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Bradford, Yorkshire: an industrial landscape Date: 1873 Source: Unattributed engraving in Illustrated London News, 20 September 1873, page 260

As cidades da revolução industrial

“Sublime Terror”: Estas duas palavras definem a cidade vitoriana desde o início industrial até os dias antes da crise de 1873. A arquitetura vitoriana dos 1800, inspirada na glória clássica e no poderio dos antigos contrasta com o crescimento desenfreado, a pobreza dos bairros industriais e o mal-estar social, ambos lado-a-lado.

Os romantistas da virada do século já expressavam com bastante hiperbolia o mal-estar causado pelas alterações de ordem econômica e social da revolução técnica. Os fluxos migratórios e o aumento da densidade populacional incomodaram o meio urbano e provocaram um sentimento de fuga para o campo, para um refúgio bucólico e feudal. Esses romantistas burgueses também foram rápidos em denunciar os contrastes sociais e se sensibilizar pelo pobre, mas sua militância não saia das páginas e nunca fora aos parlamentos.

Ao contrário destes, um outro grupo de intelectuais, já pragmáticos e chamados e utilitaristas lançaram sua máxima: “a situação mais útil é aquela que leva a maior felicidade geral”. Os utilitaristas portanto, buscavam soluções práticas para resolver os problemas da pobreza generalizada e do mal-estar da época. Sua filosofia foi útil também para lançar as bases para o pensamento liberal oitocentista.

Mas esta intelectualidade seja romântica ou pragmática não estava imersa de fato na questão social. Eram todos pensadores burgueses excetuando um ou dois, que analisavam a sociedade e suas contradições por meio de uma vitrine metodológica.

Alguns deles, no entanto, aventureiros sociais, párias, renegados e vanguardistas conseguiram imergir e se misturar no fundo da sociedade. Eles conseguiram por proeza e habilidade publicar escritos, teses e poesias. Baudelaire, Flora Tristan são exemplos dessa gente que talvez tenha sido precursora de uma sensibilidade única e uma análise distante das vitrines e próxima a observação participante só descoberta décadas depois pela antropologia.

Turbilhão, confusão, massa: Praças lotadas de homens e mulheres vindos de terras do interior rural, antes enraizadas em uma servidão feudal agora jogadas nos trabalhos da era do vapor. O homem estava desenraízado de seu tempo, de sua cultura e de sua habilidade. Se para o comentarista burguês, aquela era uma época incerta, não duvido nada de que o mesmo era para o trabalhador comum.

Esse trabalhador, descendente do homem campesino, marca a última geração de uma longa história de servidão rural na Inglaterra. Esses servos não viviam apenas em suas famílias nucleares –Pai, Mãe, Filhos-, vivam sobretudo em comunidade. As interações comunitárias, a fofoca, as refeições coletivas, os ritos religiosos, tudo isso fez parte da vida dessas pessoas durante gerações e gerações. A vida era provinciana, regulada pela natureza e refém das alterações climáticas.

Isso porque até a revolução industrial, a natureza dita em grande medida a economia do homem e este não é capaz de mudar esse jogo imemorial. Contudo, com a revolução, o homem domestica, entende e manipula a natureza. A produção agrícola dispara, a implementação de novas técnicas e abertura dos mercados permite que alimentos baratos cheguem do novo mundo aos mercados ingleses. A fome não ceifa mais as vidas, do contrário, as condições insalubres de trabalho e os baixos salários o fazem.

***

A cidade vitoriana é um lugar de oposições: as colunas neoclássicas de mármore e seus palácios de aço e vidro contrastam com o os prédios de tijolos e cimento dos bairros proletários. As indústrias poluem os céus com suas fumaças escuras e se misturam com as nuvens de algodão. Enquanto isso, uma dama lê seu livro tomando chá nos jardim de seu palacete enquanto os operários de st.Giles bebem cerveja nos Pubs e jogam futebol.

As velhas muralhas e castelos das antigas cidades foram substituídas pelas grandes boulevards, os bairros e a vigilância constante de uma numeroza e expediente tropa policial. A vida vadia e o desemprego são punidos gravemente com a lei dos pobres. O trabalhador inglês ou vai trabalhar em condições proibitivas ou vai para uma das cadeias de lá. O cárcere ganha a sua atual dimensão pela primeira vez. A prisão se torna uma prática, quase uma solução social; depois dela a deportação para as colônias. É assim que o governo lida com aqueles que não se encaixam na nova ordem social.

A essa nova Ordem, vem a resistência na qual os intelectuais, românticos ou não, burgueses ou não, irão fazer oposição. Enquanto isso, a prole, longe de suas origens, jogada nos entretenimentos baratos, verá nesses pensadores, motivos para acreditar. E assim o comunismo, o anarquismo, o feminismo e todos os novos pensamentos de contestação surgem e ganham força.

As cidades da revolução industrial no final das contas são um recorte geográfico e temporal móvel. A realidade que se viveu na inglaterra vitoriana foi sendo repitida e re-experimentada pelas outras cidades do mundo na medida que foram se industrializando. É incorreto afirmar, que ao entender as novas urbanizações, um analista teria os mesmo conhecimentos para entender a urbis oitocentista, no entanto uma ponte entre os dois é possível senão desejável.

Para entendermos sobre tudo a mentalidade e a recepção intelectual das cidades devemos sobretudo utilizar-se do termo mal-estar. O mesmo mal-estar que foi utilizado pelo romantismo e que sentimos diariamente em nossas vidas. Essa forma de sentir causa inquietude e nos move a pensar numa outra realidade diferente da nossa, seja em um passado que não volta ou em uma utopia futura que não chega. Por mais que romantizar não seja a solução, como os utilitaristas mesmo comprovaram, precisamos entender uma coisa. Que as romantizações que fazemos –como sociedade- não subproduto de uma realidade líquida e incerta advinda de uma cidade que até hoje assusta, de uma multidão que confunde  e que padroniza.

Viver hoje na cidade é um fato para muitos de nós, no entanto, como baudelaire disse:

“Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte.”

Por último, creio que esse trecho diz duas coisas.

A primeira delas que o homem urbano é desafiado constantemente a sobreviver em meio a sua própria perda de identidade em meio a multidão. Aquele que convive com essa realidade é o novo homem urbano.

A segunda, menos óbvia, é um tanto política. A nova concentração das sociedades em grandes cidades configurou também uma nova realidade para a luta ideológica. Aquele político ou aquela ideologia que seduzir e se mesclar em meio as massas populares será a nova ideologia vencedora.

Em meio a todo esse mal-estar urbano, falta de identidade e liquidez, uma força empurra os homens e as ideias numa corrida darwinista. Uma seleção natural que determina aquilo que está melhor adaptado para se multiplicar e se estabelecer como hegemonia, seja a vigente ou alguma outra.

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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