmissão

Enquanto tudo isso ocorria, o clima em Londres era de tensão. Os músicos da orquestra ainda se ajeitavam em seus lugares quando a transmissão do “Our World” cortou para os estúdios Abbey Road, 40 segundos antes do previsto.Os produtores George Martin e Geoff Emerick ainda tentavam aliviar o stress tomando doses de uma garrafa de uísque, a qual foi habilmente escondida quando souberam que estavam no ar. O sempre descontraído George Harrison, mantinha um olhar rígido e apreensivo. Apesar do principal ponto do programa ser demonstrar a capacidade de se transmitir eventos ao vivo para todo o mundo, os Beatles não podiam fazer feio diante de um público daquele tamanho. “Não podíamos ir na frente de 350 milhões de pessoas sem mostrar algum trabalho”, relembrou George Martin. “Foi a primeira transmissão mundial via satélite da história”, contou Ringo Starr anos depois. “É uma coisa padrão que as pessoas fazem agora, mas naquela época, quando nós fizemos, foi a primeira vez. Isso é emocionante. Nós estávamos sendo os primeiros a fazer muita coisa”, concluiu Ringo. 

“Here we go. Here comes the tape”, disse George Martin para a banda, dando o OK para o começo da apresentação: A icônica introdução com “La Marseillaise”, hino nacional francês, soou pelo estúdio e deu início à performance. Tais arranjos também demonstraram o espírito internacional e de integração do evento. Além do trecho do hino francês, a canção ainda inclui trechos do “Concerto de Branderburgo nº 2”, de Bach; “Greensleeves”, de Mozart e “In The Mood”, de Green Miller. Durante os cerca de três minutos de execução da música a câmera passeou por todo o estúdio onde se viam flores, balões e cartazes com mensagens de paz. George Harrison fez seu vibrante solo de guitarra em sua Stratocaster pintada com cores psicodélicas, por ele mesmo, especialmente para a ocasião. Na plateia, vozes como a de Mick Jagger, Keith Richards, Marianne Faithfull e Keith Moon que foram convidados a prestigiar o evento, serviram de coral de apoio para o refrão, dizendo que tudo o que a humanidade precisava era um pouco de amor. E foram nesses momentos que o hoje histórico verão do amor chegou ao seu ápice. Em meio aos turbulentos protestos contra a guerra do Vietnã, os Beatles e toda aquela geração de hippies, mais uma vez, faziam o que sabiam de melhor: transmitir sua mensagem de paz.

 

Os Beatles durante a performance de “All You Need is Love”

Hoje a experiência de acompanhar, ao mesmo tempo, repórteres ao vivo espalhados em diferentes localidades do mundo é bastante comum às produções jornalísticas. O link ao vivo, que possibilita desde entrevistas em tempo real, a despeito da distância, até transmissões de futebol para as mais diversas nações, se configurou como um dos grandes avanços da era das telecomunicações. A possibilidade de contato visual instantâneo com pessoas em diferentes localidades e o sentimento de integração foram, por muito tempo, a grande mágica que a TV proporcionou.

A existência da Internet, sua sucessora, também se baseou nessa necessidade de integração e instantaneidade da comunicação. Em uma sociedade cada vez mais globalizada, o episódio em junho de 67, foi, portanto, peça chave nessa linha do tempo de avanços e descobertas, no que diz respeito às formas da humanidade se comunicar.

 

Sobre o autor

Daniel Tozzi Mendes é graduando em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Escreve principalmente sobre economia, futebol, música e cultura pop. Este artigo é uma adaptação de artigo de mesmo nome disponível no medium do autor, podendo ser acessado aqui.

 

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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