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5 motivos que impediram a dominação mundial

Ao longo da nossa história, a humanidade vem apresentado diversas tentativas de unificar grandes porções de terra ou um grande número de súditos sob um mesmo governo. Não é mentira dizer que algumas civilizações e líderes já chegaram relativamente perto da dominação mundial. No entanto, nenhum deles realmente conseguiu criar um império que chegasse lá.

No artigo de hoje listarei alguns motivos ilustrados de exemplos sobre o tema e já faço claro o meu argumento aqui :

“A conquista mundial é algo impossível pela força”

Dito isso, uma vez que até pouco tempo atrás a forma mais comum de conquista era por meios bélicos, então fica fácil entender como que ninguém conquistou o mundo até agora.

Conquista: A justificativa humana

Os relatos pictóricos mais antigos do nosso passado retratam homens caçando animais. Mais tarde, cerâmicas com desenhos e tabuinhas de barro mostram contagens e inventários de grãos, bois e frutas. Não restam dúvidas de que o homem  faz parte de um microcosmo econômico e que o início da civilização humana se baseou na ideia tomar conta de tal microcosmo. Desde a revolução do neolítico, momento mais importante da nossa raça humana, o homem tem buscado meios de se ajustar a natureza e de fazer esta ajustar-se a ele. As tecnologias mais importantes da nossa infância como civilização foram simples ferramentas campesinas.

O paragrafo anterior apenas reforça o seguinte argumento: A história humana também é a história dos recursos econômicos geridos por grupos humanos e a interações entre esses grupos. De tal modo que a medida que as sociedades divergem nas suas formas de produzir e de se estabelecer há também diversas formas de possuir mais recursos.

Seguramente quando para um grupo valia mais a pena tomar os recursos de outros em certas ocasiões do que produzir por conta própria aí reside o espírito da conquista que foi, na sua forma original, o oficio da guerra.

Ainda quando éramos caçadores-coletores, grupos humanos tinham um certo trabalho de proteger sua coleta de grupos vizinhos ou também de conseguir roubar um pouco para não morrer de fome. Quando não eram motivos de subsistência envolviam novas formas de simbolismo, talvez promessas de casamento não cumpridas ou inimizades entre sujeitos.

Seja como for ou por qualquer motivo, a empreitada de conquista apenas se concretiza quando:

-Há um oponente que pode ser vencido;

-Há uma vantagem em ganhar o conflito.

Quando ambas as condições se apresentam verdadeiras, pelo menos na mente do agente histórico, é então deflagrado um conflito.

Portanto, a conquista e os conflitos só fazem sentido quando há recompensa; e não há recompensa maior do que o poder econômico rival. Sendo assim, as assimetrias dos primeiros sistemas econômicos humanos, a escassez de recursos e os distintos caminhos humanos levaram a inúmeros conflitos desde o passado, até hoje.

Os 5 motivos

1º – Competição

Esse é o motivo principal e perpétuo que impede toda e qualquer tentativa de conquista mundial. Não importando o seu poderio nem o tamanho de sua hegemonia, qualquer império está sujeito a rivais. A rivalidade e a competição entre países menores ou potências de mesmo poderio constitui até hoje a principal dinâmica com a qual a geopolítica humana funciona.

De tal modo, desde muito cedo, a geopolítica humana percebeu a importância de alianças e da medição do poder dos vizinhos, para que estes não crescessem muito poderosos e que os fracos não fosse ao todo, exterminados.

Sendo assim, os mais sábios estrategistas da antiguidade já sabiam que a conquista é algo muito mais sutil e dependente do aparente jogo de poder do que o poder em si. Em outras palavras, uma nação nunca deve se mostrar muito poderosa se almeja conquistar algo, visto que só subestimada pode conseguir aliados fortes e só assim também poderá conquistar sem haver alvoroço estrangeiro.

Em regra geral, a competição entre reis e príncipes é algo muito difícil de controlar e depende da virtuosidade e da fortuna de um soberano ( já dizia Maquiavel ) e devido a tal dificuldade, muitos impérios e prósperas cidades sucumbiram diante as competições rivais.

PS: Foi por esse motivo que Hitler não dominou o mundo. Até parece que ia ser fácil usando apenas força bruta.

2º – Manutenção do poder

Este motivo agora diz respeito não as ameaças externas mas as internas. Inimigos políticos dentro do reino e usurpadores em meio as cortinas de palácios são um fenômeno antigo que foi a causa mortis de inúmeros domínios humanos.

As vezes inclusive, intrigas palacianas e movimentos separatistas podem ser usados por estados estrangeiros para dividir a nação por dentro de modo a facilitar a conquista do estrangeiro. Tanto Felipe II da Macedônia como Júlio César sabiam muito bem o significado disso.

Dado a importância do poder interno, para um país alcansar a dominação mundial seu governo deve se manter sólido e sua população obediente, para que não se dissolva e seja conquistada. Quanto a essa última frase, haverá muito de dizer a respeito a próxima razão.

3º – Diversidade Étnica

Muito antes sedentarização humana, nossa espécie já havia percorrido e estava habitando  a maior parte das terras do globo. Ao longo de muitos anos, desenvolveram suas próprias características físicas e culturais. Dado o surgimento das primeiras cidades e impérios hidráulicos, a expansão sempre teve de contar com a diversidade étnica das regiões assim como do globo.

Portanto, eis um importante argumento e limitante da conquista global:

“A Diversidade étnica e cultural humana é um fato e a conquista por meio das armas não é capaz de transpor tal barreira”

Esse argumento se fez presente até a segunda guerra mundial com o sórdido advento da prática do genocídio industrial. Hoje em dia, esta prática é amplamente vista como crime contra a humanidade e é condenada diante a comunidade internacional. No entanto, grandes massacres e outras práticas genocidas ocorreram antes da segunda guerra mundial.

Sobre elas, existe uma questão por detrás do genocídio que surpassa as evidentes assertivas morais. Nunca até a segunda guerra mundial o genocídio foi utilizado como forma de   exterminar com um povo “de facto”, muito antes como uma forma de enviar uma mensagem da brutalidade dos novos conquistadores e impedir que revoltas acontecessem. Foi assim que fez Hulegu khan em 1258 D.C, quando ordenou que a cidade de Bagdá queimasse inteira e toda a população fosse exterminada.

Maquiavel, um estudioso do poder, também nos aponta uma outra forma de lidar com súditos estrangeiros.  Diz ele que é vital o assentamento de sujeitos da etnia do soberano em terras estrangeiras de modo a criar uma elite e provocar uma divisão nevrálgica no seio da sociedade local, que na qual Maquiavel se referia, era o campo.

Não muito longe vemos uma política similar em andamento como acontece em Israel, onde os assentamentos judeus marmorizam-se com os palestinos e causam divisão e aumento da influência israelense na região.

Ou seja, desde muito tempo, até a segunda guerra, a prática de extermínios em massa fora utilizada mas quase nunca como extermínio de uma cultura. Os antigos e também maquiavel sabiam dos riscos mas também da importância de novos súditos.

Bem-sucedidos foram os impérios que jogaram bem com os seus súditos e prosperaram lado-a-lado com eles. Foi este o caso das dinastias otomanas ou também dos califados árabes, que tinham uma política de tolerância aos judeus e outras minorias, em troca de um imposto específico. Em relação aos tribunais e execuções recorrentes na Europa, o pagamento de um tributo acelerou ondas migratórias para as regiões muçulmanas e estas fizeram as regiões prosperarem e o comércio crescer.

Portanto, para uma população conquistada se manter obediente é preciso que esta seja ou leal ou temerosa em relação ao seu senhor. Caso Não seja nem leal nem tema aos castigos, certamente ela se tornará rebelde e buscará ajuda entre os inimigos de seu conquistador para poder se levantar em armas.

Curiosidade: Uma maneira bastante ilustrativa de entender o poder em nossa sociedade ( em especial as mais antigas ) está em entender o poder e hierarquia dentro dos exércitos. Por exemplo, dentro do exército Romano da antiguidade havia a prática da “dizimação”. Esta constituía na execução de 1 décimo dos soldados de uma força militar escolhidos aleatoriamente como forma de punição. Essa prática temerosa era conhecida por elevar a moral dos soldados e diminuir deserções ou má performance durante marchas exaustivas. De certo modo, o medo que os soldados romanos tinham de seus superiores podia superar ao de seus inimigos e isso os mantinha disciplinados e obedientes.

Quanto mais autoritária e autocrática uma sociedade for, mais parecido o seu ethos* será de um exército da antiguidade.

*ethos: Característica fundamental de uma sociedade, qualidade cultural e étnica da forma de gerência e comportamento social.

4º – Barreiras tecnológicas e Administrativas

A medida que um império cresce de tamanho e seus súditos se tornam cada vez mais numerosos, o peso administrativo aumenta consideravelmente.  Além disso, considerando que para o benefício de um império, um aumento demográfico ou territorial deva significar um ganho, isto significa que uma boa administração deve ser colocada em lugar para manter o império em ascendência.

Foi esta a estratégia adotada pelas sucessivas dinastias da milenar civilização chinesa e adoção do modelo administrativo confucionista pelo ethos desta civilização. Confúcio, foi ao mesmo tempo um filósofo e também um importante pensador que pavimentou as bases para o estadismo chinês. A china ao longo dos seus milênios, conseguiu perfeccionar tanto a arte de sua administração que nunca chegou a perder a sua unidade administrativa própria.

Permita uma explicação mais direta: Dinastias após dinastias governaram a China porém desde a adoção do confucionismo, do estadismo e do mandato celestial, o Império do meio sempre se manteve um só.  Este é um belo exemplo de sucesso administrativo.

Por outro lado, esse sucesso na manutenção dos assuntos internos custou muito para a China posteriormente, uma vez que suas políticas se tornaram gradativamente isolacionistas.

No resto do mundo,  a prática se repete: Os impérios crescem, dão maior autonomia para províncias distântes, jogam com poderes locais, fazem alianças, conquistam, anexam, vassalizam etc etc etc… Usam de todos os meios para manter uma administração hegemônica longe do desmoronamento e por mais que tentem se manter de pé, caem devido a outros problemas.

E como falar de problemas administrativos sem falar de tecnologia e logística? Ao lado de todo extenso império sempre existe ( ou pelo menos existe a necessidade de ) um sistema de transportes e mensagens razoavelmente bom. Vejamos um breve histórico dos sistemas de comunicação e locomoção de alguns importantes impérios humanos:

Império Romano : A criação das estradas romanas, que viabilizaram o deslocamento de exércitos com rapidez pelo império; A política do “Mare Nostrum” romano que garantia o mar mediterrâneo como um lago latino e permitia o livre deslocamento de grãos e soldados com facilidade.

Dinastia Han (China) : A criação do canal imperial e muitos outros canais ao redor e entre os rios amarelo e azul possibilitou o rápido comércio e comunicações entre a capital imperial (Beijing) e as importantes cidades no centro-leste Chinês (Nanking , Shanghai); A muralha da China, além de fornecer uma barreira contra invasões servia também como via para deslocamento de patrulhas e informações criando uma eficaz forma de defesa.

Império Mongol: A criação de rotas para mensageiros com postos avançados com suprimentos permitiu um rápido deslocamento de informação por todo império.

Impérios Português e Espanhol: O melhoramento das cartas e práticas de navegação possibilitou as grandes navegações que por sua vez permitiu que essas duas nações mantivessem colônias a milhares de quilômetros de distância de seus países.

Treze Colônias Norte-Americanas: O desenvolvimento de um sistema postal de qualidade que teve um papel fundamental na vitória durante a guerra de independência.

Império Britânico: O advento do navio a vapor e do telégrafo que logo se difundiram para outras potências coloniais e permitiram a subjulgação e administração de possessões ultramarinas diversas, especialmente graças ao constante barateamento geral de custos advindo com a revolução tecnológica-industrial.

Esses exemplos ilustram a necessidade de um sistema de comunicação eficiente e viável para a manutenção de um império global.

5º Estagnação e depressão econômica

Para um grande império, não basta apenas conquistar, manter seu território e administrá-lo com cautela, é preciso também gerar riqueza. Um estado que não gera riqueza está fadado ao fracasso. Um exemplo interessante é o império romano:  Entre muitos outros fatores que não só contribuíram mas foram decisivos na queda do império, a estagnação do mercado de escravos e a balança negativa ostensiva na economia fez o aparato estatal romano explodir o orçamento interno.

Explicando de outra maneira: Quando o império Romano parou de invadir países e expandir suas fronteiras, ele parou também de adquirir um de seus mais importantes produtos:  escravos. Uma vez que as políticas romanas também foram se voltando mais e mais para medidas populistas, os gastos públicos alavancaram e o tesouro nacional foi pouco a pouco porém constantemente sendo sugado. A economia romana não conseguiu substituir sua principal fonte de renda e ao mesmo tempo, seus gastos não paravam de aumentar, de modo que o fluxo de moedas romanas ia rumo ao oriente.

Ao longo de um, dois séculos, o exército, cheio de privilégios estava rebelde; A população estava acostumada com o entretenimento e Roma só não passava fome graças aos grãos vindos das províncias, em especial, do Egito.

Pois bem, darei mais dois breves exemplos para elucidar ainda mais a gravidade da economia na situação de um país.

O reino absolutista da França em 1763, havia perdido uma baita guerra contra a Grã-Bretanha, agora coroada como a Rainha dos Mares. Tendo perdido uns bocados de dinheiro durante os sete anos de guerra e ainda mais com a perda de colônias na América e nas índias, a França estava em maus lençóis. Para piorar a situação, boa parte continental européia passou por uma grave onda de calor que devastou colheitas e causou fome generalizada.

Para recuperar a economia desgastada pela guerra e pela fome, o Rei deveria aliviar impostos e abrir as reservas de grãos para o mercado nacional. Ao invés disso, decidiu entrar em outra guerra contra a Inglaterra, desta vez ao lado dos rebeldes americanos do outro lado do Oceano Atlântico. O grão que ia para os mercados nacionais foram para tropas francesas e aliadas nas américas e o a carga tributária foi aumentada consideravelmente deixando a população em condição de miséria.

A situação agravou-se tanto por lá que uns intelectuais acabaram ganhando força com a insatisfação popular e acabaram derrubando um dos regimes mais poderosos da história européia de sua época. Tudo graças a uma má gestão econômica.

Por fim, trago o exemplo da Rainha dos mares, Inglaterra.

Essa dondoca e mais um belo dum partidão prussiano conseguiram “ganhar” uma guerra contra basicamente toda a europa. Ganhar ficou entre aspas por que a vitória ficou mais para um status quo, mas como quem começou as agressões foram prussia e Grã-Bretanha então, pode se dizer que eles sairam na melhor. Além disso, a inglaterra ganhou inúmeras possessões coloniais e garantiu de vez sua hegemonia nos mares (Rule Britannia! Britannia rules the waves!)

Tudo estava bem até que uns colonos Norte-Americanos decidiram pedir representação no parlamento, ao qual os ingleses se viam muito melhores para aceitar aquele tipo de abuso e isso acabou por deflagrar uma guerra que terminou na derrota ulterior britânica, dessa forma marcando o fim de seu domínio sobre as terra onde são hoje a parte leste dos Estados Unidos.

Tudo estaria perdido economicamente para os ingleses, visto que um dos motivos da guerra de independencia foi  o aumento das tarifas imposto pelos anglos. Entretanto, Estados Unidos e Grã-Bretanha, recém inimigos decidiram fazer comércio. O comércio entre eles foi de um dinamismo tamanho que impulsionou ambas economias e acabou pagando aquela conta que os ingleses tinham com a guerra dos sete anos.

Basicamente o que aconteceu foi que a Inglaterra já estava passando por um processo de revolução industrial e seu mercado interno precisava urgentemente de materiais para fiação de tecidos.

Os investidores do Norte Estadunidense vendo essa oportunidade de lucro resolveram investir no sistema de Plantation escravista do sul do seu país para estes exportarem matéria prima para a Inglaterra. A Inglaterra passou então a produzir tecidos e vendê-los para o mundo todo por um preço muito barato oque lhes garantiu uma fatia gigantesca do mercado ( Inclusive eles até arranjaram um acordo com Portugal, “Panos e Vinhos” já ouviu falar?)

Por fim, este foi um exemplo de uma reviravolta econômica que alavancou não apenas uma , mas duas economias rumo a suas hegemonias globais. E inclusive, o sucesso econômico britânico foi tão grande que seu império foi seguramente um dos mais próximos de alcançar a conquista mundial.

Porém, se você se pergunta porque os britânicos não conquistaram logo o mundo… isso eu vou deixar para um próximo artigo.

Por hoje é só!

About Salomon Mebain

Fascinado por história e jogos de estratégia. Atualmente sou graduando em História e Editor da página HFMB, assim como criador de conteúdo aqui no Site.

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2 comments

  1. Oi Salomon, adoro seus textos explicativos. Costumo salvá-los no Evernote para imprimi-las depois. Nunca se sabe quando se vai precisar de um texto de explique esta ou outra coisa. Você poderia colocar as fontes que você usou nas pesquisas. Sempre ensino aos alunos o valor da bibliografia. Os textos são salvos com o link é seu nome. Mas não vi a bibliografia utilizada. Obrigado. Rosa.

    • Salomon Mebain

      Olá Rosa! Fiquei muito satisfeito com o seu comentário e seus elogios, muito obrigado!
      Sobre a bibliografia, na maior parte das vezes escrevo textos de caráter ensaístico utilizando conhecimentos que fui acumulando ao longo de minha graduação e leituras (curso história e sou entusiasta por história desde os 11 anos de idade). Apesar disso, não vejo problema de te fornecer uma bibliografia que certamente faz referência a um bom conjunto de informações aí no texto, aí vai:

      BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo;
      FINLEY, Moses. The Ancient Greeks;
      TZU, Sun. A arte da Guerra;
      MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe;
      FALCON, Francisco. Formação do Mundo Contemporâneo;
      FENNER, Julian. To what extent were economic factors to blame for the deterioration of the Roman Empire in the Third Century A.D.?
      BOSCH, Aurora. História dos Estados Unidos

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