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A icônica capa do vinil.

50 Anos de Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band: O que você pode ter deixado de reparar

Este artigo é uma adaptação de um trabalho acadêmico, redigido pelo mesmo autor e utilizado para fins de pesquisa em comunicação e história para a Universidade Federal do Paraná no ano de 2016.

 

Introdução: O auge da contracultura

Nos anos 60 a cultura hippie e psicodélica se tornara um fenômeno global. As experiências do psicólogo e neurocientista Timothy Leary já se tornavam conhecidas mundialmente, marcando-o como ícone da lisergia, sendo este amigo pessoal de John Lennon (sendo o Dr. inspirador da música Come Together (1969) e referenciado em “Give Peace a Chance (1969)”.

A utilização de elementos alucinógenos para experiências espirituais e recreativas se espalhava na mesma medida que uma cultura de rejeição ao conservadorismo crescia, o que posteriormente culminaria no Maio de 68.

Nesse contexto, a banda britânica The Beatles lança o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O disco é aceito quase que com unanimidade pela recepção crítica e popular, de acordo com a revista americana Time o álbum foi “Uma saída histórica para o progresso da música – qualquer música”, o jornal britânico The Times descreveu o álbum como “um momento decisivo na história da civilização Ocidental”. Se tratando da banda em questão, que já era um fenômeno, o álbum composto de experimentações musicais, letras de cunho político e com referências a drogas, novas texturas e ritmos, não encontrou obstáculos em suas vendas. Nas palavras do próprio produtor da banda, George Martin: “Ninguém seria o mesmo depois de ouvir o novo disco”.

A icônica capa do vinil.

As referências contraculturais dentro do álbum são inúmeras, dentre elas estão:

 

With a Little Help from my Friend

“No, I get by with a little help from my friends
Mm, I get high with a little help from my friends
Mm, going to try with a little help from my friends”

A música, escrita por Paul McCartney e John Lennon, cantada por Ringo Starr sob o pseudônimo, no álbum, de “Billy Shears”, a letra fala sobre amizade, união entre os amigos, que estes estarão ao seu lado quando os tempos forem difíceis. Na segunda estrofe do texto destacado “I get high with a little help from my friends” é traduzida para “Eu fico ‘chapado’ com uma pequena ajuda dos meus amigos’, se referindo ao consumo de drogas ou bebidas alcoólicas.

 

Lucy in the Sky with Diamonds

A música inteira descreve uma experiência “imaginativa”, nas quais envolvem referências ao livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Caroll, flores gigantes, táxis de jornal, uma garota com olhos de caleidoscópio, entre outras referências. A faixa pode ser interpretada como uma completa experiência psicodélica, ainda mais com a associação das maiúsculas no título, “Lucy in the Sky with Diamonds” (LSD). Mesmo com posterior esclarecimento do compositor, John Lennon, que se tratava de um desenho de seu filho, a música se tornou hino da cultura psicodélica e da lisergia.

 

Getting Better

A faixa conta a história de homem que antes era irritado, estressado e agressivo e sua superação de tudo isso, “Eu tenho que admitir que estou melhorando”, menciona parte da letra. A música traz consigo o uso de uma Tanpura indiana, mostrando o interesse da época com o exótico e oriental. Durante a produção do álbum a banda teria contato com um líder espiritual hindu, posteriormente viajando para a Índia e se aperfeiçoando em meditação transcendental.

 

Fixing a Hole

A música, escrita por Paul McCartney, trata sobre meditação e conhecimento próprio, elemento fortemente presente na cultura hippie. Logo nos primeiros versos:

“I’m fixing a hole where the rain gets in

And stops my mind from wandering

Where it will go”

O autor se encontra em um estado de distração, precisando encontrar autoconhecimento e introspecção para poder determinar os rumos de sua vida. Nos refrões da música, lê-se:

“And it really doesn’t matter if I’m wrong

I’m right

Where I belong I’m right

Where I belong”

“E não importa se estou errado, estou certo. Onde eu pertenço estou certo, onde eu pertenço.” O autor moveu suas concepções de politicamente correto e agora faz o que considera certo, o que o faz bem. Isso contraria as diversas regras sociais de uma sociedade fundamentalmente conservadora britânica, com a mensagem “faça o que é certo pelos seus olhos, não pelos olhos dos outros”, como estilo de vida na época da contracultura. A princípio a música foi vista com maus olhos, “Fixing a Hole” foi interpretado como referência ao uso de heroína quando realmente a canção era mais um “ode” à maconha, assim como “Got to Get You into My Life”, do álbum “Revolver”, lançado no ano anterior ao “Sgt Pepper’s”.

 

She’s Leaving Home

A canção, escrita por John Lennon e Paul McCartney, baseada em acontecimentos reais do mesmo ano (1967), conta a história de uma garota que fugiu de casa. Na letra a garota tem tudo o que o dinheiro pode comprar, mas não tem diversão, a garota fugiu com seu namorado e “agora está se divertindo”. Um escape da cultura do consumo para viver uma vida de hedonismo longe da civilização dogmática.

 

Being for the Benefit of Mr. Kite!

A música, escrita por John Lennon, é inteiramente baseada em um poster de circo que este havia adquirido no mesmo ano. A faixa é considerada uma das mais experimentais do álbum todo, de acordo com o produtor da banda, George Martin, ele mesmo tocou um órgão e depois acelerou o tempo do tape, entretanto a experiência falhou, e mesmo usando um órgão de vapor do século XIX, um engenheiro de gravação foi contratado para recortar os pedaços do tape com uma tesoura e colocá-los em ordem aleatória em sincronia com a música.

 

Within You Without You

A única música do álbum escrita por George Harrison, é inteiramente composta com instrumentos da cultura hindu, sendo que no ano seguinte o compositor havia passado seis meses na Índia com seu mestre de meditação, Ravi Shankar. O próprio título explicita o conteúdo da música, o que está “dentro e fora de você”

“We were talking – about the spaces between us all

And the people – who hide themselves behind a wall of illusion

Never glimpse the truth – then it’s far too late – when they pass away”

O autor fala sobre “o[s] espaço[s] entre todos nós”, se referindo ao profundo conhecimento interno que é possível alcançar através da meditação. Também fala sobre pessoas que se escondem atrás de paredes de “ilusões”, pessoas ligadas ao material, dinheiro, objetos e subjetividades da vida mundana, que “nunca percebem a verdade”.

“Tente perceber que está tudo dentro de você, ninguém pode fazê-lo mudar”, diz outro trecho da canção.

Lovely Rita

A música se trata de uma “meter maid”, uma espécie de fiscal de trânsito, que passou pelo carro do autor, fazendo-o se apaixonar. As principais características estão na composição sonora da música, a experimentação de recortes nos tapes, repetição de sons várias vezes criando padrões é evidente. Pentes e papéis amassados foram usados para criar sons ao background.

 

Good Morning Good Morning

Escrita por John Lennon, a música se trata da monotonia, insatisfação e sensação de vazio em ser uma pessoa “normal” vivendo na cidade.

“Going to work don’t want to go feeling low down

Heading for home you start to roam then you’re in town

Everybody knows there’s nothing doing

Everything is closed it’s like a ruin

Everyone you see is half asleep

And you’re on your own, you’re in the street

Good morning, good morning”

“Todo mundo que você vê está meio dormindo, e você está a sua própria sorte nas ruas, bom dia, bom dia!”, descreve um fenômeno que começou a acontecer a partir dos anos 40, das pessoas estarem nas ruas mas não prestarem mais atenção em nada que se passa ao redor. A música traz vários elementos sonoros, como sons de vários animais, buzinas e elementos presentes na cidade, como se estes estivessem “ao redor”.

No último verso: “Somebody needs to know the time, glad that I’m here”, (Alguém precisa saber que horas são, fico feliz por estar aqui”), o autor finalmente se sente realizado por alcançar algum propósito em sua vida, dizer as horas a alguém que lhe perguntou.

 

A day in the Life

Certamente a música mais controversa do álbum, “A day In the Life” foi banida no Reino Unido por conta da passagem “I’d love to turn you on”, em referência às experiências com LSD, onde, para Timothy Leary “turn on” ou “ligar-se” era basicamente entrar no transe causado pelo ácido. Outras interpretações advindas da BBC a respeito da passagem “found my way upstairs and had a smoke, somebody spoke and I went into a dream”, (“encontrei o caminho escadas acima e fumei um cigarro, alguém falou e eu entrei em um sonho”), segundo a emissora a música evidentemente advogava pelo uso de drogas. O banimento foi posteriormente revogado em 1972.

 

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band & Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Reprise

As músicas que levam o nome do álbum introduzem e finalizam um dos álbuns mais experimentais da carreira da banda britânica, sob os alter egos da banda de Sgt Pepper’s os membros da banda utilizaram tais “disfarces” com a finalidade de sentirem-se mais livres e criar o ambiente propício para suas experimentações, embora ambas as músicas não contenham referências explícitas ou implícitas (aparentemente) à elementos contraculturais, estas são marcos de início ao que foi considerado um dos ícone da contracultura. Em entrevista após o lançamento do álbum, Paul McCartney comentou que nos momentos da gravação pensaram “Não vamos ser nós mesmos. Vamos desenvolver alter egos”.

A fonte estudada pode contribuir com o estudo da contracultura no mesmo sentido em que faz-se análises da sociedade no momento, uma era de experimentações, exoticidades e psicodelia retratado em sentido literal em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, uma forma de quebrar com barreiras do passado exaltando a cultura hippie e a lisergia.

Em comparação com os tempos atuais, a aglutinação das cultura psicodélica pelo mercado, ou seja, a sua venda muda completamente o panorama atual com o da década de 60. O contracultural era o inovador e aquilo que foi, hoje é comercial, tratando-se dos modos de vida daqueles que abraçaram a contracultura. Sobre o consumo de drogas, seu uso recreativo e religioso ainda permeia a sociedade atual, e a visão crítica das camadas mais conservadoras da sociedade permanece, de certa forma, a mesma. Experimentos com alucinógenos, tais quais aqueles que Timothy Leary fazia na época ainda configuram um tabu social e as pesquisas acerca acabam sendo ultimamente atrasadas.

 

Referências:

Bibliografia base para comparação dos elementos:

LUZ, A. P. “A arte psicodélica e sua relação com a arte contemporânea norteamericana e inglesa dos anos 1960: uma dissolução de fronteiras”. Mestrado, UEPJMF, 2014. Disponível em http://base.repositorio.unesp.br/handle/11449/110343 Acessada em 18/10/2016

 

Fontes sobre as letras e composição do álbum:

“The Beatles’ Bible” – “Sgt Peppers’ Lonely Hearts Club Band”, disponível em <https://www.beatlesbible.com/albums/sgt-peppers-lonely-hearts-club-band/>, acessado em 18/10/2016.

“BBC Music Review: The Beatles Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band Review”, disponível em <http://www.bbc.co.uk/music/reviews/5dcz/>, acessado em 18/10/2016.

Wikipédia: The free encyclopedia – Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band – Music and Lyrics, disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Sgt._Pepper%27s_Lonely_Hearts_Club_Band#Music_and_lyrics>, acessado em 18/10/2016. Com referências em:

Grillo, Ioan (2011). “El Narco: Inside Mexico’s Criminal Insurgency.” Bloomsbury Press. p. 38. ISBN 978-1-60819-401-8.

MacDonald 2005, p. 240.

Glausser 2011, p. 29: A negação de Lennon e McCartney sobre referências a drogas em”A Day in the Life”.

Whiteley 2008, pp. 18–19.

“The Beatles Anthology” autobiografia dos membros da banda, 2000.

CLOCKE, N. M. Geoffrey. “Analysis of Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band (by The Beatles)”, Middlesex University.

Disponível em: <http://www.geoffcloke.co.uk/SergeantPepper.pdf>, acessado em 18/10/2016.

CARVALHO, Cesar.  Doutorando em História, curso de pós-graduação da Unesp, campus de Assis, SP, e professor de Comunicação Social, Publicidade & Propaganda, da Fema – Fundação de Ensino Municipal de Assis, SP. “Contracultura, drogas e mídia”, apresentado no  XXV INTERCOM 0 Congresso  Brasileiro de Ciências da Comunicação – Salvador/BA, de 2002.

Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2002/congresso2002_anais/2002_NP13CARVALHO.pdf>, acessado em 18/10/2016.

About Vitor Machado

Estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na Universidade Federal do Paraná. Amante de história e escritor de fanfic. 19 anos.

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