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Legionário alemão sendo interrogado ao ser preso por indisciplina. Brasil, 1851. Colorizado artificialmente.

Brummers: os alemães cachaceiros que lutaram pelo Brasil

Antecedentes

Geralmente, quando pensamos em soldados alemães do século XIX, costumamos pensar em um soldado rígido, extremamente disciplinado e, literalmente, armados até a ponta da cabeça. Pois bem, podemos dizer que os brummers foram o contrário disso.

A história de hoje começa em 1848: quando floresciam os movimentos nacionalistas alemães e os principados e reinos da então Confederação Alemã dedicaram-se à unificação da Alemanha. Nesse contexto, dois ducados de maioria alemã, mas sob a jurisdição dinamarquesa iniciaram uma série de revoltas nacionalistas: os ducados de Schleswig e Holstein. Visando tirar proveito das revoltas e trazer os dois ducados para a confederação, o reino da Prússia entrou em guerra com a Dinamarca pela libertação dos dois ducados.

Graças a forte pressão internacional, a Prússia foi forçada a sair da guerra, mas armando um corpo de voluntários lutando em seu lugar antes de ir embora. Esses voluntários eram em sua maioria universitários sem nenhum treinamento ou experiência em combate. Foram rapidamente esmagados e expulsos da Dinamarca, fugindo para a cidade de Hamburgo, no norte da Alemanha. Sem ter muito mais para onde fugir e sem dinheiro no bolso, os revoltosos ficaram por ali mesmo, vivendo de esmolas e alguns trabalhos mal remunerados.

Enquanto isso, na América do Sul, o Uruguai se encontrava afundado numa guerra civil financiada pela Confederação Argentina. O Brasil, ao ter sua fronteira invadida pelos uruguaios pró-argentinos, decidiu intervir na guerra e resolver de uma vez por todas o conflito no Uruguai e neutralizar a ameaça Argentina, no que ficaria conhecida como a Guerra do Prata (mais detalhes clicando aqui).

Como o serviço militar obrigatório era visto com péssimos olhos pela população brasileira, o parlamento optou, com o aval do imperador D. Pedro II, por contratar mercenários alemães para marcar a presença brasileira nas regiões de menor importância e manter a ordem nos territórios ocupados. E, por acaso, a comitiva brasileira foi enviada para Hamburgo, onde uma legião de ex revolucionários estava desesperada por um emprego e para fugir para fora do continente; pois ali temiam uma perseguição. Antes mesmo do Brasil declarar oficialmente a guerra contra a Argentina; a missão de contratação dos mercenários já estava concluída e um carregamento de armas alemãs de primeira qualidade havia sido comprada.

Chegada ao Brasil

Os mercenários chegaram e foram bem recebidos no Rio de Janeiro. Foram enviados para o castelo da Praia Vermelha: um forte bem arejado e amplo bem do lado da praia vermelha. Ali tinham comida de sobra, novos uniformes do mesmo modelo do utilizado no exército prussiano (inclusive com capacetes alemães) e receberam seus primeiros soldos; mas que foram gastos logo de cara em cachaça e em bordéis.

Ali eles foram visitados por oficiais alemães já experientes do exército brasileiro, participaram de pequenos desfiles e inclusive foram visitados pelo próprio imperador D. Pedro II. Passaram bons momentos por ali, até que foram enviados ao atual Rio Grande do Sul, onde ficariam até que começasse a intervenção na guerra civil do Uruguai.

Uma vez no Rio Grande do Sul, a legião alemã era frequentemente transferida de uma cidade para a outra. Os soldados e oficiais subalternos ficavam instalados em guarnições cada vez piores, enquanto os oficiais superiores da legião mantinham uma vida confortável para si. A comida ia ficando cada vez mais escassa, e os soldados eram obrigados a gastar dinheiro do próprio bolso para se alimentar. Claro, para se alimentar e comprar cachaça.

Nesse período, as deserções começaram a se tornar frequentes; assim como o número de soldados que iam presos por indisciplina por estarem alcoolizados. A população gaúcha, que na chegada dos mercenários os via com bons olhos, agora já tinha certo medo da legião alemã, que era mal vista até pelos próprios imigrantes alemães.

O apelido “Brummer”

Com o passar do tempo, a legião alemã foi sendo chamada de “Brummer”. Ainda não se sabe o motivo exato para isso, mas existem três teorias: a primeira é a de que seria uma referência a uma moeda polonesa de mesmo nome, muito parecida com a de quarenta réis; utilizada no pagamento de seus soldos.

A segunda teoria é a de que seria uma referência à palavra “brummten” (rosnar, na língua alemã da época), graças às frequentes reclamações dos soldados. E por fim, a última teoria é de que isso seria uma piada interna em relação aos alemães que vieram no navio “Heinrich”, que não sabiam pronunciar corretamente a palavra “brasileiro” (brasilianisch) e acabavam pronunciando “brumsilianisch”.

Participação na Guerra do Prata

Como já citei acima, os brummers foram contratados com um fim: marcar a presença brasileira nos territórios de menor importância e preservar a ordem nas cidades ocupadas. Porém, essa tarefa não foi facilmente cumprida.

Não bastasse a fome e a péssima condição dos seus uniformes, a legião alemã enfrentou dois novos inimigos enquanto marchava para Montevidéu: a distância e as péssimas estradas. Enquanto que na Alemanha eles se acostumaram a marchar em estradas pavimentadas, no Uruguai eles tinham que marchar sobre estradas de terra batida. E pra piorar, os soldados eram acostumados a marchas em solo europeu, cobrindo pequenas distâncias. Atravessar uma distância tão grande era um desafio imenso para eles.

A falta de disciplina foi se tornando um problema cada vez pior; assim como os conflitos entre oficiais, as deserções e a morte de soldados estafados. Enquanto os brasileiros enfrentavam os uruguaios, os alemães enfrentavam o Uruguai.

O momento de maior importância dos brummers durante a guerra foi em sua última e mais sangrenta batalha: o cerco de Monte Caseros, em Buenos Aires. Uma companhia de 80 brummers foi selecionada para participar da batalha; e foram de extrema importância no cerco.

Ao contrário das demais unidades tanto de brasileiros quanto de argentinos, que estavam equipados com mosquetes; os bummers foram equipados com fuzis Dreyse alemães: uma das armas de infantaria mais sofisticadas do seu tempo, superior aos mosquetes tanto em precisão quanto em velocidade. Apesar de somente um pequeno número de alemães ter participado da batalha, eles fizeram uma enorme diferença ao neutralizar a artilharia argentina; ocupada demais para atirar, pois precisavam se proteger dos tiros dos brummers.

Terminada a guerra, foram enviados de volta para Montevidéu; onde tiveram novamente que marchar a pé de volta para o Brasil e ficaram por lá até que acabasse o prazo de seus contratos.

Retrato de veteranos da legião alemã.

 

Consequências e legado

Apesar do caos que geraram nas cidades onde ficaram enquanto mercenários, os brummers tiveram uma importância enorme nas comunidades alemãs do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O contrato com o exército brasileiro previa que, ao fim do prazo; poderiam escolher entre receber uma grande quantia de dinheiro para ficar no Brasil, uma quantia menor e mais um lote em seu nome ou uma quantia média e mais a passagem de volta para a Alemanha. A maioria optou por ficar no Brasil.

Como dito antes, a maioria deles eram universitários alemães que participaram da guerra em Schleswig e Holstein. Ao receber o dinheiro previsto no contrato; decidiram aplicar por aqui o conhecimento que trouxeram da Alemanha, investindo seu dinheiro de forma inteligente. Graças aos brummers, que formaram então a segunda leva de imigrantes alemães no Brasil; as comunidades alemãs em RS e SC prosperaram.

Pouco mais de 10 anos depois, o território brasileiro foi invadido pelo exército paraguaio. Para proteger sua nova pátria; os veteranos brummers se alistaram novamente no exército brasileiro: desta vez, não mais como mercenários e sim como soldados de linha.

 

 

REFERÊNCIA: LEMOS, Juvencio Saldanha- Brummers: A Legião Alemã contratada pelo Império Brasileiro em 1851. Editora Edigal, Porto Alegre, 2015.

About Lucas Mayon

Estudante de Direito em Brasília, criador da página.

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2 comments

  1. Gostei muito do que li aqui no seu site.Estou estudando o assunto,Mas quero agradecer por que seu texto foi muito valido. Obrigada um beijinhu 😉