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A queda do Liberalismo

 

O Autor e sua obra

HOBSBAWM, Eric John Earnest. A Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914 – 1991 (Cap. 4: A Queda do Liberalismo p. 113-144). Tradução de Marcos Santarrita. Ed. Companhia das Letras, 2ª Edição, 26ª reimpressão, 1994. 563 p.

Eric John Earnest Hobsbawm, nascido em Alexandria, no Egito, no ano de 1917 foi um historiador britânico de forte cunho marxista e um dos maiores expoentes do pensamento entre os historiadores, sendo este um dos fundadores do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, no qual se filiou em 1936 e permaneceu militante até o final de sua vida. Suas grandes obras são A Era das Revoluções, Era do Capital, A Era dos Impérios e A Era dos Extremos, sendo a última a mais influente de todas e mais difundida obra do autor.

O livro “A Era dos Extremos”, é composto de três partes: “A Era da Catástrofe” (que compreende, segundo o autor, o período de 1914 à 1945; dos capítulos 1º até o 7º), “A Era de Ouro” (de 1945 até 1973; dos capítulos 8º até o 13º) e “O Desmoronamento” (de 1973 até 1991; dos capítulos 14º até o 19º). Cada destes capítulos um aborda um tema diferente relacionado ao século XX e sua conjuntura sócio-política. O capítulo em questão narra de maneira descritiva, a partir de sua visão, como se deu a derrocada dos regimes democratas liberais do final do século XIX/início do século XX e destes surgiram os regimes totalitários que se desenvolveram no decorrer do século XX e encontraram sua derrocada ao final de 1945.

Eric Hobsbawm.

O desgaste da democracia

Partindo de uma análise conjuntural da chamada “Era da Catástrofe” (1914-1945) , o historiador elucida como o liberalismo encontrou seu esgotamento com a crise da eclosão da Primeira Grande Guerra, as elites que mais se preocupavam com uma revolução social à moda Russa deixaram de perceber que a maior ameaça ao modo de vida liberal partia principalmente das frentes de direita.

Por conta do enorme crash econômico causado pela crise de 29, um forte sentimento nacional de dever com a nação (aliado ao antissemitismo, no caso Alemão) e a incapacidade do regime democrático de representar a todas as massas, em especial as operarias, é que o modelo liberal vai encontrar seu fim e dar lugar a ditadores como Hitler e Mussolini. Estes que também puderam contar com a omissão da Igreja devido à sua problemática frente á “degeneração” do modelo liberal, ou seja, à quebra de seus dogmas e a sua perca de influencia devido à busca do desprendimento dos Estados com a religião, afirma o escritor.

O historiador completa que a Primeira Guerra Mundial também tem seu saldo de crédito com erupção das ondas fascistas pela Europa, não fossem as massas de veteranos que, ao se contemplarem com a vida urbana pacata de funcionários públicos, ante a memória da impotência durante o conflito de 1914-18 e ao sentimento profundo de revanchismo que se espalhou entre as nações perdedoras do conflito, “Primeiro, subestima o impacto da Primeira Guerra Mundial sobre uma importante camada de soldados e jovens nacionalistas, em grande parte da classe média e média baixa, os quais, depois de novembro de 1918, ressentiram-se de sua oportunidade perdida de heroísmo.”; “Cinqüenta e sete por cento dos primeiros fascistas italianos eram ex-soldados. Como vimos, a Primeira Guerra Mundial foi uma máquina que brutalizou o mundo, e esses homens se regozijaram com a liberação de sua brutalidade latente” (p. 128). Estas ondas, antes do conflito de 1914-18, embora barulhentas, eram facilmente controladas pelas elites daqueles estados, entretanto, quando estes encontraram suas derrocadas (como a passagem do regime imperial alemão para a República de Weimar), essas massas da extrema direita puderam se manifestar livremente e sem grandes concorrências, tirando os comunistas/socialistas, que foram banidos na maioria dos novos estados totalitários após os líderes fascistas tomarem o poder.

Com isso, a hegemonia dos regimes democráticos viu uma decadência no número de países que aderiam a tal democracia, a quantia de países em que o sistema democrático era vigente foi caindo na mesma media em que dava lugar aos regimes totalitários, elucida o historiador .

O surgimento de tais regimes, segundo Hobsbawm, também se dá há uma não representatividade total dos povos por meio do sistema democrático, os velhos regimes se encontravam completamente ineficazes. As massas proletárias, especialmente, se viam encurraladas entre seus patrões que muito eram beneficiados dos regimes e por um pensamento oriundo da classe média que destacava o medo da revolta social: “A ascensão da direita radical após a Primeira Guerra Mundial foi sem dúvida uma resposta ao perigo, na verdade à realidade, da revolução social e do poder operário em geral, e à Revolução de Outubro e ao leninismo em particular” (p. 127) , ou seja, uma rejeição ao modelo esquerdista. Seguindo as regras do establishment democrático (eleições e representatividade) foi a maneira que os políticos totalitários usaram para alcançar o poder, “Contudo em nenhum dos dois Estados fascistas o fascismo ‘conquistou o poder’, embora na Itália e na Alemanha se explorasse muito a retórica de se ‘tomar as ruas’ e ‘marchar sobre Roma’. Nos dois casos o fascismo chegou ao poder pela conivência com, e na verdade (como na Itália) por iniciativa do velho regime, ou seja, de uma forma ‘constitucional’. (p. 130).

 

A ascensão dos regimes totalitários

O autor também ressalta que, não fosse a adesão da Alemanha ao nazismo, o fascismo em todas as suas formas nunca seria algo que iria além da Itália, embora esta financiasse pequenas lutas e resistências em outros países, foi a “consistência” de Hitler que emplacou o fascismo por toda a Europa, e somente graças a esta que a Segunda Guerra Mundial ocorreu, em virtude da incompetência militar Italiana.

Hobsbawm aborda também a coerência do Japão com as ideologias fascistas, mesmo este não sendo um país fascista de facto, as tradições e filosofias de vida japonesas compartilhavam da mesma disciplina e mentalidade hierarquizada dos fascistas, “Os japoneses não perdiam para ninguém em sua convicção de superioridade racial e da necessidade da pureza racial, em sua crença nas virtudes militares de auto-sacrifício, obediência absoluta a ordens, abnegação e estoicismo. Todo samurai teria endossado o lema das SS de Hitler (Meine Ehre ist Treue, mais bem traduzido como “Honra significa subordinação cega”)”. Pelo natural alinhamento ideológico com o fascismo, o Japão não viu grandes problemas para se alinhar com os países do Eixo.

A Bolsa de Wall Street durante o “Crash”.

Já se tratando das Américas, o escritor evoca o fato de, em decorrência do crash de 29, e por conta da grande dependência das economias latinas da americana, quase todas as democracias sul-americanas foram derrubadas através de golpes de estado, em sua maioria, militares. Em sua maioria com um viés extremamente fascista, mesmo estes não se declarando fascistas (com exceção da Argentina). Devido ao temor dos EUA por se cercar de pequenos fascistas ao seu redor, é daí que surge a Política da Boa Vizinhança, mas mesmo assim ineficiente “A América Latina da década de 1930 não se inclinava a olhar para o Norte” (p. 137).

Para concluir, o autor elucida a união dos Aliados, embora ideologicamente muito díspares, para acabar com os fascismos. Baseados em conceitos iluministas, como a igualdade e a rejeição à privilégios raciais as potências se aliaram em combate ao Eixo e sua ideologia a qual nunca mais surgiria no contexto político, “O fascismo desapareceu com a crise mundial que lhe permitira surgir. Jamais fora, mesmo em teoria, um programa universal” (p. 176). Com isso, se inicia um novo ciclo mundial e econômico dividido em dois polos (EUA e URSS) novamente afirmando suas diferenças e, por conseguinte, inimizades.

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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